12 de abr de 2015

Uma sociedade de performance

Escrito e lido por: Eliana Rezende


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Segundo diferentes teóricos a sociedade de princípios do século XXI deixou de ser disciplinar, como ocorria nos séculos XIX e XX e passou a ser de performance. O que significa dizer que exige-se das pessoas estar todo o tempo hiperconectadas, ser multitarefas, e estar em um estado permanente de euforia e felicidade.
Tudo que esteja fora disso é considerado indesejável, contraproducente.


As pessoas precisam, para serem consideradas bons profissionais, ser multitarefas. Ainda que isso signifique um grau de desatenção atroz. As pessoas quicam de um lado para o outro achando que com isso possam ter, segundo linguagem corporativa, um diferencial competitivo.

O mundo encheu-se de academias de ginástica, baias de trabalho, prédios envidraçados, vias rápidas, equipamentos eletrônicos, eletrodomésticos computadorizados. Temos cada vez mais tecnologia, em teoria, para que tenhamos mais tempo. Mas, mais tempo para quê?

O que fazemos cada vez mais com o tempo que nos é 'pretensamente economizado'?
O tempo encurta e, em verdade, as pessoas estão sempre cansadas, carregadas de afazeres e atividades. Onde foi que colocamos nossas prioridades?!

Estranhamente ao invés de, tanta hiperatividade e desempenho gerar coisas novas, encontramos em geral, a repetição incessante do igual. Cada vez mais temos mais do mesmo!
Até mesmo os vocabulários corporativos giram em torno das palavras de sempre: motivação, resiliência, competitividade, diferencial, etc...etc...etc...


A desatenção, hiperatividade e hiperconexão servem de sombra para ampliar horizontes e descobertas que só podem ser alcançadas a partir do sossego da mente e a capacidade de observação e quietude do espírito. Daí que o que acaba contando são comportamentos que podem ser cifrados e contabilizados por dígitos. Valores essenciais deixam de ser cultivados e apreciados.
Quem tem tempo para a observação? Para simplesmente aquietar-se? Ouvir-se? Ouvir?

De seres humanos temos paulatinamente nos transformado em “máquinas de desempenho”.
É só olhar no mundo corporativo: as cifras, as metas, os índices, os infográficos e os KPIs. Olhe nas academias, nos esportes, nas escolas, nos veículos perfilados lado a lado quando um farol se abre, nas filas em geral. Em todos os casos, se busca a prioridade, ser o primeiro, o mais rápido, o melhor.

Reproduzindo o filósofo coreano Byung-Chul Han, um dos representantes desta linha de pensamento:
 “(...)"O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço a sós, que isola e divide", conclui o autor. "Esses cansaços são violência, porque destroem toda comunidade, toda proximidade, inclusive até a própria linguagem."(...)
Cada vez mais e como imperativo de alta performance corpos cansados e sem ritmo são estimulados por diferentes fármacos: doping de todas as formas. Mentes entorpecidas. Há para cansaço, sono, tristeza, inapetência. A indústria farmacêutica produz de tudo para que tais corpos tenham a garantia de sua manutenção. Para se ter uma ideia desse volume: as companhias brasileiras registraram faturamento de R$15,7 bilhões entre janeiro e junho de 2014, ou 51% do montante comercializado. O uso de antidepressivos e reguladores de humor está entre os cinco principais responsáveis por essa alta.

Embriaguez química ou eletrônica: excitação e atordoamento de toda uma civilização.


Sensações meramente fabricadas, sem serem de fato vivenciadas, experienciadas.
Para onde vamos se respostas humanas não podem mais ser dadas, sem ser tomadas como uma patologia que precisa ser imediatamente medicada?

Para onde vamos com tanta pressa e tão cansados?

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