18 de mai de 2015

A morte nossa de cada dia


Escrito e lido por: Eliana Rezende 

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Quantas mortes cotidianas, pequenas, miúdas somos capazes de acumular em uma existência inteira?
Morremos a cada grande decepção, de tédio, de medo, de desejos, por ausências, por faltas, arrependimentos, anseios, despedidas e até de vergonha!

Estranho pensar que as pessoas, em geral, temem tanto sua morte derradeira e final, aquela que consome a carne, remove o oxigênio e paralisa células e coração, e se esquece que passa uma vida inteira aprendendo a morrer, deixar, desapegar, abandonar... ser deixado, largado e abandonado, preterido e até esquecido!

Então por quê do medo da última de todas as mortes?
Aquela que não nos obrigará a acordar no dia seguinte para de novo ver-mo-nos morrer?

Ainda há os que morreram uma vez e nunca mais conseguiram voltar a viver.
A morte em vida apagou-lhes o brilho, as vontades, os desejos, o viço... Morreram quando encontraram o medo do medo. Não foram capazes de encarar suas fragilidades, decepções, frustrações e optaram por, simplesmente, esquecer para ser esquecidos.
Assistem de longe aquela que teria sido sua vida.

Houve os que morreram de medo de aprender a viver com outros, de aprender a entrega, a troca. Tiveram medo de aprender que viver ao lado de outro significa em alguns momentos ceder e compor e levaram à morte relações ainda no nascedouro.

Muitos morreram de medo de mudar e ficaram presos no infinito de suas repetições e vícios. Sepultaram-se no tédio e no esquecimento de vidas imóveis e estanques. Morrendo de medo de opiniões alheias, críticas e avaliações.

Há os que morreram de inveja, ostentação, luxúria e simplesmente não entenderam suas vidas despojadas destes apetites tão mortais.

Morremos de desejos, uns cálidos e outros muito quentes, sutis ou arrebatadores, contidos ou descontrolados, cheios de pudores ou totalmente despudorados, alguns débeis outros avassaladores, mas todos desejos que morreram quer por nossas próprias ações, quer por alheias.

Morremos de saudades. De lugares, de pessoas, de cidades, de encontros, de vidas que tivemos.
Morremos pelo que dissemos e pelo que deixamos de dizer!

Ainda há os que morrem de esperar, ou os que ao contrário morrem de tanto procurar e não encontrar.
Morremos de angústia e de alegria...morremos...morremos...

Mas ainda que morrendo cada dia, encontramos a magia da ressuscitação diária e nos colocamos de novo ao alcance daquela que será a próxima das nossas mortes. Prisioneiros que somos daquilo que parece ser um eterno retorno de mortes em vida.


E assim seguimos, como na mitologia, com a vida por um fio em mãos de Cloto, Láquesis e Átropos. Tecendo destinos e nos destinando de acordo com seus caprichos.

Cloto, a fiandeira, tece o fio da vida de todos os homens, desde o nascimento;
Láquesis, a fixadora, determina o tamanho e enrola o fio, estabelecendo a qualidade de vida que cabe a cada um;
Átropos, corta-o quando a vida que representa chega ao fim.
Os Destinos assim repartidos para cada pessoa, no momento de seu nascimento: uma parcela do bem e do mal, embora cada pessoa pudesse acrescer o mal em sua vida por conta própria. Usando como ferramenta do destino a Roda da Fortuna. As voltas da roda indicavam períodos bons e maus.

E assim a vida numa brincadeira feita em trocadilhos, nos faz levantar todos os dias acreditando que a vida não nos faltará. Que a roda da fortuna continuará a rodar e que mesmo morrendo a cada dia a vida prosseguirá nos fazendo despertar de cada uma de nossas mortes, para receber nosso quinhão de bons e maus momentos.



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Trincheira das palavras

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7 de mai de 2015

Trincheira das palavras

Escrito e lido por: Eliana Rezende 


Ouça eu ler para você
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Desafiam, instigam, maquiam... e, em tempos contemporâneos, provocam verdadeiras plásticas em sentidos e objetivos. Palavras que carregavam seu sentido e essência veem-se alteradas e modificadas em uma forma de sequestro de significados, uma assepsia acéfala.

A provocação aqui está em exatamente mostrar o quanto foram extirpados dos nossos dicionários termos como velhice, morte ou afins. O quanto se domestica aquilo que é natural e que de fato fecha um ciclo do que integra a existência.

Defendo o uso de tais palavras, livre de trincheiras, plásticas, maquiagens!
Quero tudo aquilo que faz parte da vida e entre elas estão às marcas que o tempo me fez (quer na face, quer na alma), a experiência acumulada pela velhice dos meus anos e porque não dizer que quero a Boa Morte... no sentido da dignidade do encontro com um fim? Que tenha dignidade e naturalidade de viver isso sem intermediários: tubos, máquinas ou mesmo palavras que roubem o sentido daquilo que de fato se vive. Pois morrer e envelhecer são parte, negar isso é contradizer o que é natural.

Nossa sociedade está se habituando a mudar nomes como uma interferência asséptica, esquecendo-se que, envelhecer e morrer, possuem seus sentidos e significados, mudar as palavras não tira o sentido que eles têm.

Por isso, sou adepta de me chamarem como a vida assim quis. E se estiver velha, que me chamem de velha!

Talvez uma das formas que o mundo contemporâneo usa para não enfrentar posicionamentos é exatamente nominar as coisas de outras formas. O enfrentamento não ocorre e as trincheiras das palavras servem apenas para dar sentidos outros ao que verdadeiramente se sente.

A sociedade que persegue a beleza das formas e a juventude infinita, se esquece de que o tempo é sinônimo do acúmulo e que para a maioria dos casos tornariam as pessoas melhores, mais tolerantes e com uma capacidade de interação maior, sem agressividades ou desrespeitos.

Infelizmente o tempo não faz isso a todos e ferir pelas palavras passa a ser um meio subalterno de tentar chamar atenção para si. Um recurso de fato pequeno e que põe luz sobre dificuldades de lidar consigo próprio e com o outro, nas relações pessoais, sociais e até profissionais.

A velhice e a morte são faces da mesma moeda chamada vida e tê-las conosco é sinal de que entendemos o que todo um ciclo significou. É a moeda de troca que nos dá o simples direito de existir.

Certa vez um integrante de Grupo, o Professor Emicles Manguinho Filho, me disse algo lindo: que na Bahia (mais especificamente no interior), comunga-se com essa forma de pensar, porém, os poetas interioranos, na sua simplicidade, usam como sinônimo para o idoso do texto o termo "veiança".
Achei absurdamente fantástico isso! Longe de ser uma maquiagem que tenta trazer uma plástica de sentido, "veiança",  ao contrário é uma bela palavra, em especial se tomarmos o seu sentido de produção cultural. Algumas palavras funcionam como roupagem e adorno para o sentido do que queremos transmitir.

Assim, "veiança" é uma delícia de fato!


Mas no mundo corporativo não é bem assim.

É comum o uso de palavras que chegam emprestadas de outras línguas, que camuflam e sofisticam fazeres sem conteúdo: a falácia da igualdade de programas de inclusão mal conduzidos, que acabam por segregar os diferentes; a responsabilidade social reduzida à uma ação assistencialista a comunidades, passando longe do ideal de desenvolvimento; o discurso da qualidade de vida no trabalho, enquanto se extraem sangue diretamente da jugular dos executivos, consultores e funcionários...

Nestes espaços, seus velhos são chamados de sêniors e rapidamente o mercado tenta substituir seus cabelos brancos por Júniors, recém chegados de seus MBAs. 
Velhos e jovens são complementares, imprescindíveis uns aos outros na vida e nas organizações. E não vale dizer, por exemplo, que os velhos são a experiência enquanto os jovens trazem a inovação.

Os papéis se invertem, se acrescentam, compõem entre si e não admitem reducionismos, que só fazem imobilizar. 
E a quem pode interessar o imobilismo?

Para este caso, estamos diante de fronteiras invisíveis criadas e tecidas nos espaços sociais culturais e até profissionais. Os rótulos procuram enquadrar, segregar, e em vários casos, funcionam para manter ao longe o que é considerado indesejado ou inadequado aos objetivos de grupos, corporações ou indivíduos. Numa cultura que se sustenta por consumo, substituição e juventude a qualquer preço, ser velho, ganha o sentido de ultrapassado e passível de receber uma plástica de rótulos e funções.

Talvez por isso, ocorra a substituição do “sênior” por um “jovem talento” (palavras que tentam sanear espaços corporativos, dando-lhe um verniz feito de novos termos para velhos nomes, funções ou atribuições). Sênior e Júnior não podem ser tomados como antônimo um do outro!
Há muito mais.

A reflexão neste sentido é fundamental e nos deve fazer pensar. É fato que não mudamos uma sociedade inteira da noite para o dia, mas criar zonas de crítica e percepção é o mínimo que se deve esperar de profissionais atuantes e preocupados com a sua inserção, e a de outros.

Há também uma outra abordagem.

Há um componente que é a dimensão de autorrepresentação e de como as pessoas querem ser vistas, algo parecido com a palavra negro/a. As pessoas tendem a por ressalvas e não gostar que lhe chamem velho. Toma-se como uma forma menor de adjetivar, já que convivemos numa sociedade em que a tirania do sempre novo se impõe como necessidade de aceitação.
Isso de fato preocupa.

Vejo a necessidade de (re)significação no sentido de utilização de um termo que não merece "saneamento ou assepsia", merecia ter seu sentido inicial. O que ocorre é que essa (re)significação deve partir do individuo, de se assumir como tal, em primeiríssimo lugar e, sem culpa ou desculpas utilizar socialmente o termo aos demais quando for o caso.

Mas sem dúvida, a escrita para consumo social coloca dia-a-dia o emprego das palavras, seus significados e apropriações culturais e sociais. O escrito nunca é igual ao lido, e por ter a interpretação do outro pode gerar ruídos.

Inquietam-me relações, sejam elas sociais, culturais, profissionais e até as midiáticas!
Para além do humano dou especial atenção a escrita e as muitas manifestações possíveis de comunicar pensamentos, ideias e as trocas, em especial as simbólicas: já que nossas moedas de troca e valor passam essencialmente pelo pensamento partilhado e compartilhado.

Por esta minha postura, já me disseram que isso seria conformismo: render-me a velhice e à morte.
Mas não é conformismo; É simplesmente considerar que é parte de um grande ciclo. E que como tais merecem ter começo, meio e fim.

Não aceitá-las pode gerar em alguns certo amargor e isso não é bom nem para o individuo, nem para os que o cercam. Se tomarmos como parte, a velhice, passa a ser libertadora.
Aprendemos que somos os nossos melhores e mais presentes companheiros e que quando todos se forem, nós estaremos ali habitando nossa alma e povoando nossos mundos que existem por meio de nossos pensamentos.
Libertamos-nos do compromisso de "o que você vai ser quando crescer?". Libertamo-nos da ansiedade de não saber o que resultará em nossas vidas, os amores que teremos, a vida que viveremos.

É bom saber que o Tempo pode ser um grande aliado da vida que temos e da existência que partilhamos. E quiçá das rugas que teremos

A antropóloga Miriam Goldemberg, em suas pesquisas sobre o comportamento humano, colheu que o mais importante seria a qualidade das rugas e não a sua quantidade. Disse ela que o riso e o sorriso continuado, provoca rugas, porém, rugas com orientação para cima; diferentes das rugas convencionais.

Acho que só se pode brincar assim os que tem assumidos os seus anos!
Aqueles que têm lá suas dificuldades tentam maquiar, "botocar"...esconder.
Quem já não viu a exposição que chega a ser patético de pessoas que querem ter uma idade que não têm: pintam o cabelo, cortam-no como quando tinham 20 ou anos ou pior: usam as roupas desse tempo e ainda insistem com a sessão juvenil das lojas de departamento?

Saber rir das próprias limitações é também se ver como velho, mas nem por isso como algo a ser descartado sem importância!

Uma vez me disseram algo que só agora entendo: "Eliana, minha cabeça pensa como quando eu tinha 20 anos... meu corpo é que tem 70!".
Inúmeras vezes me olho no espelho e me lembro exatamente do que eu pensava aos 5 anos de idade quando minha altura só permitia que eu visse meus olhos refletidos no espelho da cômoda do quarto da minha mãe. Acho que a mente não envelhece... o corpo é que não entende bem e segue acumulando os anos!

Mas se assim é, porque então mudar seus nomes? Usemos as palavras para significar o que precisam significar. Não as usemos como trincheiras para esconder ou maquiar.

Afinal, quem precisa de plástica para as palavras?




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