23 de nov de 2015

Geração Digital não sabe pesquisar? - Parte I

Por: Eliana Rezende

Um estudo recente, revelou uma realidade lamentável: os estudantes da era digital se contentam com informações rápidas, sem se importar com procedência e fidelidade. E o pior: este déficit não atinge apenas os mais jovens. Mesmo os mais velhos e adultos estão cometendo este erro.

De fato nossa sociedade vem se caracterizando por um déficit de atenção atroz em diferentes segmentos (digo aqui em aspectos pessoais, profissionais e muitas vezes acadêmicos). As pessoas definitivamente estão se condicionando a simples 140 caracteres e a urgência e leituras em diagonal fazem a vida de muitos. A verticalidade e profundidade deixa de ser vista como sinônimo de consistência para ser considerada redundante e repetitiva.

Há também um problema clássico, e este vem de anos: as pessoas em geral buscam fórmulas rápidas e soluções imediatas, sem o uso da crítica. A crítica neste sentido não tem que ver com gostar ou desgostar, tem que ver com questionar sobre procedência, veracidade e confiabilidade.

Nossa cultura social e educacional mudou e os novos discentes precisam como nunca ter uma educação digital. Precisam aprender a pensar sobre conteúdos, interrogar-se, fazer o que se fazia antigamente: fichar textos e buscar conexões para sua aplicabilidade ou pertinência ao que se estuda. Nossos alunos precisam ser instigados a pensar sobre, e não simplesmente, consumir sem critérios.

A sociedade de consumo se estende a tudo e não apenas a objetos materiais. E é em relação a tais temas que temos que pensar.

As dificuldades que encontramos com este novo momento de nossa história educacional coloca-nos o desafio de lidar com um novo conceito de atuação e relação a ser estabelecida com discentes; a produção de conhecimento e sua aplicação profissional. Além de lerem pouco e em diagonal, o território da aplicabilidade está sempre muito distante dos livros. Poucos e escassamente lidos. A mudança de nomes de disciplinas e conteúdos não é sinal de atualização.
Em verdade, há que se mudar paradigmas e modelos mentais!

Em alguns debates surgiu a proposição de que se devia ter profissionais de Biblioteconomia ministrando cursos de Metodologia Científica como forma de minimizar os problemas nas pesquisas.

Reconheço a contribuição que Bibliotecários possam oferecer concernente a dúvidas sobre como encontrar melhores filtros ou possibilidades de buscas. Estamos falando de um problema ainda maior! A consistência intelectual não é feita apenas sobre formas de buscas e usos de tecnologia para tanto.

Os alunos, em função da quantidade exposta de informação, assistem ao que vemos ser uma realidade que está diametralmente oposta à da qualidade. A solidez de um aluno deve, portanto, vir do aprofundamento que tem e que faz de suas áreas de concentração. A pesquisa se provará producente se souber elaborar as perguntas certas. E não creio que ter um bibliotecário na metodologia resolva. O aluno tem que se valer do acúmulo de discussões e desenvolvimentos de suas áreas para saber quais autores trazem um debate à cena de sua área de atuação e deste "diálogo" deverá ser capaz de construir suas reflexões.

Os alunos atualmente leem pouco e isso tira-lhes o potencial da comparação, quer por semelhança, quer por diferença. Não acredito em compartimentos. Sou historiadora e, muitas vezes ministrei Metodologia Científica, mas sempre da Pesquisa aplicada, nunca esta aplicabilidade de normas e procedimentos de ABNT ou consulta a bases de dados em geral, substitui o que vai além: o debate de fundo que existe em cada área e que, ele sim dará profundidade reflexiva necessária.

O que é fundamental que ocorra, e não nos anos de Metodologia Científica lá na graduação, é a educação digital desde os primeiros anos de escola. Os alunos devem ser instigados a pensar e desenvolver a crítica pelo lido, pelo escrito e falado. Precisam aprender a “ler” o mundo em que estão inseridos e que lhes chega por diferentes vias de informação e comunicação (internet, rádio, TVs).

A passividade ante ao dado é que deve ser combatida e ser amplamente discutida para causar a inquietação necessária para produzir perguntas que mereçam boas construções de soluções.

Esse caminho de educação cultural que integre ferramentas, hábitos e comportamentos sociais e culturais é que precisa ser trabalhado. Utilizar ferramentas será apenas uma conseqüência do “pensar, questionar e construir” respostas ao mundo. Portanto, não vejo como tarefa de um, ou de uma disciplina isolada, em um momento da vida do discente. Mas é tarefa multidisciplinar e que começa, se possível, já em casa!

Os pais e outros responsáveis devem contribuir de maneira a fornecer, desde crianças, elementos para crítica do que se lê e o que se busca. Mas a formação a que me refiro deve seguir especialmente na formação dos mesmos.

Sou também docente na área de Gestão Documental e Memória Institucional, mas por largos anos também orientei TCC e ministrava Metodologia Científica. Lembro uma oportunidade que o aluno no dia da banca ter-me dito: "sabe quantas versões vc me fez fazer em um único semestre? 17!" Não havia reprovação, havia perplexidade por eu tê-lo feito rever o trabalho tantas vezes e como disse-lhe no dia: "Ainda há espaço para mais!".

Isto para dizer que o professor, independente de sua formação deve cobrar não apenas pelo conteúdo como pela forma. Este é o meio. Se segmentarmos em vez de somar estaremos restringindo. Não é a formação acadêmica do docente que garantirá melhor ou maior aproveitamento e sim sua argúcia em fazer o aluno ir sempre além e problematizar o que está desenvolvendo.

É do professor o trabalho de ler e reler as pesquisas e desenvolver as mesmas com as interrogações e fragilidades que o aluno e a pesquisa têm.
Só que isso representa tempo e dedicação do docente... e alguns não estão dispostos a tanto, da mesma maneira que muitos alunos não estão dispostos a corresponder a todo este empenho.

Problematização não se resolve ou se propõe com ferramentas de busca e pesquisa, faz-se isso com profundidade teórica. As pesquisas apenas subsidiarão na condução da exposição e desenvolvimento das ideias. De novo voltamos ao ponto de origem: o que move as articulações e grandes descobertas são as perguntas. Elas que movem o mundo!

Há aqui um entroncamento. Estamos vivendo um momento onde a tecnologia está escancarando o que há anos já vinha acontecendo. Creio que houve uma potencialização. Insisto um pouco sobre como nossas gerações precisam de aculturar-se em ambientes digitais e tirar deles o que tem de melhor.

Vejo que cada vez mais pessoas não percebem quanto de nossos hábitos e costumes se transformaram e o quanto às vezes é difícil lidar com a conexão constante, sem contudo aproveitar todas as nuances do que está ao em torno.

De uma sociedade sempre em conexão estamos assistindo ao crescimento de jovens cada vez mais autocentrados e "distantes" com verdadeiros fossos comunicacionais com aqueles que deveriam usufruir de suas presenças físicas.

Algumas culturas, e milenares, estão preocupadas com isso e já introduzem desde a pré-escola formas de se comportar em ambientes de ensino onde há a tecnologia. Na China por exemplo, as crianças aprendem musicas que as incentivam a se levantar de tempos em tempos, mexer os olhinhos e movimentar-se. Parece pouco pela ótica que estamos tratando, mas fundamental para que as mesmas aprendam uma nova forma de se relacionar que não gere dependência ou descontrole.
A introdução de tablets seria interessantíssimo, mas creio que é preciso mudar padrões e construções mentais que tentam fixar tais elementos ao mundo analógico. São coisas diferentes e precisam ser tratadas como diferentes. A "sacralidade" dada aos ambientes e recursos digitais precisa encontrar o seu lugar que é o de ferramenta para alguém que pensa! E não o contrário: alguém que quer uma ferramenta para pensar por si.

Volto aqui a um posicionamento que tenho: não há tecnologias que deem conta da autoconsciência de cada um em busca de seu aprimoramento.

A educação formal encontra-se farta por todo lado, mas a de qualidade precisa ser buscada, concorrida, suada. Muitos não querem todo este esforço. Optam em muitos casos pela lei do menor esforço... e correm atrás apenas de um diploma.
Depois vem o segundo momento, a busca por conhecimento é tarefa individual e intransferível. Não serão instituições que farão isso ao indivíduo. Ele é que terá que buscar, cavar e lapidar seu conhecimento usando ferramentas da educação formal... mas todo o esforço terá que ser ato seu!
Por isso, eu afirmo que não há tecnologias disponíveis que deem conta da indiferença e comodidade. Contra essas não há tecnologia!
Há apenas o desejo intrínseco de cada um e formas criativas de se apropriar do que está disponível.

(Cont...)
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2 de nov de 2015

A Boa Morte é a Arte de saber Viver

Escrito e lido por: Eliana Rezende

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 Sempre penso em palavras que representam tabus. Morte parece-me uma delas.

As pessoas fogem de dize-la, de senti-la ou pressenti-la, considerando-a como de mau agouro. E mesmo em face de circunstâncias onde ela se impõe, quer a si próprio, quer a um ente querido, é sempre envolta em névoas de medos e superstições.
Não consigo crer que deva ser assim.

Afinal, morrer é tão parte do viver que está na outra ponta de nossa existência.
Passar pela vida significa aceitar entre outras coisas nossa finitude e que um dia não estaremos mais presentes. Em verdade, não consigo achar problema algum nisso!
Vejo que mais do que fugir da morte, pessoal ou alheia, devemos ter-lhe reverência. Ela encerra um ciclo de existência e por si só é um rito de passagem. E como todos os ritos humanos deve ser reverenciado e acolhido como parte.

Experienciei a morte de perto, algumas vezes tendo de tomar decisões claras em relação a entes queridos. Sempre uma grande dor. Mas sempre considerei que meu amor àquela pessoa me fazia uma defensora da 'Boa Morte' para quem se ia. Entendia que era preciso dar a este ser a segurança e a tranquilidade de que estava tudo em seus devidos lugares. Nessas horas vi como muitos perdem o chão, se desesperam e querem negociar com a vida. Mas às vezes a vida já não está mais presente. A maior e mais forte presença é a da morte e é com ela que teriamos que negociar.
Todas as vezes optei para que meu ente querido ficasse tranquilo.
E que a morte o encontrasse em paz...

Vez por outra penso sobre o que seria para mim uma Boa Morte.
A Boa Morte é aquela que chega como continuidade da vida. Não é ruptura, nem é perda. É materialização de que uma história inteira de vida ganha um ponto final. E ganhará o status eterno de se fazer Memória.
Diz-se que pior que morrer é ser esquecido!
Infelizmente, muitos ganham o estatuto do esquecimento antes mesmo de possuir uma lápide. Isso é de fato muito triste.

Sonho ter a tranquilidade para simplesmente me deixar ir.
Sem arroubos, tristeza e desesperanças. Sei que a vida deu-me tantas coisas e eu de alguma forma tentei retribuir tanto! Por isso, não quero lágrimas e nem tristezas. Quero ser apenas uma boa lembrança de alguém que adorou viver, mas que também soube entender que era seu momento de ceder a vez para a renovação de tudo o que estava à sua volta.
Afinal, viver não é posse, é usufruto!

Em geral, vejo as pessoas se ampararem na figura de um Deus ou de uma crença qualquer.
Não acho que isso consiga com que a pessoa tenha uma Boa Morte, já que está transferindo para alguma coisa exterior a ela o que eu acredito deva ser um consentimento interno: o desapego ao que se teve por toda uma vida.

Imagino que as pessoas talvez sintam este apego exatamente porque não foram capazes de viver, larga e generosamente, tudo o que sua vida propiciava. Por achar que está sempre faltando algo e não aceita abrir mão.
Creio que o grande problema não é a morte. É simplesmente não ter vivido! 

Por outro lado se você sabe que viveu, tudo fez, e da melhor forma possível, porque não se deixar ir?


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