30 de nov de 2014

Bem vindo ao Facebookistão!

Por: Eliana Rezende

Numa galáxia distante, em meio à poeira cósmica de eras e eras analógicas, surge um novo planeta. É azul quase que em sua totalidade, e conta, a partir de seu surgimento meteórico com milhões de seres. 
Atordoados pela imprevisibilidade do novo e um aumento vertiginoso sem precedentes na história galáctica de novas estrelas seu povo busca sobreviver. 


Culturalmente unem-se entorno de seu planeta azul, que ganhou o nome de Facebookistão.
O Facebookistão é um local onde a tristeza não existe! 
Suas fronteiras estão sempre abertas: qualquer cidadão pode solicitar ser integrante. Basta apenas aceitar seus termos de adesão. As letras são miúdas e basicamente camuflam que a partir de então você estará abrindo mão de sua privacidade. Transformar-se-á em dados que poderão ser utilizados ao bel prazer das autoridades locais. 

Todos tem muitos amigos, e sempre estão dispostos a aceitar mais um. Alguns colecionam centenas de amigos, mas em geral se relacionam de verdade com apenas 3 ou 4 em média. Apesar desta concepção de comunidade, contraditoriamente, inventaram o SELFIE, mas isso é lá uma outra história desse povo com hábitos tão estranhos.

No Facebookistão todos estão sempre se divertindo. A ordem é curtir! Ver e ser visto.
Seus habitantes podem ser facilmente identificados: olhos arregalados, língua à mostra e as mãos fazem gestos que podem ser codificados pelos das mesmas tribos, sorrisos são obrigatórios.  Todos precisam ser sarados, espirituosos, divertidos, extrovertidos, bem sucedidos, faceiros e viajados. 

Falando em fronteiras: o Facebookistão apesar de surgimento recente numa jovem galáxia mostrou-se ambicioso, e rapidamente buscou estender seus domínios, e assim, avança impiedosamente sobre todos os que de alguma forma possam representar ameaça à sua recente soberania. De tal sorte, a propaganda homogeneizante é a de que não há lugar melhor e mais feliz para viver e compartilhar. Aos insatisfeitos resta apenas o abandono da galáxia. Aos que ficam, a doce sensação de que este é o melhor dos mundos! Estes, defendem o Facebookistão como sendo o local onde podem estar junto com todos e a fantasia de nunca estar só é o motor que faz com que tudo se justifique. O patriotismo militante de seus integrantes é facilmente visto e seu território é defendido passional, cega e acriticamente.



Algumas patologias, infelizmente, são favorecidas pelo clima do Facebookistão: por causa de uma densa névoa, muitos de seus habitantes não podem ser identificados e com isso são capazes de espalhar através de sua presença virtual muitas formas de ódios, preconceitos, xenofobias, violências e vários tipos de crimes. As autoridades do Facebookistão se justificam e dizem que trabalham duro no sentido de melhorar tal situação, mas pesquisas desenvolvidas ainda não encontraram uma cura para tal mal. 

Apartados de seus semelhantes começam inusitadamente descobrir que possuem um dialeto comum, o que favorece sua comunicação. O alfabeto não precisa ser complexo e nem mesmo ideias necessitam ser muito elaboradas e desenvolvidas. Seu povo, de hábitos culturais diversos amalgamam-se e possuem uma preferência grande por representações imagéticas. As mesmas igualmente não precisam de muita elaboração. Seus defensores argumentam que é preciso comunicar-se da forma mais imediata possível. Para isso, surge um léxico variado, como: ; ), \o/, : ( ,

O Facebookistão também enfrenta um sério problema com seu dialeto: as palavras estão desaparecendo e cada vez mais volta-se ao uso de sinais imagéticos. Seus habitantes possuem deficit de atenção e só conseguem se comunicar por sons ou imagens. As autoridades também não sabem como solucionar isso e uma das primeiras medidas foi sempre limitar o número de botões disponíveis em comunicações tanto oficiais como coloquiais. Imaginam que com isso conseguirão conter o avanço novas criações vocabulares.  

Já que no Facebookistão todos são muito felizes, é óbvio que são muito positivos em tudo e por isso não possuem alternativas como NÃO GOSTEI! 
Imaginem que fantástico! Só existe o GOSTEI!
Fiquei muito interessada nisso e pensei como seria a vida prática desta pessoas. Imagine um planeta onde a dúvida simplesmente não existe? Afinal, você pode gostar das coisas, mas não gostar ou duvidar simplesmente não existe?! 
Em conclusão rápida no Facebookistão não há, portanto, pessoas inseguras, divididas. Para que?


Descobri também que por serem adeptos apenas de botões e imagens todas as suas atividades militantes, afetivas, doutrinárias, profissionais passam por um stream que chamam de linha da vida. Como num cortiço todos podem ver e ser vistos. O Facebookistão é mesmo um lugar de ruas largas e trânsito incessante.

A principal atividade é o compartilhamento. A preferência é sempre por uma foto e uma frase. Assim qualquer um, por mais desavisado que seja consegue pelo menos passar os olhos.
A moeda de troca neste mundo cheio de compartilhamentos é a visibilidade: ganham-se seguidores, amigos e claro: likes de montão. Como em qualquer atividade capitalista a busca por tal moeda aguça invejas alheias e todos buscam os gráficos, infográficos e números dos outros para os superar.

No Facebookistão as cifras são muito importantes.
Tão importantes que se convencionou dizer que toda a obra compartilhada deste povo tão voluntário nunca sofrerá destruição. Estão condenados à existência digital eterna.

No Facebookistão está garantido o direito à eternidade. Compartilhamentos terão garantia de vagarem pela eternidade em rede. Apesar disso, e para os que acreditam e possuam fé pode-se providenciar um Memorial. No entanto, e estranhamente, como compartilhamento é uma moeda de troca, não poderá ser herdado por ninguém. Ao morrer, seu proprietário só poderá permitir a existência eterna ou a criação de um Memorial para homenagens póstumas. Enfim, leis próprias de um mundo muito particular.


Num planeta de tanta felicidade, resta saber qual seria o passatempo favorito. Observando conclui que é o consumo. Consome-se frases, imagens, videos, piadas, bisbilhotices, fofocas, preconceitos, vilanias, xenofobias, partidarismos. Mas o campeão absoluto e isolado de consumo é o Tempo! Quanto tempo se consome no compartilhamento! Concluo que muitos estão querendo aumentar suas cifras para garantir algo que não consegui entender bem o que seja.
Mas como é um povo de hábito estranho, desisti de entender, e segui.

Seu povo, como em várias supostas democracias acredita que é livre. Mas em verdade vivem sob os humores, vontades e desígnios de um ditador:  Z é o seu nome. Como ditador, Z faz as leis e mesmo os que o servem em altos escalões se ousarem desobedecer são  alijados de tudo e mandados embora de seus domínios.  Ao seu lado, Z conta com o poder de uma influente rede de investidores que precisam muito da mão de obra voluntária dos habitantes do Facebookistão. O compartilhamento e seus dividendos são fundamentais para o estado de "bem estar" e valor que Z e seus aliados querem.
E como ocorre em todos os grandes domínios, os vassalados por Z acreditam que tudo o que este faz é para a felicidade geral de todos.

Mas, como ocorre com todas as sociedades de galáxias distantes, o Facebookistão também está vendo sua população envelhecer. Os jovens, descontentes e ansiosos por mais novidades, migram para outras galáxias e deixam no Facebookistão seus pais e avós. Z terá problemas de mão de obra e saturamento no mercado por compartilhamentos viciados e repetitivos. Além de óbvia concorrência de mercado.
Tempos de decadência... e de dúvidas também: será que conhecerão como tantas outras galáxias a destruição? Ou sofrerão um processo de fusão cósmica. Ninguém sabe!

Enquanto isso, seus habitantes começam a conhecer a senilidade em rede, enquanto esperam um novo Big - Bang digital.

_______________________


*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página do Facebook


12 de nov de 2014

Conheça e desenvolva seu FIB (Felicidade Interna Bruta)

Por: Eliana Rezende

A colonização pelo econômico em campos que tenham que ver com a felicidade humana de sociedade e civilizações é uma boa pauta.
Quando os noticiários não se cansam de falar de índices de PIB (Produto Interno Bruto), taxas de juros e aplicações e de como isso impacta a vida das pessoas, fico cá com meu pé atrás.

Isto porque, são índices exteriores ao indivíduo que, pouco ou nada, têm a ver com índices de satisfação e felicidade individuais. Não creio que tais índices, métricas, variáveis deem conta de trazer elementos que, de fato, auxiliem e façam jus à uma economia a serviço da satisfação humana.


O PIB (Produto Interno Bruto) serve apenas para mensurar e aplicar índices a mercadorias e bens de consumo. Tê-los não representa valor numa economia não monetária onde os bens são imateriais e intangíveis, tais como saúde, vida plena, família e afeto.

O PIB mesura tudo, menos aquilo que de fato faz a vida verdadeiramente valer a pena.
Um exemplo disso é, neste caso, os EUA. Desde os anos de 1950 seu PIB cresceu 3 vezes. No entanto, os americanos de hoje sentem-se mais infelizes do que os daquele período. O que nos faz parar e perguntar: se PIBs altos são tão fundamentais porque a discrepância nos índices de felicidade e satisfação?

Diria que o tema não é apenas pessoal, em um universo restrito. Tanto que a ONU lançou em 2013 um segundo Relatório Mundial da Felicidade.
Para sua elaboração, foram tomados nove índices que mensuram esta sensação de felicidade nos países.

Graficamente teríamos:


Tomando tais variáveis alguns economistas elaboraram o que veio ser chamado de Paradoxo da Felicidade. O economista Richard A. Easterli, em 1974, afirmava que este paradoxo se assentava em algumas assertivas:
  1. Em uma sociedade, os ricos tendem a ser mais felizes do que os pobres.
  2. Sociedades ricas não tendem a ser (muito) mais felizes do que sociedades pobres.
  3. O enriquecimento do País não leva, necessariamente, à felicidade.
Saindo na frente de todos nós, e tomando isso como uma política não apenas social mas de governo, está o pequeno reino do Butão.

Pequeno geograficamente, o Butão é um reinado hereditário nas encostas do Himalaia,
espremido entre a China, a Índia e o Tibet. Sua população não chega a mais que dois milhões de habitantes, e sua maior cidade, que também é capital chama-se Timfú e conta com apenas cerca de cinquenta mil moradores.

Seu rei, Jigme Singye Wangchuck - que é monge governante - tem como política pública tomar em conta a Felicidade Interna Bruta de seu povo. Mas como conseguir índices positivos nesta seara?

Tendo políticas públicas de uma boa governança, uma justa e equitativa distribuição de renda - que vem dos seus excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal, criação de animais e venda de energia à Índia - ausência de corrupção, garantia de educação e saúde de qualidade, com sistemas de estradas transitáveis em meio à suas montanhas e coroando tudo relações de cooperação e paz entre o povo. Poderiam, por N caminhos, aumentar a renda per capita de seus habitantes, acabar com suas reservas naturais e áreas de mangue e começar a fornecer energia para a Índia. Mas conseguiriam manter seus índices de felicidade no patamar que estão?
Para seu governante a resposta é: NÃO!

Óbvio que em muitos casos me dirão: mas isso é impossível de se obter em regimes capitalistas, tais como os que temos no mundo ocidental.

É provável que sim.
Mas e que tal buscarmos em nós mesmos, tal como fazemos poupanças ou aplicações pessoais, encontrar um índice pessoal de Felicidade Interna?
Nessa aplicação e rentabilização da Felicidade iríamos priorizar o que de fato importa: aquilo que somos e não o que temos. Aquilo que construímos internamente e não aquilo que compramos. Aquilo que conquistamos pelo autoconhecimento e não aquilo que um cartão de crédito compra. Nosso maior latifúndio seria estender as fronteiras de nossa alma, com amplos dividendos para o cultivo de sabedoria e conhecimento.

A rentabilidade poderia ser ainda maior se houvesse também a aplicação em investimentos futuros.
Ensine os pequenos a valorar desde crianças. Afinal, quanto de fato vale um brinquedo, um passeio, uma guloseima?
Ensine cidadania e valor com responsabilidade.
O futuro agradecerá!


Numa visão economicista e medianamente pragmática, diriam: mas, para quê?
E uma resposta possível seria: porque esta riqueza amealhada não será consumida por inflação, especulação, juros. Estará comigo onde quer que esteja, sem intermediários, atravessadores, especuladores. E o que é mais importante: nenhum ladrão poderá roubar, nenhuma calamidade poderá tomar.

A alma alargada e feliz, será plácida e porto seguro em todas as turbulências da existência.

______________
Posts relacionados:
Quero meus direitos!
Vida sustentável nas Cidades é Cultural. E, isto se aprende!
Contradições em vidas modernas
A arquitetura do medo e a vigilância consentida
Afinal, quem você pensa que é?
Empáticos e gentis: para quê?
Flores outonais do nosso cérebro

*
Curta/acompanhe o Blog também através de sua página do Facebook 

4 de nov de 2014

Espólios e escombros de uma campanha

Por: Eliana Rezende

Talvez me coloque entre a miríade de pessoas que escreveram sobre o pleito de 2014. Mas é impossível para eu que sou ma observadora contumaz da sociedade e seus espaços de usos & abusos limitar-me ao silêncio ante tantas coisas.

Em outras oportunidades expus minha indignação quer contra o que chamo de desinformação como tática midiática, quer o voto paulista (de difícil compreensão para mim, mesmo sendo uma nativa, e por isso o chamei de desagravo paulistano) ou a forma que as redes e a mídia partidarizada ofereceram espetáculos à parte, patrocinando e dando visibilidade a ondas xenofóbicas, preconceituosas, de rancor e ódio entre supostos iguais. Além é claro, de pensamentos unilaterais e monotômicos.


Mas neste momento creio que seja importante posicionar-me ante o que considero a coisa mais importante, e o bem pelo qual todos temos que zelar que é a nossa Democracia.

Não podemos nos eximir da responsabilidade ante ondas de xenofobia, preconceito, xingamentos e ódio partidário. Democracia, tolerância e respeito devem vir antes de tudo.

Para além de tudo, não me ocuparei de ficar falando do suposto vencedor do pleito. Já há muito material produzido, pró e contra. Me aterei a outros aspectos. Explico: 

Alguns diante do quadro pós-eleitoral, dizem que o país precisa é de alternância de Poder. Por minha ótica, creio que mais do que alternância de Poder temos que ter Oposição eficiente. Nossa Oposição fez-se mais débil do que o próprio Governo! Em geral, se pegam em pequenas rusgas e briguinhas a toa, de preferência advogando em causas muito próprias. E Política quando é feita de forma pequena encontra como resultado também resultados pequenos.

Para além de tudo temos que entender o que é um jogo democrático: ninguém perde uma eleição! Todos ganham! O vencedor é Situação e o vencido é Oposição. É desse jogo, que deve ser bem jogado, que a Democracia frutificará. Um partido de Situação só fica anos a fio no Poder se sua Oposição fez um péssimo trabalho!

Assim, se todos exercerem bem seus papéis todos ganham! O que não é admissível é desmerecer o voto democrático. O jogo democrático precisa ser jogado respeitando-se as regras. E perder não é vergonha! É responsabilidade! Tem-se a responsabilidade de fazer melhor que a Situação. E aí a Democracia se faz para o bem, não de indivíduos, mas de toda uma Nação. Independente de território, cor de pele, gênero, religião ou opção sexual.

O que digo é que tudo tem dois lados e que Democracia precisa e deve ser feita de Situação e Oposição. Sem isso claro tudo é apenas fumaça para turvar sentidos. O papel da Oposição é exatamente fazer com que Situação faça o que seja seu dever igualmente democrático. Eles têm o dever de vigiar e propor. Críticas sem proposições não servem a ninguém e indicam apenas o caminho mais fácil. Sem proposições há apenas esvaziamento do sentido de crítica.

Precisam entender que que não podem ficar encastelados na Câmara ou no Senado. Precisam ir à sociedade. Sem esse laço perdem lastro e comunicação e mais uma vez serão esquecidos e menosprezados pelos que são seus eleitores. É preciso se reinventar como Oposição. Terão que construir tais pontes ou perder legitimação. Se a Oposição fizer o papel de ir contra a Democracia estará indo na contramão do que seja sua função. E o que é o mais importante: Oposição não é campanha e nem palanque.

Ao cidadão comum cabe politizar-se: ler na linha e na entrelinha tudo o que ocorre a sua volta. Não servir como massa de manobra.
É só isso! Precisam ir atrás de quem depositaram seus votos, em todas as instâncias de Poder.

Acho que todos queremos uma Democracia madura. O que talvez esteja inviabilizando seja as pessoas agirem como torcidas de futebol. Não apenas agindo como falando de uma arquibancada ( o que inclui xingamentos, desrespeitos e impropérios). Proposições políticas precisam ir além de passionalidades: precisamos olhar de lado a lado. Em verdade, escolher um candidato deve ser por um Projeto. Esse candidato pode ter lá seus defeitos e é legitimo que consigamos vê-los! O outro não precisa ser um inimigo a ser "morto". Será apenas preterido em favor de outro através de nosso voto.
Isso é o que as pessoas estão esquecendo.

Ao mesmo tempo, quando um candidato for eleito, seu oponente será imediatamente eleito Oposição. Em verdade, são dois cargos em disputa. Situação e Oposição. Governos pífios apenas existem porquê tiveram uma Oposição ainda pior! Por isso minha afirmação. Se este partido (tão criticado por setores da sociedade) está há 12 anos no poder é porquê faltou à Oposição consistência, projetos, fibra, proposições, alternativas ao dado.

Um outro grande mito que vejo que está sendo construído, é de que o PSDB, como partido, saiu fortalecido desta eleição. Não creio que seja bem assim.
Explico: tiveram sim uma expressiva votação neste pleito, mas não por serem um partido coeso e em torno de um Projeto Político para o Brasil. A única bandeira empunhada e aceita por seus eleitores foi a de representar uma legenda anti-PT. Isso muda tudo de lugar, já que um percentual muito alto destes votos iriam para qualquer um que representasse oposição ao PT. Portanto, vejo que o PSDB tem um trabalho muito grande pela frente, em especial se sonha com uma disputa em 2018. Ao se analisar os que de fato são exclusivamente de Aécio veremos que os números do pleito murcharão.
Ou será que é preciso lembrar os índices obtidos por Marina Silva no primeiro turno deste pleito? Chegava a 52%. Numa demonstração clara de que o voto era anti-PT e não pró Aécio ou PSDB.

Não podemos esquecer, como nos faz lembrar Jânio de Freitas:
"(...) Os ausentes na votação foram 30,13 milhões. Os que anularam o voto, 5,21 milhões. Somados também os que deixaram o voto em branco, totalizam-se 37,27 milhões de eleitores. Ou 27,44% do eleitorado. (....)"
Não há portanto, um país dividido: há sim um pais multifacetado. E mesmo a expressiva votação de um e de outro ainda não é o BRASIL. Ambos tem muito pelo que lutar e provar a que vieram!

Ainda é bom lembrar, para efeito de representatividade democrática que Dilma não teve menos de 40% dos votos em nenhuma das 5 regiões do Brasil. É claro que o voto majoritário foi no Nordeste chegando a expressivos 72% na região contra os 41% dos votos válidos no Sul do Brasil.

Um outro equívoco recorrente: O PSDB perdeu por causa das derrotas em Minas Gerais. É verdade que foram 3 grandes derrotas: duas foram de Aécio, pois não superou a candidata Dilma e a 3ª foi por não ter conseguido eleger seu candidato a governador.

Mesmo se ganhasse em seu Estado natal, Aécio Neves (PSDB) ainda teria dificuldade em se eleger. Dilma Rousseff (PT) teve 52,4% no Estado e o adversário, 47,6%. Se o tucano tivesse invertido esse resultado e ganhado os 550.601 votos que a rival ganhou a mais em Minas, ainda faltariam 2,3 milhões de eleitores no resto do Brasil. Na votação total de Aécio, Minas representa 11%, menos que a soma de Santa Catarina e Bahia. Para mais análises e infográficos confiram o link:
 

Dos erros comuns creio que o maior deles foi tanto Dilma quanto Aécio ficarem arrastando seus cadáveres (Lula e FHC). Ambos figuraram num outro cenário político, social e econômico dentro e fora do Brasil. Perdeu-se tempo demais com o passado, sendo que é o presente e o futuro que temos que discutir e trabalhar.
Igualmente dos dois lados, precisam encontrar formas de dialogar com os setores do eleitorado. Aécio com as camadas mais populares, Dilma com os empresários e áreas financeiras.

Em verdade, o que sinto nos dias de hoje é que temos um partido consolidado que é o PT (com forte militância e ideologia) e os outros. Qualquer um que queira ser opção a esta legenda terá que buscar ser Oposição no sentido pleno e de direito. Do contrário representará ideias sectárias presentes em qualquer partido nanico sem representação.  Ou poderá fazer ainda pior: servir de guarda-chuva que aceite e abrigue qualquer um que deteste o PT, e aí teremos o mais sórdido dos movimentos de direita, conservadores e retrógrados que desde a ditadura ficaram alijados da sociedade democrática.

E mesmo seu principal postulante, o Senador Aécio Neves, terá que ter maior presença no Senado do que teve até aqui. Em 2013 e já com 4 anos de mandato ficou com o pífio 30º lugar entre os demais Senadores da casa, com nota de 3,8. O ranking dos parlamentares é feito anualmente pela revista VEJA, desde 2011, com a colaboração do Núcleo de Estudos sobre o Congresso (Necon), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). Confira ranking: 

O seu desempenho foi resumido, de acordo com matéria veiculada na Folha de São Paulo como:
“(...) Aécio apresentou 20 projetos — nenhum deles aprovado de forma definitiva — e relatou apenas 10 dos 45 projetos que foram enviados ao seu gabinete. Os demais, devolveu, não se posicionou ou foram retirados de pauta (...)
“Dos 20 projetos que apresentou, 13 ou representavam mais gastos ou menos receita para o governo federal.”
A campanha do PSDB, segundo Renato Pereira, ex-marqueteiro de Aécio cometeu o erro de "pregar para convertidos". Esqueceu-se de que tinham que olhar para os que não votariam nele e conquistar seu voto. Falharam em algo muito primário. Optar por ficar numa zona de conforto, levou-os a não dialogar com setores que não estavam alinhados ao PSDB.

Ou seja, a legitimação numérica de votos em urna precisa ser revertida para um bom desempenho como Oposição. Do contrário, poderá sofrer o mesmo que Marina Silva. Dona de um recall interessante, perdeu-se em meio à opções e divagações de posicionamentos e ideias.

Diante de tantos equívocos, feitos no passado corre-se nos dias pós pleito o perigo de cometer o "pecado da vaidade".

Nas palavras de Renato Janine Ribeiro:
"O partido não pode partir da convicção de que seus 48% estão mais garantidos do que os 51% de Dilma. A "hybris", como chamavam os gregos ao orgulho desmedido, acarreta a desgraça. O PSDB e seus eleitores cometem demais o pecado da vaidade. Eles sinceramente se creem injustiçados, quando perdem uma eleição deste porte.
Como o eleitor não viu que nós somos os melhores? perguntam-se.
Nenhum líder tucano pensa em golpe, mas quando malucos apelam às Forças Armadas ou querem o impeachment já, partem da crença de que não só há candidatos que valem mais, mas também eleitores - e votos - que valem mais. E portanto outros eleitores valem menos.
Líderes têm que saber conter seus extremistas
Soma-se outro problema: a dificuldade dos tucanos de perceberem o mundo em que hoje vivemos.
 O que é errado, pois toma um pequeno número por todos. Mas repito o que já afirmei: se Aécio tivesse condenado os que gritaram VTNC para Dilma na abertura da Copa - em vez de dizer que expressavam o repúdio da sociedade ao PT - esses grosseiros continuariam votando nele, mas ficariam calados. A voz mais frequente do PSDB seria moderada, educada, enfim, o que esse partido deveria ser. Mas os líderes parecem ter medo de fazer isso.
Parece que temem perder votos, esquecendo que a franja extremista de seus eleitores e blogueiros não teria alternativa viável ao tucanato. Não basta o partido se atualizar na questão dos costumes e entender melhor os pobres: é preciso que seus líderes efetivamente liderem no plano dos valores.".
Escrevo e até o presente momento nenhuma liderança do PSDB se posicionou em relação a tais manifestações que nada tem que ver com democracia. Liderança é também nestes momentos. Não se pode capitular!


É provável que ainda tenhamos que contabilizar ainda mais espólios e escombros deste pleito, mas sem dúvida não somos mais os mesmos e esperemos que a Democracia vá encontrando maturidade e equilíbrio. É da arte de coexistência entre diferentes que a sociedade vive e a Política sobrevive!

__________________

Posts relacionados:

Democracia de sofá e mídia partidarizada 
Desinformação como tática midiática
Desagravo paulistano

*
Curta/Acompanhe o Blog através de sua página no Facebook