28 de dez de 2015

Ceda Lugar ao Novo!

 Por: Eliana Rezende

Em uma sociedade onde consumir é a regra, ter e ostentar seja o natural, parece estranho falar em ceder espaço.
Proponho substituir a tão batida palavra desapego, por ceder espaço.
A palavra desapego teria um significado muito interessante, mas de tão usada e repetida parou de ter o sentido que se esperaria dela. Como tantas outras palavras, perdeu valor por ser moeda fácil e de quase nenhuma aplicação.


Ceder espaço, neste sentido, dá ao desapego o sentido mais essencial de seu significado original.

Ao falar em ceder espaço, parto de uma constatação muito simples: as pessoas em geral distraem-se muito com o ter e esquecem-se do ser.
E explico porque considero o ter uma tremenda perda de energias:

"O que temos não podemos levar a todas às partes, já o que somos vai conosco pela vida, pelo tempo e espaço. Por isso sempre é bom arranjar meios para simplesmente ser".  (Eliana Rezende)

Os entulhos espirituais, emocionais ou materiais devem, por força de nossa saúde e bem estar, ser eliminados.

Aqui faço uma metáfora simples que é da minha área profissional e que se aplica com propriedade à vida: os documentos em um trabalho de Gestão Documental obedecem uma Temporalidade. Transcorridos o tempo e suas funções são eliminados, e somente os de muito valor são preservados para à posteridade, num para sempre eterno.
Com este processo garantimos que apenas aquilo que tem valor sobreviva ao tempo, e o restante, que ocupa recursos e espaços desnecessários são entregues ao seu fim.

Apenas o essencial para carregar

Imagine que maravilha poder olhar para uma relação que nos desgastou, um emprego que nos sugou, uma pessoa que nos vampirizou, e simplesmente dar-lhes um tempo limitado. Feitos todos os estragos e aprendizados em nossas existências, partirem sem deixar rastros!
E nós, por outro lado, sem permanecermos num infinito retorno e amargor desses desencontros. Entenderíamos como apenas algo que tinha uma função, e que tendo sido cumprida cederia a vez a próxima aprendizagem. 

Se fôssemos capazes de definir prioridades para as nossas vidas e saber desapegar-nos daquilo que não importa, interessa ou acrescenta, estaríamos sempre leves para cada novo que chegasse. 

Penso na vida, um pouco, como um longa viagem e que como tal não permite excesso de bagagem. Todos sabem o que uma mala com sobrepeso representa numa longa viagem, não é mesmo? Quase sempre, um esforço desmesurado que ao fim não vale o que nos custa.
Os inexperientes descobrem, à duras penas, que não adianta levar uma mala cheia, que voltará quase sempre sem ter sido mexida, e que os pesos e contrapesos darão apenas dores musculares e taxas extras nos aeroportos.

Pense a vida como aquela ponte que nos leva de uma margem à outra. Ninguém pensaria em sobre ela construir um prédio com fundações. Uma ponte é apenas caminho, passagem. Seu objetivo é nos levar de um ponto a outro. Não se fixa residência sobre uma ponte! Assim é a vida. Um caminho que deve ser feito de mãos livres, mente, coração e olhos abertos, ouvidos atentos a tudo o que for apresentado aos sentidos.


Em geral, tal como as malas arrastadas por uma viagem inteira, as mãos, os corações e as mentes ocupadas em carregar os entulhos passados não permitem que estejam abertas para receber o Novo da vida. Como aceitar algo com as mãos, se elas estão presas e seguram algo que já passou?

É preciso se convencer que não se pode seguir pela vida acumulando e tendo tudo.
Escolhas precisam e devem ser feitas, e quando aprendemos esse desapego simples que é até de se questionar sobre se de fato precisamos mesmo daquele parafuso ali naquela gaveta, sentimos uma liberdade de ser que não se compara a compulsão do ter.

Um exemplo muito simples mostra esta compulsão pela posse e ostentação futura: as pessoas viajam e em vários casos, em vez de tentar sentir sua viagem, seus odores e sabores, ficam disparando fotografias para todos os lados e a distração em fotografar os tira da concentração de viver o momento.
Querem uma imagem para postar na rede. Clicam rapidamente para ter o consentimento de esquecer.
Desapego aqui seria preocupar-se em fixar imagens e sensações em si... e não em um gadget!
E de novo temos o sentido do que é o ter e o ser.
Ao término da viagem haverá uma coleção de imagens, mas e a verdadeira viagem, aquela que é um deslocamento da alma e dos sentidos? Será reduzidas a imagens e selfies? Tão pouco, não é? Isso para mim é o maior exemplo de pobreza. Ainda que as imagens sejam de pores do sol pelo mundo!

O horizonte do desapego é largo, e pode incluir tantas coisas.
Se bem conduzido, passará longe de ser perda! Ao contrário, será extremamente rico e para alguns chegará a ser libertador.



Mas não falo apenas daquela bolsa, sapato, roupa ou brinquedo tecnológico. Falo de sentimentos, pessoas, empregos, funções que já não nos servem mais e que insistimos em mantê-las nos armários de nossas existências, quer por medo de não encontrar substituto, quer por medo de sermos rapidamente substituído e descobrir que afinal, nem éramos assim tão indispensáveis.

É preciso compreender que podemos achar que temos a posse de algo, mas em verdade somos possuídos. Somos possuídos por medos, inseguranças, fragilidades. A posse longe de dar conforto e segurança aprisiona, tira objetivos e se transforma em uma gaiola que temos a chave, mas temos medo de usá-la.

Descobrir que o melhor que temos está dentro, e, pode ir junto por toda a parte, é o melhor dos aprendizados.
Infelizmente alguns levam a vida a toda e não aprendem essa lição e a do acúmulo lhe toma toda a existência.

Assim, se você passou um ano inteiro sem calçar um sapato, usar uma bolsa, uma roupa fantástica que você pagou os tubos, não ligou uma única vez para aquela pessoa, talvez seja um forte indício de que você precisa exercitar o desapego. Se passou um ano inteiro, perdeu todas as oportunidades que poderia ter, e portanto, definitivamente não precisa disso para si.

Ceda espaço... ceda lugar ao novo.
Faça isso tudo circular nos armários, gavetas, garagens, na vida!
Afinal, tudo é um empréstimo que a vida te deu: usufrua, sem apego apenas com discernimento.

________________
Posts relacionados:
Afinal, quem você pensa que é?
Conheça e desenvolva seu FIB (Felicidade Interna Bruta)
Feliz Olhar Novo!
Uma sociedade de performance
Empáticos e gentis: para quê?
Ruídos do silêncio
Contradições em vidas modernas
Vida sustentável nas Cidades é Cultural. E, isto se aprende!
Quero meus direitos!
Tempo: valioso e essencial

A morte nossa de cada dia
A Boa Morte é a Arte de saber Viver
*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook
Visite meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Siga-me no Twitter: @ElianaRezende10


17 de dez de 2015

Natal sem trenó: o Eduardo Cunha manobrou!

Por: Eliana Rezende

Deu em todos os noticiários* e na Lapônia estão todos muito preocupados. Afinal, após séculos o Papai Noel não poderá distribuir presentes no Natal?
Eduardo Cunha buscando aumentar sua influência e com o apoio de muitas lideranças vem realizando seguidas manobras contra o que considera um perigo comunista.


Desta vez, conseguiu realizar manobras e tirou de Papai Noel seu trenó. Teve como ajuda a participação de um tal juiz, que acusa Papai Noel de usar recursos recebidos de partidos vermelhos para fabricar brinquedos e depois distribuir. Isso segundo sua linha de investigação é Comunismo!
Só mesmo com prisão preventiva.

Foram também afastadas de suas funções, e de novo por manobras de Cunha e suspeitas do tal Juiz as renas. Trazem indícios fortíssimos de serviço prestado às esquerdas, já que até nariz vermelho possuem!

E de quebra as roupas de Papai Noel também foram confiscadas. Como um homem pode andar por aí todo vestido de vermelho?! Comunista e barbudo! É óbvio.


Cunha numa manobra espetacular intercedeu também nas entregas de cartas. Alega que cartas, em especial as de rompimento e de amor são ridículas e que sendo assim evitará cartas de desfechos entre vice-presidentes para presidentes, de deputados contra presidentes de Câmara, de delações, de povo para seus governantes, e claro, de cartas de pedido de brinquedos (em especial porque os querem de graça!).  Segundo ele, Papai Noel incute nas crianças um sentido de que se ganha presentes por merecimento e fazer coisas boas. O que no mundo real é uma tremenda mentira! Meritocracia neoliberal e conchavos não funcionam assim.

Ainda no campo das manobras e como forma de resolver dois problemas em um, Eduardo Cunha já colocou em votação a alteração do mapa do Brasil. Desta forma, a Lapônia e a Suíça passam a ser território no Norte do Brasil. A fábrica de brinquedos e o lucro advindo poderá ser taxado no Brasil e o pobre do Cunha poderá continuar a afirmar que nunca seu dinheiro deixou as fronteiras do país. Em relação à concentração de renda...bem... ele não se importa: acredita que estando tudo em suas mãos fica mais fácil distribuir entre suas diferentes contas. Não deixa de ser distribuição de renda, como é óbvio! Qualquer bom advogado consegue comprovar isso.


Dentre as muitas manobras natalinas de Eduardo Cunha está a principal: não quer que a Missa do Galo seja rezada pelo Papa no Vaticano. Considera que este rito precisa ser modificado, e que quem tem condições de propor um novo rito é ele. Acha mais adequado que ele próprio conduza os trabalhos numa sessão de horas extras na Câmara e que tenha o seu baixo clero como auxiliares. Assim, garante um rombo ainda maior no orçamento da união e expande seu evangelho particular para o mundo tirando de cena um representante do cristianismo como o Papa. Além do mais, argumenta que o Papa usa branco só para disfarçar, mas é um comunista e ainda por cima defende pobres, mulheres, direitos humanos, de Gays e sociedade LGBT.

A polêmica em torno de manobras é muito grande. Imaginem que teve que registrar um Porsche em nome de Jesus.com. Sabemos como é: domínios precisam ser muito bem delimitados. Assim, Cunha precavido como sempre só deu autorização para Jesus ter um único carro. Seria uma confusão imensa se todo mundo resolvesse fazer manobras por aí!


Dos céus vem ainda uma outra reclamação mais grave: desde que se converteu Cunha já adiou a vinda de Cristo e o Dia de Julgamento por 6 vezes! Ele sempre nega. Diz que manobrou sim seu julgamento no Conselho de Ética por 7 vezes, mas não tem nada a ver com o Julgamento de Cristo. Mas acha que vai, a partir desta acusação de Deus, processá-lo por calúnia e difamação. Incrível como se pode conseguir vantagem de vias improváveis: lei e advogados são para isso, segundo seu raciocínio. Deus teria que dar-lhe uma boa indenização. Quem sabe conseguisse manobrar e adiar para bem mais tarde sua ida ao Inferno.

Por sinal, um problema sério de sucessão vem ocorrendo nas profundezas. Diz-se que Lúcifer não quer ver Cunha tão cedo. Pressente manobras deste para comandar o Inferno e sucede-lo sem piedade.
Sabe que este, tem uma horda de seguidores, que pelo poder fazem qualquer coisa, e que colocam em risco a segurança e o bom trabalho de milhares de anos que o Inferno vem desenvolvendo.
A única explicação é uma mutação. Em Brasília conseguiram aprimorar o que levou séculos para ser efetivado. 
Diante disso, teria que pedir asilo e só lhe sobraria o Céu, já que o Inferno não seria local seguro e com concorrência desleal.
   
Agora o maior mistério de todos e que não quer calar: qual seria a marca de botox que Eduardo Cunha usa na cara? Nem uma ruga sequer de preocupação! Mas cá comigo acho que como é um conservador nato, é mesmo cara de pau e capricha no óleo de peroba.



-----------------
* Faço aqui uma homenagem a todos os que usam da escrita para criticar de forma criativa o que Eduardo Cunha significa de ser abjeto e desprezível. São memes, Blogs, Colunistas, Semanários. Todos me inspiraram e a todos eles meu obrigada.

___________
Posts relacionados:
♫ ♪ ♫ Tomara que chova...3 dias sem parar ♫ ♪ ♫
Mídia hegemônica e seu séquito de midiotas

*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook:
Conheça meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Siga-me no Twitter: @ElianaRezende10

13 de dez de 2015

Geração digital não sabe pesquisar? - Parte II

Por: Eliana Rezende

Em outro post iniciei uma reflexão sobre as dificuldades que jovens, e mesmo adultos, tem tido para realizar suas pesquisas. Em muitos casos esta dificuldade se dá pelo excesso de informação acessível, e em outros se dá pelo simples fato de que há uma preguiça e acomodamento intelectual em relação ao que se pesquisa.

Toda pesquisa é uma tentativa de encontrar uma resposta a um questionamento. Concluo que, em boa parte das vezes alguns não sabem o que perguntar. Não saber a pergunta adequada inviabiliza à partida o princípio do que quer que seja.
Por outro lado, o questionamento que leva à uma reflexão precisa ser crítico. Esta crítica que move questionamentos deve ser construtiva e problematizada.
Boas perguntas com certeza gerarão problematização e maior verticalidade no que se aborda.
É importante ter claro que, até quando se pergunta, é preciso ter profundidade. Saber ir no ponto mais fulcral.

Reforço que a qualidade das respostas depende exclusivamente de perguntas bem conduzidas e apropriadas. Sem saber o que perguntamos como poderemos enxergar que estamos diante de uma boa resposta?

Um exemplo nítido disso pode ser dado em áreas afins à pesquisa e está presente na vida de alguns profissionais, como é o caso dos bibliotecários. Não sou bibliotecária, mas sei que muitos bibliotecários se defrontam diariamente com esta situação de alguém que quer pesquisar e não imagina nem por onde começar. Não sabe quais as perguntas que precisam fazer para a construção de um argumento investigativo.

Se não está claro, para quem pesquisa, qual é o seu objeto de análise, tudo fica nebuloso e só perguntas sem consistência não servem à produção de conhecimento.
Talvez esteja aqui o grande problema.

Quando faço orientações, o principal problema que os discentes têm é encontrar o seu tema e uma problematização consistente para o desenvolvimento do mesmo. Muitos se perdem e às vezes, abrem um horizonte que não conseguirão amarrar nunca. Costumo dizer que tais alunos (e isso ocorre em diferentes níveis: Trabalhos de Conclusão de Curso, Mestrado e até Doutorado) sofrem do complexo de ser "Deus". Acham que sua pesquisa poderá abarcar tudo. Mas a experiência mostra que a modéstia é um bom argumento. Ao tentarmos tudo abarcar e conter nos fará ir em outra direção: teremos trabalhos que muitas vezes não fazem muito sentido, ou que carecem de discussões mais aprofundadas. Em outras circunstâncias ficam vagos e a profundidade não chega a uma lâmina de água.

Diante deste hiato não haverá catálogos ou ferramentas que deem conta do produto final deste aluno. É importante perceber que o aporte deve vir, não do bibliotecário ou do docente, mas do sujeito que investiga, que busca!

Note que em diferentes cursos temos alunos brilhantes e outros nem tanto, apesar de os professores, os conteúdos e bibliografia ser literalmente os mesmos. Só que é o esforço de construção de cada um que  fará a diferença entre os excelentes e os apenas medianos. A disponibilidade para cavar seus diamantes está dentro de cada um. O caminho da pesquisa pertence ao indivíduo e não é dado por ninguém.

Se tudo dependesse apenas e tão somente de fatores externos estaríamos com tudo resolvido com boas contratações e aquisições. Mas não é assim que ocorre, para o bem ou para o mal.
Após este momento tão crucial na vida de cada um que é o da realização de uma pesquisa de fim de curso ou de estudos pós-graduados temos um segundo momento, e que vemos onde cada um vai.
É o desempenho profissional e a colocação no mercado de trabalho.
Neste mundo real, feito não de boletins, pesquisas e notas, teremos os mesmos diplomas, mas com profissionais diferenciados e onde o "mercado" selecionará os com maiores habilidades de contribuir com sua profundidade e rigor para o desempenho de diferentes tarefas. E, de novo, ninguém poderá fazer a mediação. Todo o rigor e acuidade que o aluno deveria ter sido capaz de desenvolver será posto à prova e poderá mostrar-se um remédio amargo ou um sucesso estrondoso.

O que é claro é que nenhuma sociedade é homogênea, linear... mas podemos dar nosso melhor para que os fossos sejam menores, e que a produção, em especial a acadêmica, não seja rasa.
Se for rasa, contribuirá para uma sociedade calcada no patamar de mediocridade e simplificação.

Diante do exposto temos vários aspectos a considerar.
Quero crer  que as pesquisas acadêmicas tenham o sentido de cientificidade que se espera de uma obra desse porte. Também espero que tenham um sentido de aplicabilidade com resultados. Se está envolta em simples Control C + Control V duvido que passe no teste de "aprovado com bons resultados".
Não falo aqui de muitas produções que ocorrem durante a fase em que se estuda ou mesmo trabalhos de conclusão de curso. Mesmo um Mestrado é sempre considerado um primeiro exercício de reflexão, por isso é chamado apenas e tão somente de Dissertação.

As Instituições e seus respectivos pesquisadores exigem o rigor e a profundidade para poder ser considerado científicos e de contribuição à sociedade e a produção de conhecimento.

Quero alertar que a proposição desta discussão contempla vários níveis: há o problema de crianças e jovens que estudam a base de consulta em Google e Wikis e fazem leituras diagonais de alguns autores.
Há aqueles que fazem sua formação de maneira superficial onde a urgência é apenas um diploma ou certificado. Há os que leem e não conseguem estabelecer um diálogo mais profundo com o objeto de sua leitura e ainda há pesquisadores que fazem de sua vida profissional o sentido de produzir conhecimento.
Portanto, não podemos generalizar e nem colocar o problema nos meios e ferramentas tecnológicas de que hoje dispomos.

A humanidade já produziu gênios e não havia em alguns casos nem a imprensa!
E volto a discussão de sempre: Conhecimento não está em algum lugar e vamos até lá e o tomamos! É tarefa de cada um! Todos são responsáveis e produzem seu próprio conhecimento.
O que se tem em diferentes fontes são apenas e somente informações.

A mediocridade assola a humanidade desde que o mundo é mundo.
O que ocorre é que hoje não é preciso intermediários para conseguir ir fundo na sua própria mediocridade: cada um consegue ir bem fundo sozinho (claro que se quiser)!
Se não quiser, poderá se diferenciar e aprender a ter consistência, sendo arguto em suas inquirições e não aceitar qualquer resposta como a óbvia! Será um interlocutor que saberá ir muito além do gosto disso ou daquilo: porá uma problematização assentada em uma crítica fundada e fundamentada em princípios que norteiam o seu objeto. Como em toda a história da humanidade você tem escolhas! Pode querer estar na vala comum ou não.
É uma questão de opção.

É como acho que disse acima: a boa investigação necessita de boas perguntas. Se de onde parto para pesquisar for um universo plano ou raso provavelmente obterei pouca profundidade e verticalidade desejável.
Todos os agentes envolvidos nesse processo (de pais, a educadores, bibliotecários) devem ser potencializadores não no sentido de "entregar" ao pesquisador, mas em estimulá-lo por caminhos que levam a curiosidade essencial que alimenta as boas indagações e as pesquisas daí decorrentes.

Desta forma, não há responsáveis por isso ou por aquilo.
É uma simplificação culpar Governos, Políticas, Tecnologias, Escolas, Professores, Alunos.
Em verdade, não podemos generalizar e dizer que uma geração não sabe pesquisar. O que temos são pessoas em universos distintos e haverão as que conseguem fazer isso exemplarmente, tanto quanto haverá aquelas que optarão apenas e tão somente por um diploma e uma carreira medíocre.
Simples assim...

Não são as tecnologias que farão pesquisadores! Elas são apenas e somente ferramentas.
Oferecerão, aos que assim o desejar, possibilidades diversas de investigação. Mas definitivamente são elementos neutros: não melhorarão ou piorarão uma pesquisa. Isto precisa ficar claro de uma vez por todas. Preguiça e acomodação intelectual podem existir em qualquer cenário, estando presente ou não meios tecnológicos.
A tecnologia não nos faz melhor ou pior em nada.


Não creio que todos nasceram para pesquisar, estudar ou se pós-graduar.
Mas acho salutar o debate. Pois assim, ainda que o indivíduo decida para si o caminho mais curto e rápido que seja de consciência tomada, e não com aquela atitude de que "eu não sabia" ou de que "a culpa é de..."

__________________
Posts relacionados: 
Geração Digital não sabe pesquisar? - Parte I  
Vamos parar de educar para a mediocrização!  
Chegamos ao fim da Educação 
Escrita executiva: escrever bem é coisa séria! 
Letra cursiva: a caminho da extinção? 
Geração Touchscreen 
Chegamos ao fim da leitura? 
Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I 
Consumidores ou Coletores de Informação?  
Criatividade e escola: caminhos incompatíveis?! 
*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook: 
Visite meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Siga-me no twiter: @ElianaRezende10




23 de nov de 2015

Geração Digital não sabe pesquisar? - Parte I

Por: Eliana Rezende

Um estudo recente, revelou uma realidade lamentável: os estudantes da era digital se contentam com informações rápidas, sem se importar com procedência e fidelidade. E o pior: este déficit não atinge apenas os mais jovens. Mesmo os mais velhos e adultos estão cometendo este erro.

De fato nossa sociedade vem se caracterizando por um déficit de atenção atroz em diferentes segmentos (digo aqui em aspectos pessoais, profissionais e muitas vezes acadêmicos). As pessoas definitivamente estão se condicionando a simples 140 caracteres e a urgência e leituras em diagonal fazem a vida de muitos. A verticalidade e profundidade deixa de ser vista como sinônimo de consistência para ser considerada redundante e repetitiva.

Há também um problema clássico, e este vem de anos: as pessoas em geral buscam fórmulas rápidas e soluções imediatas, sem o uso da crítica. A crítica neste sentido não tem que ver com gostar ou desgostar, tem que ver com questionar sobre procedência, veracidade e confiabilidade.

Nossa cultura social e educacional mudou e os novos discentes precisam como nunca ter uma educação digital. Precisam aprender a pensar sobre conteúdos, interrogar-se, fazer o que se fazia antigamente: fichar textos e buscar conexões para sua aplicabilidade ou pertinência ao que se estuda. Nossos alunos precisam ser instigados a pensar sobre, e não simplesmente, consumir sem critérios.

A sociedade de consumo se estende a tudo e não apenas a objetos materiais. E é em relação a tais temas que temos que pensar.

As dificuldades que encontramos com este novo momento de nossa história educacional coloca-nos o desafio de lidar com um novo conceito de atuação e relação a ser estabelecida com discentes; a produção de conhecimento e sua aplicação profissional. Além de lerem pouco e em diagonal, o território da aplicabilidade está sempre muito distante dos livros. Poucos e escassamente lidos. A mudança de nomes de disciplinas e conteúdos não é sinal de atualização.
Em verdade, há que se mudar paradigmas e modelos mentais!

Em alguns debates surgiu a proposição de que se devia ter profissionais de Biblioteconomia ministrando cursos de Metodologia Científica como forma de minimizar os problemas nas pesquisas.

Reconheço a contribuição que Bibliotecários possam oferecer concernente a dúvidas sobre como encontrar melhores filtros ou possibilidades de buscas. Estamos falando de um problema ainda maior! A consistência intelectual não é feita apenas sobre formas de buscas e usos de tecnologia para tanto.

Os alunos, em função da quantidade exposta de informação, assistem ao que vemos ser uma realidade que está diametralmente oposta à da qualidade. A solidez de um aluno deve, portanto, vir do aprofundamento que tem e que faz de suas áreas de concentração. A pesquisa se provará producente se souber elaborar as perguntas certas. E não creio que ter um bibliotecário na metodologia resolva. O aluno tem que se valer do acúmulo de discussões e desenvolvimentos de suas áreas para saber quais autores trazem um debate à cena de sua área de atuação e deste "diálogo" deverá ser capaz de construir suas reflexões.

Os alunos atualmente leem pouco e isso tira-lhes o potencial da comparação, quer por semelhança, quer por diferença. Não acredito em compartimentos. Sou historiadora e, muitas vezes ministrei Metodologia Científica, mas sempre da Pesquisa aplicada, nunca esta aplicabilidade de normas e procedimentos de ABNT ou consulta a bases de dados em geral, substitui o que vai além: o debate de fundo que existe em cada área e que, ele sim dará profundidade reflexiva necessária.

O que é fundamental que ocorra, e não nos anos de Metodologia Científica lá na graduação, é a educação digital desde os primeiros anos de escola. Os alunos devem ser instigados a pensar e desenvolver a crítica pelo lido, pelo escrito e falado. Precisam aprender a “ler” o mundo em que estão inseridos e que lhes chega por diferentes vias de informação e comunicação (internet, rádio, TVs).

A passividade ante ao dado é que deve ser combatida e ser amplamente discutida para causar a inquietação necessária para produzir perguntas que mereçam boas construções de soluções.

Esse caminho de educação cultural que integre ferramentas, hábitos e comportamentos sociais e culturais é que precisa ser trabalhado. Utilizar ferramentas será apenas uma conseqüência do “pensar, questionar e construir” respostas ao mundo. Portanto, não vejo como tarefa de um, ou de uma disciplina isolada, em um momento da vida do discente. Mas é tarefa multidisciplinar e que começa, se possível, já em casa!

Os pais e outros responsáveis devem contribuir de maneira a fornecer, desde crianças, elementos para crítica do que se lê e o que se busca. Mas a formação a que me refiro deve seguir especialmente na formação dos mesmos.

Sou também docente na área de Gestão Documental e Memória Institucional, mas por largos anos também orientei TCC e ministrava Metodologia Científica. Lembro uma oportunidade que o aluno no dia da banca ter-me dito: "sabe quantas versões vc me fez fazer em um único semestre? 17!" Não havia reprovação, havia perplexidade por eu tê-lo feito rever o trabalho tantas vezes e como disse-lhe no dia: "Ainda há espaço para mais!".

Isto para dizer que o professor, independente de sua formação deve cobrar não apenas pelo conteúdo como pela forma. Este é o meio. Se segmentarmos em vez de somar estaremos restringindo. Não é a formação acadêmica do docente que garantirá melhor ou maior aproveitamento e sim sua argúcia em fazer o aluno ir sempre além e problematizar o que está desenvolvendo.

É do professor o trabalho de ler e reler as pesquisas e desenvolver as mesmas com as interrogações e fragilidades que o aluno e a pesquisa têm.
Só que isso representa tempo e dedicação do docente... e alguns não estão dispostos a tanto, da mesma maneira que muitos alunos não estão dispostos a corresponder a todo este empenho.

Problematização não se resolve ou se propõe com ferramentas de busca e pesquisa, faz-se isso com profundidade teórica. As pesquisas apenas subsidiarão na condução da exposição e desenvolvimento das ideias. De novo voltamos ao ponto de origem: o que move as articulações e grandes descobertas são as perguntas. Elas que movem o mundo!

Há aqui um entroncamento. Estamos vivendo um momento onde a tecnologia está escancarando o que há anos já vinha acontecendo. Creio que houve uma potencialização. Insisto um pouco sobre como nossas gerações precisam de aculturar-se em ambientes digitais e tirar deles o que tem de melhor.

Vejo que cada vez mais pessoas não percebem quanto de nossos hábitos e costumes se transformaram e o quanto às vezes é difícil lidar com a conexão constante, sem contudo aproveitar todas as nuances do que está ao em torno.

De uma sociedade sempre em conexão estamos assistindo ao crescimento de jovens cada vez mais autocentrados e "distantes" com verdadeiros fossos comunicacionais com aqueles que deveriam usufruir de suas presenças físicas.

Algumas culturas, e milenares, estão preocupadas com isso e já introduzem desde a pré-escola formas de se comportar em ambientes de ensino onde há a tecnologia. Na China por exemplo, as crianças aprendem musicas que as incentivam a se levantar de tempos em tempos, mexer os olhinhos e movimentar-se. Parece pouco pela ótica que estamos tratando, mas fundamental para que as mesmas aprendam uma nova forma de se relacionar que não gere dependência ou descontrole.
A introdução de tablets seria interessantíssimo, mas creio que é preciso mudar padrões e construções mentais que tentam fixar tais elementos ao mundo analógico. São coisas diferentes e precisam ser tratadas como diferentes. A "sacralidade" dada aos ambientes e recursos digitais precisa encontrar o seu lugar que é o de ferramenta para alguém que pensa! E não o contrário: alguém que quer uma ferramenta para pensar por si.

Volto aqui a um posicionamento que tenho: não há tecnologias que deem conta da autoconsciência de cada um em busca de seu aprimoramento.

A educação formal encontra-se farta por todo lado, mas a de qualidade precisa ser buscada, concorrida, suada. Muitos não querem todo este esforço. Optam em muitos casos pela lei do menor esforço... e correm atrás apenas de um diploma.
Depois vem o segundo momento, a busca por conhecimento é tarefa individual e intransferível. Não serão instituições que farão isso ao indivíduo. Ele é que terá que buscar, cavar e lapidar seu conhecimento usando ferramentas da educação formal... mas todo o esforço terá que ser ato seu!
Por isso, eu afirmo que não há tecnologias disponíveis que deem conta da indiferença e comodidade. Contra essas não há tecnologia!
Há apenas o desejo intrínseco de cada um e formas criativas de se apropriar do que está disponível.

(Cont...)
___________
Posts relacionados:
Geração Digital não sabe pesquisar? - ParteII
Vamos parar de educar para a mediocrização!
Chegamos ao fim da Educação

Se não está Google, será que existe?
Ler de forma produtiva. Mas como?!
Facebook: robotização e sedentarismo em rede
Letra cursiva: a caminho da extinção?
Geração Touchscreen
Chegamos ao fim da leitura?
Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I
*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook
Visite meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Acompanhe-me pelo twitter: @ElianaRezende10  

2 de nov de 2015

A Boa Morte é a Arte de saber Viver

Escrito e lido por: Eliana Rezende

(escolha a opção abrir com: 
Music Player for Google Drive)

 Sempre penso em palavras que representam tabus. Morte parece-me uma delas.

As pessoas fogem de dize-la, de senti-la ou pressenti-la, considerando-a como de mau agouro. E mesmo em face de circunstâncias onde ela se impõe, quer a si próprio, quer a um ente querido, é sempre envolta em névoas de medos e superstições.
Não consigo crer que deva ser assim.

Afinal, morrer é tão parte do viver que está na outra ponta de nossa existência.
Passar pela vida significa aceitar entre outras coisas nossa finitude e que um dia não estaremos mais presentes. Em verdade, não consigo achar problema algum nisso!
Vejo que mais do que fugir da morte, pessoal ou alheia, devemos ter-lhe reverência. Ela encerra um ciclo de existência e por si só é um rito de passagem. E como todos os ritos humanos deve ser reverenciado e acolhido como parte.

Experienciei a morte de perto, algumas vezes tendo de tomar decisões claras em relação a entes queridos. Sempre uma grande dor. Mas sempre considerei que meu amor àquela pessoa me fazia uma defensora da 'Boa Morte' para quem se ia. Entendia que era preciso dar a este ser a segurança e a tranquilidade de que estava tudo em seus devidos lugares. Nessas horas vi como muitos perdem o chão, se desesperam e querem negociar com a vida. Mas às vezes a vida já não está mais presente. A maior e mais forte presença é a da morte e é com ela que teriamos que negociar.
Todas as vezes optei para que meu ente querido ficasse tranquilo.
E que a morte o encontrasse em paz...

Vez por outra penso sobre o que seria para mim uma Boa Morte.
A Boa Morte é aquela que chega como continuidade da vida. Não é ruptura, nem é perda. É materialização de que uma história inteira de vida ganha um ponto final. E ganhará o status eterno de se fazer Memória.
Diz-se que pior que morrer é ser esquecido!
Infelizmente, muitos ganham o estatuto do esquecimento antes mesmo de possuir uma lápide. Isso é de fato muito triste.

Sonho ter a tranquilidade para simplesmente me deixar ir.
Sem arroubos, tristeza e desesperanças. Sei que a vida deu-me tantas coisas e eu de alguma forma tentei retribuir tanto! Por isso, não quero lágrimas e nem tristezas. Quero ser apenas uma boa lembrança de alguém que adorou viver, mas que também soube entender que era seu momento de ceder a vez para a renovação de tudo o que estava à sua volta.
Afinal, viver não é posse, é usufruto!

Em geral, vejo as pessoas se ampararem na figura de um Deus ou de uma crença qualquer.
Não acho que isso consiga com que a pessoa tenha uma Boa Morte, já que está transferindo para alguma coisa exterior a ela o que eu acredito deva ser um consentimento interno: o desapego ao que se teve por toda uma vida.

Imagino que as pessoas talvez sintam este apego exatamente porque não foram capazes de viver, larga e generosamente, tudo o que sua vida propiciava. Por achar que está sempre faltando algo e não aceita abrir mão.
Creio que o grande problema não é a morte. É simplesmente não ter vivido! 

Por outro lado se você sabe que viveu, tudo fez, e da melhor forma possível, porque não se deixar ir?


__________________________________

Posts Relacionados:

Quero meus direitos! 
Tempo: valioso e essencial
Trincheira das palavras
A morte nossa de cada dia

E se...
Ruídos do silêncio

*
Curta/Acompanhe o Blog na sua página do Facebook
Visite meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Siga-me no Twitter: @ElianaRezende10

28 de set de 2015

Sua vida cabe numa timeline?

Escrito e lido por: Eliana Rezende

Ouça eu ler para você
(escolha a opção abrir com: 
Music Player for Google Drive)

Esta tem sido, na última década, a pergunta que milhões tentam responder.
Uma pergunta simples que possibilita alimentar compartilhamentos e publicidades de si por meio da rede mundial mais conhecida e utilizada no planeta, o Facebook.

Em geral o mundo de eterna felicidade, sucessos e realizações em rede pode trazer atrás de si outras verdades. Viver online, compartilhar e curtir pode ser muito mais simples do que viver o dia a dia trocando o olho no olho e suportando as diferentes dificuldades, sem desconectar-se ou com status de invisível.
A vida real tem muito menos 'likes', risos, caras e bocas, frases, causas, militâncias ou animais de estimação!


Em verdade o mundo não mudou tanto!
Ainda escolhemos onde passamos boa parte de nossas vidas, para onde viajamos e com quem nos relacionamos,  comunicamos e como nos movemos. O que ocorreu foi uma potencialização de tudo em proporções nunca antes vistas e aos olhos de todos. Dessacralizaram-se espaços, víveres e condutas.

As redes também nos mudaram de lugar sob um outro aspecto: até o advento delas éramos apenas consumidores solitários de informações. Consumíamos, e muito pouco podíamos opinar ou divulgar, o que víamos, sentíamos ou pensávamos. Hoje, temos a possibilidade de produzirmos conteúdos e compartilhamentos, tanto quanto formos capazes. Não há limites e em muitos casos nem regras.
E é exatamente em relação a estes limites que ainda estamos experimentando em relação às redes.

Quer ver?
Quanto somos capazes de produzir, quanto somos capazes de consumir? Quanto do que produzimos é consumido e com que proveito? Por quem? De que forma? Eis o terreno em que nos movemos. Incertezas e limites: eis com o que nos confrontamos. 

De outra sorte, o mundo em rede potencializou em nossa sociedade o anseio pelo consumo. Consome-se tudo e em profusão: tempo, imagens, bens, informação, histórias de outros e principalmente pessoais. É um enredo onde a publicidade de nós mesmos nos transforma em principal produto a ser consumido. O índice desse "valor" de mercado é dado pela quantidade de "curtir" que um compartilhamento alcança. E de novo nos vemos confrontados com uma sociedade egóica e muito preocupada com desempenho e performance. A competição acirra-se e superar índices anteriores, nossos ou de outros, acaba sendo a meta a ser alcançada.


Compartilhamentos que flertam e seduzem algoritmos: isso é o que no final das contas buscamos. Já que estar em evidência em rede significa entre outras coisas saber como disparar no outro o desejo do curtir. O flerte e sedução algorítmica pode, e quase sempre é, ser manipulável. Mas não por nós e sim pelo poderoso banco de dados do Facebook.

Manipulável a tal ponto que recentemente pesquisadores revelaram como influenciaram ânimos e índices de felicidade em usuários do Facebook. Através de manipulações de imagens enviadas às pessoas, um laboratório humano de emoções foi criado, com o fim de influenciar disposição de ânimos e índices de felicidade. 

O que resulta disso tudo é um mercado de aparências e ignorâncias. Aparentamos o que não somos e o que não sentimos e ignoramos nossas verdadeiras dificuldades, limites, insatisfações, dores. O mundo em rede é aceito facilmente como ópio de contentamento e moeda de troca para escondermos frustrações e desventuras.

É óbvio que fora do mundo da rede outros mecanismos de opacidade, manipulação ou controle também existem: haja visto o que vemos em relação a doutrinas sectárias ou fundamentalistas, partidarização midiática ou política, famílias tradicionais, regimes autoritários.
Ao que parece, todos estes comportamentos, mais do que ligados ao desenvolvimento tecnológico possuem, sim, um ingrediente que vem do Humano.
O ciberespaço simplesmente potencializa seu alcance e velocidade. Apenas isso.


Mas afinal, "o que você tem feito"?

________________
Posts relacionados:
Facebook: robotização e sedentarismo em rede
Bem vindo ao Facebookistão! 
KODAK e FACEBOOK: Aperte o botão e nós faremos o resto!
Redes Sociais: a perpetuação de um modelo maçante e infantilizado 
Escravos do celular?
Geração Touchscreen
Uma sociedade de performance

*
Curta/Acompanhe o Blog na sua página do Facebook
Visite meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Siga-me no Twitter: @ElianaRezende10


10 de set de 2015

Diga não à mediocridade

Escrito e lido por: Eliana Rezende

Ouça eu ler para você
(escolha a opção abrir com: 
Music Player for Google Drive)

Há quem diga que o que separa um expert de um amador é a dedicação.
Nessa linha de raciocínio, teríamos que o talento seria pura e simplesmente a capacidade de um indivíduo de se dedicar disciplinadamente a algo. E nesta perspectiva, em geral os que se satisfazem com sua mediocridade são os que preferem um determinado nível de conforto e deixam de dedicar esforço e empenho ao novo.



Do lado de cá fico pensando muitas coisas, mas acho que começo com um acordo com tais afirmações. 

Em geral, as pessoas preferem a zona de mediocridade, que é aquela exatamente que coloca todos como amadores em muitas coisas. Esta zona é a vizinha de condomínio da zona de conforto. Neste local todos plainam por muitos lugares e não se detém profundamente a nada. Especialistas em quase tudo, sem nada de fato conhecer a fundo. 

Poucos são aqueles que resolvem avançar, pular o muro do seu condomínio e buscar vencer os limites de seu quintal (seja ele pessoal, profissional, intelectual e até das afetividades). 

Aqueles que ousam ousar conseguem descobrir que podem ir além, mas isso significará esforço, empenho, muitas horas advindas de abrir mão de outras coisas e escolhas. E é aí que as pessoas preferem não ter que abrir mão. Assim, acha-se erroneamente que se consegue manter de tudo um pouco, ainda que seja mediocremente. Equivocadamente acham que ao abrir mão estarão perdendo, e se esquecem que as mãos precisam estar livres para que novo chegue. Ocupar-se demais e segurar-se ao que está atrás, além de não permitir o avanço na velocidade desejada, ocupa espaços e energias. 

E assim, muitos escolhem um trabalho medíocre, uma existência medíocre, um relacionamento medíocre. Tudo pelo medo de perder um trabalho, não conseguir um novo amor, ou não ser capaz de construir uma nova rotina para sua existência e vida. 

E de novo entramos em outra seara, que são as das escolhas: sempre pessoais e intransferíveis. Cada um tem as suas! E contra isso não há o que ser feito. 

Dizer não à mediocridade é caminho individual e que só pode ser trilhado por corajosos e audaciosos. Corajosos, porque admitir que estava confortavelmente instalado em uma zona e que esta não é a correta para si, é difícil. Não bastasse isso, fazer a mudança (já que muitos constatam, mas preferem ficar onde estão) é mesmo um ato de coragem. 

Daí que para resumir tudo, vejo que nada mais temos do que um caminho de autoconhecimento. E que como tal, cada um decide o seu, não cabendo a mais ninguém julgar ou criticar.
Pode-se apenas constatar!  

____________
Posts relacionados:
Afinal, quem você pensa que é?
Uma sociedade de performance
Nossa vida é nossa primeira ficção
Vamos parar de educar para a mediocrização!
*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook
Conheça meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional



24 de ago de 2015

Vamos parar de educar para a mediocrização!

Escrito e lido por: Eliana Rezende

Ouça eu ler para você
(escolha a opção abrir com: 
Music Player for Google Drive)

Uma análise sobre os sistemas educacionais hoje vigentes, não apenas no Brasil mas no mundo, revela uma condição decepcionante.
Apesar de tantos desenvolvimentos tecnológicos a realidade Educacional e os ambientes ditos de escolaridade estão longe de formar seres pensantes, atuantes e com espírito crítico e interventor.
Não há inteligência social nos modelos que temos.

O sistema educacional, até por sua conformação física, revela uma dicotomia entre o mundo vivido e o compartilhado em realidade 3.0 para uma vivência "fabril". As escolas mantém seus espaços tal como projetados como os modelos pós industriais diziam que deveriam ser linhas de produção. Num ambiente onde todos são tratados como engrenagens e de forma homogênea fica difícil, não somente reconhecer mas valorizar potencialidades.
A norma assim é mediocrizante. Pensa-se na educação que sirva a todos... na média!


A lógica é muito simples: entra-se na escola com a mesma idade e aos lotes, todos são agrupados formando turmas e séries. A premiação bimestre a bimestre é atingir as notas, definidas de forma generalizante e que sempre estipulam uma nota mínima considerada média. E isso em geral é conseguido por um desempenho que premia memorização, pura e simples, em alguns casos a cola aparece como um recurso ainda pior e mais medíocre. Os que responderem de forma mais eficiente a todo o processo repetitivo e mediocrizante serão considerados aptos a seguir para a série seguinte. Estão promovidos. Até que um dia ganham um diploma. E com este pedaço de papel nossos alunos medíocres em série seguem para um mercado de trabalho.
E que, pasmem, querem criatividade, espírito crítico, colaborativo e independente!

Estranhamente, conteúdos são ensinados segmentalmente, como se nada tivesse relação com nada. Embala-se conteúdos em série e estes são descarregados série a série pelo primeiro desavisado de plantão que resolver assumir os mesmos. Os tantos especialistas em suas respectivas áreas não fazem a menor ideia como sua disciplina conversa com a outra, ou como se relaciona com a vida vivida extramuros ou a que se compartilha em rede. E assim, todos seguem usando materiais prontos e cumprem cronogramas, ementas, avaliações. Imaginam que ao conseguir as tais notas de média terão ajudado a constituir um educando e formado minimamente um cidadão social. Usam-nas como régua para medir supostos avanços ou cumprimento de metas, objetivos e afins.

Perde-se tempo enorme ensinando sobre a escravidão no Brasil, por exemplo, e em nenhum momento se discute sobre xenofobia, preconceitos, modelos produtivos e afins. Sempre há aquele limite chamado de politicamente correto e assuntos tabus para uma escola.
Mas não estamos falando em formação? Exercício de cidadania? Papel na sociedade? Não entram nesta discussão o papel biológico que torna os seres diferentes por fora, mas biologicamente semelhantes em sua essência?! Não seria uma conversa para todas as disciplinas?

Ensina-se sobre a antiguidade grega e romana, mas não se fala sobre o papel da democracia e como nos tornar cidadãos conscientes, hoje. Como foi a construção da ideia de cidadania, moral, gênero a partir destas civilizações? Como a geografia, a filosofia, a biologia, o pensamento racional via áreas exatas construíam a ideia de cidadão? E como este cidadão se relaciona hoje com tais temas? O que o mundo contemporâneo fez com tais assuntos? Isso tudo fica fora dos conteúdos.
E me pergunto: então para quê o sistema de ensino?


Tentam ensinar sobre países estrangeiros, suas capitais, economias. Mas será que os alunos que chegam de carro e vão embora de carro conhecem o seu bairro? Sabem o que é uma periferia? Fazem ideia de como vivem pessoas sem rede de esgoto? Que projetos seriam capazes de realizar para limpar e filtrar água, captar água de chuva ou aquecer água usando placas solares feitas com materiais alternativos? Sabem construir uma?
E a pergunta principal: os professores de geografia, ciências, física, química, biologia... sabem?


Ensinam-se sobre invenções, mas como discutir o papel das mesmas em nossas vidas, suas aplicações e caminhos? Qual a diferença entre invenção e inovação? Todas as áreas de saber estariam ali envolvidas.  E fico perplexa de ver como ninguém relaciona nada com nada.

Será que um aluno sabe como funciona um rádio? Uma TV?  Já desmontou um ou outro? Sabe quais são seus componentes? De que forma o som e a imagem se propagam? Como a música toca? Como nossa audição e visão funcionam?  Enxergamos com os olhos ou com o cérebro? E os animais escutam e veem da forma como escutamos e vemos? E uma máquina fotográfica? Como eram as primeiras? Como funciona uma caixa preta? Como a imagem se forma? Como se processava a revelação de um filme? Como é hoje uma imagem digital? O que significa do ponto de vista da representação um retrato? Como a arte representava as pessoas? Como nos fazemos representar? Onde todas estas imagens produzidas diariamente são armazenadas? O que é a nuvem? Como nossos arquivos pessoais são armazenados?  Por quanto tempo? Por quem e para quê? E quando não estivermos mais vivos, como ficarão nossas contas na internet?


E de novo pergunto: os professores de todas estas disciplinas correlatas e afins sabem fazer? Se interessaram algum dia em fazer as perguntas e ir atrás de respostas?

Notem que o que movimenta tudo não são conteúdos prontos: são as perguntas que geram a ação e a consequente produção de conhecimento. O professor não tem que saber, o aluno não tem que saber. Mas todos podem estar envolvidos na busca. E na retroalimentação de mais perguntas para ir mais longe e além.

Vejam quantas possibilidades interdisciplinares há e que são perdidas diariamente.

Será que isso para ser ensinado precisaria ser feito em divisões de turmas e idades? Não seria muito mais criativo, interessante e divertido que os alunos escolhessem o que queriam aprender e como? Independente de idades e turmas?
Não seria muito mais interessante que os professores funcionassem como mentores nestas descobertas, criassem projetos e os desenvolvessem ao longo de um período? E aí sim teriam resultados muito mais gratificantes, instigantes e interessantes?
Por exemplo: como criar uma rádio comunitária, elaborar as programações, produzir conteúdos, inventar produtos para serem comercializados, criar noticias. Ou seja, um único projeto pode fazer com que todas as disciplinas estejam envolvidas! 


Lembro-me de uma vez quando ministrava aulas, para as antigas 7ª e 8ª séries, numa escola tradicional carmelita. Não suportava a ideia de ter que cumprir aulas que vinham encaixadas em sistema pedagógico, no formato Anglo. E então resolvi que para falar dos anos JK e posterior (1950-1970) iria fazer um trabalho que envolvesse todas as turmas. Iríamos reconstituir o que ocorria no Brasil e no mundo na época. Os alunos se reuniram por interesses: uns foram para a arquitetura, outros engenharia, outros foram para a moda, outros o período dos festivais de rock como Woodstock e vários outros ficaram com MPB. Houveram os que construiram maquetes, outros criaram um desfile de moda e ainda outros tiraram letras de música para tocar ao vivo. Haviam os que eram tímidos demais, mas ajudavam nos bastidores: faziam as músicas passarem de forma correta no desfile, cuidavam da iluminação (eram donos da logística para o evento).

Passamos o semestre todo preparando o evento e na última semana de aula a apresentação no auditório reuniu a escola inteira, professores, pais e tivemos teatro, dança, show de rock com bateria e guitarra ao vivo tocado pelos alunos. Desfiles e uma exposição de maquetes pelos corredores. Frequentávamos o laboratório de informática e usávamos a internet para várias pesquisas e inspirações. Aqui, um à parte interessante: o laboratório era muito equipado e tínhamos um computador por aluno, e isto em 2005. E APENAS eu usava para minhas aulas! O resto do tempo o laboratório era apenas para fazerem alguns trabalhos ou jogar em horas vagas. Nenhum outro professor usava.

Os pais no período anterior à apresentação me cercavam nas reuniões preocupados, perguntando que, como aquilo seria ensinar. Me perguntavam: "E o conteúdo?!" Minha coordenadora ficava preocupada com o exame que teriam que fazer para continuar tendo o sistema de ensino validado.
Eu penas sorria...

O resultado?
Nunca a nota geral do sistema foi tão alta! Os alunos me diziam: "Prô, eu lembrava de tudo o que estávamos fazendo... sabia tudo!". Isso tudo para dizer, que não era fácil, lidava com meus colegas de trabalho torcendo o nariz: os alunos começavam a ficar excitados antes de minha aula, e era normal ficarem após as aulas discutindo o projeto uns com os outros. Nunca ficava em sala de aula com eles. Andava pela escola toda vendo locações, debatendo. E com os alunos espalhados por toda parte. Tivemos aula até embaixo de um pé de amora em dias quentes.
Mas foi extremamente gratificante, e me mostrou que é muito possível.
Sei que tanto eu quantos eles sobrevivemos e aprendemos muito!

Lembro-me de ir ao cinema com todos numa matinê assistir o filme "Cruzada", e como éramos praticamente nós, eles se levantavam durante o filme e me perguntavam coisas e eu falava. Era uma troca intensa e muito rica. Foram ao filme com tudo lido e depois queriam falar sobre o assistido.
Uma experiência agradabilíssima!

Turmas de 7ª e 8ª Séries do ano de 2005 - Colégio Nossa Senhora do Carmo - SP

Em muitos casos os próprios alunos não querem essa mudança de paradigmas. Se ressentem destas ousadias.
Ministrando aulas na faculdade costumava (e porque era obrigada a) dar provas, mas estas eram com consulta e em duplas. E não existia para mim certo ou errado. Dizia que queria que desenvolvessem um raciocínio e me convencessem. Mesmo errado o que valeria seria a construção.
Como era difícil para alguns!
Me diziam que minhas provas eram as piores. Mas exatamente porque nunca cobrei algo decorado e pronto. E aí está o limite imposto por um sistema no qual tinham sido formados; uma linha de montagem. Não eram/são capazes de pensar por si sós!
Tão triste!

Por isso, meu clamor: vamos parar de educar para a mediocrização! É muito mais rico e muito mais satisfatório para todos. Experimentem!


____________________
Posts relacionados: 
Chegamos ao fim da Educação
Criatividade e escola: caminhos incompatíveis?! 

Chegamos ao fim da leitura? 
Geração Touchscreen 
Letra cursiva: a caminho da extinção? 
Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I
*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook 
Conheça meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional 

20 de ago de 2015

Estou de casa nova! Venha me visitar!

Por: Eliana Rezende

Talvez você me acompanhe há algum tempo, talvez tenha chegado agora. Em qualquer dos dois casos, venha visitar minha nova casa. A ER Consultoria | Gestão de Informação & Memória Institucional
Tenho uma casa novinha pronta para você me visitar.
Como toda nova casa está cheia de detalhes que eu faço questão que conheça. E por ser tão espaçosa e oferecer tantas possibilidades, passará a ser chamada de Portal ER Consultoria.
A minha ideia é congregar num mesmo espaço tudo o que você precise em matéria de assessoria técnica, consultoria e capacitação, voltados à atender as áreas de Gestão de Informação, Gestão Documental, Gestão de Conhecimento, Curadoria de Conteúdos e Memória Institucional.
Se já é meu seguidor, deve estar perguntando:
"E o Pensados a Tinta?"
Ele continuará onde sempre esteve, seja também meu convidado e continuará contribuindo com inquietações, pensamentos e visões.
Para ver se gosta do Portal ER Consultoria mando uma foto.
Mas claro que quero mesmo que você venha me visitar! Para chegar lá é só anotar o endereço ou clique na imagem: www.eliana-rezende.com.br 
 http://eliana-rezende.com.br/ 

Para facilitar sua visita, apresento como o Portal ER Consultoria foi estruturado. Lá, você irá encontrar:
Sobre a ER - Uma apresentação da minha empresa e também, os caminhos por onde andei. São muitos caminhos e trilhas que me ajudaram a lapidar e formar. Além disso, vou te contar como minha empresa pode ajudar a sua instituição e quais os benefícios disso.
Soluções - Nesta página você saberá sobre as consultorias, assessorias técnicas e capacitações que ofereço e meu universo de atuação institucional. Em muitos casos, só a consultoria não basta. Daí oferecer múltiplas soluções que complementam uma consultoria. E no final, um portfólio de "Cases", dos projetos que tenho desenvolvido.
Trilhas de Aprendizagem - As "Trilhas de Aprendizagem" foram especialmente desenvolvidas para profissionais de Informação, Gestão de Conhecimento e Memória Institucional. Optei por ter a "Trilha Principal" e a "Trilha Alternativa". Qual seguir? Você escolhe o caminho. Afinal a Trilha é para dar liberdade e ação ao processo de aprendizagem, e que deve ser seu. Caso precise, ajudo a decidir montando uma trilha perfeita para o tamanho de sua necessidade.
Portfólio * - Aqui encontrará uma coleção dos projetos que tenho desenvolvido profissionalmente.
Publicações - Nesta página há um registro de minhas publicações acadêmicas e técnicas, já que o Blog tem seu espaço no Portal e também no Pensados a Tinta.
Contato - Um formulário para você fazer contato e/ou escrever qual a sua necessidade ou como posso ajudá-lo.

  

Venha me visitar...

Estou à sua espera.
Entro com a hospitalidade e você com a curiosidade!

Brinde de Boas Vindas

Ainda tenho para você um pequeno brinde. Convido-o a participar do webinar ER1 (free) - "Informação: matéria-prima para Conhecimento e Inovação". Inscreva-se no portal na página abaixo.
http://eliana-rezende.com.br/index.php/cursos/webconferencias/
 

11 de ago de 2015

Por ruas e cruzamentos numa Pauliceia desvairada



Por: Eliana Rezende

A maior metrópole do Brasil é famosa por seus congestionamentos que em determinados dias chegam a 340 Km. Um fato que não é novo e que revela uma cidade pulsante, com um ritmo acelerado.

Em dias recentes um debate intenso se colocou quando o Prefeito da cidade decidiu para o bem da diminuição de acidentes reduzir a velocidade nas marginais. Em pouquíssimo tempo uma onda de descontentamento se fez. Em verdade, a cidade sempre conviveu com muitos e graves acidentes. A maioria quando ainda eram usadas apenas carroças. 

Convido-os a irmos atrás no tempo e percorrer esta Pauliceia:
Av. Paulista - 1928
Tal como outras capitais do mundo em fins do século XIX e nos princípios do século XX, São Paulo também via sua vida urbana crescer e se modificar. Assistia atônita uma gama imensa de transformações nos hábitos de vida, modos de produção e formas de deslocamentos e adensamento populacional.
As ruas da Pauliceia encontravam por parte dos que a administravam problemas de todas as ordens e constantemente eram alvo de acalorados discursos realizados na Câmara Municipal ou mesmo na imprensa diária, onde os problemas urbanos ganhavam o tom de reivindicações populares ou mesmo de críticas aos poderes constituídos. 
São Paulo convivia com um aumento indiscriminado de sua população. Tal aumento, originário desde os tempos logo após a abolição da escravatura - que lançou nas ruas escravos forros e libertos - ao mesmo tempo recebia nas mesmas ruas aqueles que iriam prosseguir realizando o trabalho dos escravos: eram imigrantes italianos. Seguidos de outras etnias e nacionalidades que chegavam em levas da Europa.

Com tantos circulando pelas ruas da cidade o burburinho aumentava, e o ritmo de vida se acelerava, gerando cada vez mais políticas que visavam regulamentar os espaços, gestos e modos de viver a urbanidade, eram denominados códigos de postura. Temas como o trânsito e o barulho na cidade eram tratados periodicamente, e em muitos casos, era patente a tentativa de inclusão do maior número possível de situações passíveis de punição e regulamentação.

Os sons que vinham da vida urbana eram muitos e variados e colocam a quem deles se ocupava a árdua tarefa de elencar uma vasta lista. A imprensa em geral colaborava neste sentido, e com certa frequência publicava artigos como o Dr. J. M. de Azevedo Marques, intitulado “A tranquilidade publica perante a Municipalidade”, onde o autor fazia menção a alguns destes sons da vida urbana:
 (...) Há dias passados um illustre scientista extrangeiro queixava-se, pela imprensa, com razăo e escarneo, de ser S. Paulo uma cidade insupportavelmente barulhente alludindo ao ruido exaggerado dos bondes, dos automoveis, dos sinos, dos vendedores de jornaes, dos caixeiros de cafés, da cachorrada a uivar, dos pregoeiros ambulantes ensurdecendo, atordoando, causando mau humor, impedindo o repouso, socego, a saude e o trabalho.(...) Que diferença contra nós, si compararmos isso com o que vimos nas cidades mais agitadas do velho mundo: Londres, Paris, Berlim Bruxelas, Lucerna, Genebra, Vichy (...), onde tudo se passa calmamente, em relativo silencio: os vehiculos năo incommodam pelos ruidos, os sinos săo raros e commedidos, os automoveis fazem “chic” em năo buzinar, ninguem grita, năo há guizos estridentes; e por isso, alli se pode conversar nas ruas, nos cafés, nos vehiculos, nos escriptorios, como se pode repousar, dormir, viver. (...) Aqui impossível. (...)”[1]
Como sempre a comparação depreciativa tomava como parâmetro o Velho Continente (modelo buscado como referência de civilidade). O articulista ocupa-se de tecer as comparações procurando mostrar quão distante São Paulo estava de cidades e civilizações europeias.

Os sons desta cidade que crescia num ritmo vertiginoso vinha de diferentes meios de transporte, personagens urbanos, ambulantes e seus pregões, feitos para chamar atenção ao seu trabalho, ou mesmo de animais que trafegavam soltos por ruas, ruelas e avenidas.

Dentre os instrumentos mais comuns estavam entre outros: o uso de sinos, campainhas  além da própria voz do mercador em portas de teatros, praças, e mesmo de porta em porta.

Rua XV de Novembro - São Paulo

O artigo prosseguia em sua minuciosa descrição e se tornava interessante quando se referindo ao trânsito, relacionava a convivência com determinados aspectos do comportamento urbano com a ausência de moral. Ou seja, quanto mais imoral e próximo da barbárie a desqualificação moral mais suscetível ao hábito de sons que perturbavam a ordem alheia. Observe:
“(...) Há é certo, uma parte do povo que se não incommoda com tudo isso; são os insensíveis, os pandegos, os endurecidos e, podiamos dizer, os idiotas, cujas funcções meramente physiologicas e impertubaveis predominam sempre sobre as moraes; comem e bebem sempre bem, dormem sempre bem, riem sempre bem, vagam sempre bem, passam sempre bem, como si o mundo fora só elles. Mas essa minoria de “homens-vegetaes” não merece dictar regras ou servir de padrão aos outros, ás senhoras, ás crianças, aos velhos, aos doentes, aos trabalhadores, aos estudiosos aos sensiveis, aos civilizados. (...)”[2] 
Ritmos e deslocamentos: a cidade veloz
Este mesmo trânsito, considerado caótico, era o centro de duras críticas e revelava um articulista preocupado. Referindo-se ao barulho e a forma descuidada que muitos veículos eram conduzidos e os resultados em números de acidentes, acrescentava:
 “(...) A norma –  “é gritar e matar” – o bonde dispara, tocando os tympanos em selvagem Ze-Pereira, e vai esbarrando e esmagando, haja o que houver; o automovel faz a mesma cousa: e assim substitui-se a pericia pelo barulho, entendendo os heróes conductores que buzinando e badalando podem matar livres de culpa e pena. (...)”[3]
Os registros de acidentes de trânsito são muitos e variados, incluindo-se batidas de automóveis em outros veículos, em postes ou em outras formas de obstáculos, bondes que se chocavam ou saíam dos trilhos e atropelamentos em geral, eram a maioria das ocorrências policiais. Ao mesmo tempo, era um indício de um número crescente de pessoas circulando pelas ruas e experimentando uma nova vivência: relacionada com os ritmos da velocidade e das deslocações pelo espaço social. Algo que até então não era possível sem as invenções como automóveis, bondes e trens. 
Bonde 41 saiu dos trilhos na rua Carandaí, esquina com a antiga rua Inhaúma, entrando no terreno da Sociedade Amigos da Casa Verde
Os relatos de tais ocorrências em vários casos transformavam-se em inquéritos policiais redigidos por delegados responsáveis nas diferentes circunscrições, tornava-se uma espécie de crônica policial sobre os problemas relacionados ao trânsito da cidade. Uma detida leitura nos ajuda a perceber como esta cidade se movimentava e se relacionava com seu entorno.
Carlos Pimenta, Delegado da 5ª Circunscrição em São Paulo, é um destes que chamo de cronistas policiais. Sua escrita miúda, recheada de pequenos detalhes ajuda a dar cor e tom às impressões de uma autoridade sobre diferentes infrações ocorridas no espaço da cidade, tentando  da  melhor  forma  encontrar argumentos  que viessem convencer de culpa ou absolvição as partes envolvidas. São relatos envolvendo crimes de diferentes ordens, em especial os que são relacionados à moral e bons costumes (inserem-se aí os crimes de vadiagem, prostituição, jogo, defloramentos, homicídios, entre outros), além claro, das infrações de trânsito.

Citando algumas destas infrações, o delegado Carlos Pimenta comenta sobre os atropelamentos e a forma considerada descuidada de motorneiros e passageiros conduzirem e se portarem nos veículos que transitavam pela cidade:

“(...) Trata este inquerito da eterna questão dos atropellamentos por vehiculos. Enquanto tivermos leis benignas para o caso, os taes senhores condutores, chaffeurs e cocheiros andarão sempre sem o necessario cuidado, á matroca, a catar as pernas de um pobre mortal, ou mandal-o sem demora para outro mundo (...)”[4]

No caso específico deste inquérito, Carlos Pimenta retomava a questão da ausência de uma lei de trânsito que viesse atender de perto a necessidade de punir eficientemente infratores perigosos. A tônica sobre as leis de trânsito é constante e em sua fala, e em mais de uma oportunidade retoma este tema, em especial em relação ao número elevado de acidentes envolvendo atropelamentos e/ou imprudência da parte de motorneiros, condutores, passageiros e pedestres. São os casos, por exemplo, dos seguintes inquéritos:
1)      “(...) É um eterno problema a questão de desastre por automoveis e dia a dia os atropelamentos vão crescendo de modo assustador. Este inquérito trata de mais um, cuja victima é o menor Antonio de Toledo, com 6 annos de idade (...) O automovel que apanhou o menor tinha o nº 2950 e (...) o auto caminhava com marcha acelerada e com pharóes apagados (...)”[5]

2)     “(...) O veso antigo de todos os conductores de vehiculos, nesta Capital, andarem em vertiginosa carreira, procurando a morte para si e para os outros, é coisa que lhes póde tirar.

São multados, processados, castigados, afinal dentro de nossas benignas leis e dos nossos liberrimos regulamentos. Mas a attração, a sympatia pela vertigem de corrêr é inevitável. (...) Devido a essa loucura, ou melhor, essa falta de prudencia, este inquerito registra um desastre desta natureza. No dia 10 do corrente, Segunda feira, ás 21 horas, o bonde de passageiros nº 423, na linha Tamandaré, tendo como conductor Abilio Pires, chapa nº 476 e como motorneiro Manoel de Moraes, chapa nº 877, ao fazer a curva da rua Castro Alves para entrar na rua acima referida, por imprudencia absoluta do alludido motorneiro, saltou dos trilhos, subindo no passeio, ficando as primeiras rodas sobre o mesmo (...)”[6]
Carlos Pimenta se coloca como mais um dos que criticam as leis em vigência na capital e a forma considerada branda de tratamento dos infratores em geral. Em diferentes circunstâncias se refere às leis de trânsito como sendo benignas demais para serem respeitadas.
Além da velocidade e descuido dos condutores de veículos, os inquéritos nos fazem saber sobre a imprudência cometida pelos que trafegavam nas ruas. Um destes refere-se especificamente a distração e ao hábito sempre corrente de saltar dos bondes quando estes ainda estavam em movimento:
“(...) ás 21 horas, João Rebulhedo, que guiava o automovel nº 4016 pela Avenida Brigadeiro Luiz Antonio com destino á Avenida Paulista, seguia atraz de um bond da linha Paraizo quando, perto da rua Conselheiro Ramalho, o conductor Daniel Paes, que se achava de folga viajando neste bond, ao descer delle, em movimento, foi apanhar e ferir este conductor (...)
(...) João Rebulhedo explica em suas declarações que seguia o bond numa distancia de dois metros quando, inesperadamente, saltou delle esse conductor de folga. Sem tempo de evitar o desastre, pois Daniel, ao descer, lhe passou á frente – conseguiu ainda evitar sua morte, com a monobra rapida que fez. (...)”[7]
A prática de saltar dos bondes quando estes ainda estavam em movimento, além da travessia imprudente de pedestres acabaria por levar diferentes propostas à Câmara de vereadores de São Paulo sobre a aplicação de multas. Dentre alguns destes projetos temos, por exemplo:
“(...) Não existe, entre nós, a regulamentação do transito de pedestres. Essa falha é absurda, tanto quanto, no meu entender, essa regulamentação é o ponto de partida para uma boa legislação que venha resolver esse problema. (...) em Londres, (...) qualquer pessoa que atravessar uma rua em momento improprio, não pagará sómente multa; será presa immediatamente.
E, si essa imprudencia der origem a um desastre, responderá pela parte dos dannos que provocar (...)”[8]
Abaixo uma imagem no Largo de São Bento, onde é nítido o movimento de subir e descer dos passageiros com os bondes em movimento. Além disso, transeuntes, caros e bondes compartilham o mesmo espaço exíguo, gerando ao pedestre inúmeras chances de atropelamentos quer por um quer por outro. 
Bonde elétrico aberto no Largo de São Bento, na capital paulista, por volta de 1930, circulando na linha de São Caetano (criada em 1902 e extinta em 1942)
As discussões mostram-se acaloradas e seguem-se diferentes sugestões para um problema que não conseguiu no decorrer do tempo uma solução satisfatória. 
Prova disso é que já estamos no século XXI e enfrentamos praticamente as mesmas questões, criticas e ponderações.
 Destas ocorrências há diferentes registros fotográficos detalhados pela perícia técnica e interessante quanto ao fornecimento dos tipos de acidentes[9], ruas de maiores incidências, e assim por diante. As imagens tomadas como documentação para incorporar o inquérito revelavam em detalhes a forma como o acidente se desenvolveu: em alguns casos estas fotografias recebiam anotações em vermelho indicando a trajetória do veículo até encontrar o seu destino contra um poste, um muro ou mesmo outro veículo. As rotinas de acidentes acabaram por instituir uma prática de registros fotográficos para os acidentes que ocorriam pela cidade e revelam mais uma aplicação da fotografia para fins comprobatórios e jurídicos. 
Acidente com o bonde Casa Verde - Penha (55) na rua Japuiba com rua Anhauma (atual rua Antônio Lopes Marin com rua Dr. César Castiglioni Júnior

A lei determinava as velocidades máximas dos veículos motorizados. Nos termos da lei:
 “(...) no perímetro central, em ruas e horas de grande transito, dez quilometros e nas demais, vinte quilometros, no perimetro urbano, trinta quilometros e, no suburbano, quarenta quilometros (...)”]0
As velocidades acima descritas procuravam através de uma regulamentação criar formas de diminuir os problemas ligados às altas velocidades dos carros, como batidas e atropelamentos muito correntes no período. Os espaços de regulação e tráfego colocaram à cidade muitos debates e o consenso nunca foi obtido. 

Distantes no tempo e próximos na dificuldade, temos a Prefeitura de Haddad alterando limites de velocidade nas marginais alegando exatamente os mesmos problemas de mais de um século atrás: excesso de velocidade, acidentes e atropelamentos. 

De fato, uma relação de poderes e fascínios entre homens, máquinas e leis. Nem sempre conseguem andar juntas e em benefícios de todos. 

*
Saiba mais
*
Post extraído de minha Tese de Doutorado, intitulada: "Imagens de cidade : cliches em foco... São Paulo e Lisboa (1900-1928)", defendida na UNICAMP, em 2002.

[1] Marques, J. M. Azevedo. “A tranquillidade publica perante a Municipalidade”. In: Jornal O Commércio de S. Paulo, 29/04/1914.
[2] Idem.
[3] Ibidem.
[4] Inquérito redigido por Carlos Pimenta, Delegado da 5ª Circunscrição de São Paulo, em 16.08.1922.
[5] Idem.
[6] Ibidem.
[7] Inquérito redigido por Armando Soares Cayuby, Delegado da 6ª circunscrição, em 08.02.1922
[8] Projecto nº 3, de 1924. Coleção Actos e Decretos do Municipio.
[9] Os registros fazem parte da coleção existente nos Arquivos do Museu do Crime, da Academia da Civil  de São Paulo.  
[10]  Lei nº 2.264, de 13 de Fevereiro de 1920. Coleção Actos e Decretos do Municipio.

____________
Posts relacionados:
♫ ♪ ♫ Tomara que chova...3 dias sem parar ♫ ♪ ♫
As faces de Sampa
Museus: faces e fases de uma metrópole 
Contradições em vidas modernas
Desagravo paulistano
*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook
Conheça meu Site: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional