31 de jul de 2014

Facebook: robotização e sedentarismo em rede

Por: Eliana Rezende

Transcorridos os anos, o Facebook começa a conhecer o imobilismo criativo.
Festejado em seus primórdios pelas possibilidades e potencialidades de conexão e compartilhamento social, usos dos mais variados, hoje sua plataforma parece ter encontrado em uma década sua senilidade e imobilismo.




E explico:
A experiência da rede tem se mostrado acomodada, acrítica, extremamente passiva e muitas vezes simplória. Seus usuários muito rapidamente acostumaram-se a fórmulas que consagram e incentivam a economia de pensamento crítico. Tudo reduz-se ao “curtir”, onde a mecanização do gesto guarda em si a ignorância. Em muitos casos, se não na maioria das vezes, o botão é acionado sem que a pessoa tome de fato conhecimento do que se trata.

A preferência imagética é quase total e a fórmula aqui é uma foto e uma frase. A simplicidade rudimentar agrada, já que exige pouco, tanto de quem comunica quanto de quem é comunicado.  

Tanto imobilismo não entreterá por muito tempo a geração Touchscreen    

Afinal, nascerá em outro tempo e como vem sendo dito por vários especialistas: o Facebook vem se transformando em uma rede que concentra a chamada terceira idade virtual.



Uma das coisas mais interessantes que temos que estar atentos é o padrão de repetição e passividade que uma plataforma, dita de interação e compartilhamento acaba oferecendo. Hoje é muito mais usual a passividade ante ao exposto, quer na forma escrita quer na forma visual, do que posicionamentos críticos e assertivos.

É estarrecedor pensar que cada vez mais as pessoas escolham apenas uma opção: "curtir" para expressar 'tudo' o que pensam sobre um tema. E o pior, mesmo que elas queiram se colocar, pouco estão interessadas em saber aprofundadamente sobre. 

A previsibilidade e constância de conteúdos e ausência de inovações são também igualmente avassaladoras. O grande meio de compartilhamento não está criando, na mesma proporção, ideias criativas e inovadoras. Os grupos e as comunidades organizam-se de forma quase provinciana, no sentido de manutenção de pequenos nichos e interesses. Restringem-se ao miúdo e cotidiano de uma comunidade restrita e local.

O que de fato temos, ao invés de um grande potencial de variáveis, é a repetição de padrões e fórmulas. Em geral as pessoas cercam-se do que lhes é familiar e conhecido. E o mesmo se estende pelas formas de externar pensamentos e atitudes.

A cópia de ideias e até de conteúdos são constantes em blogs e em outros meios. É sempre muito raro encontrarmos conteúdos inéditos e de qualidade, fruto de uma reflexão pessoal de seu postulante. Fato que nos dá uma sensação e necessidade de perguntar: para onde é que vamos? Todo excesso é prenúncio de falta?

Espero que estejam dispostos a conversar mais sobre o tema. Que tal exercitarmos isso?

De fato penso muito em relação a esse excesso de informações rasas no qual estamos vivendo e se, de outro lado, não estaríamos às vésperas de uma grande falta. Isto é cíclico e está no desenvolvimento da história. Gerações que rompem estruturas, são fruto de uma geração em que quase nada ocorreu e vice-versa. Isso vale para movimentos na arte, literatura... e até no futebol!

O tema nos faz remeter ao que significou o desenvolvimento da internet, as novas formas de comunicação e proposição de relações. Foi de fato um período de romper barreiras, estruturas e formas de estar e pensar. Hoje, vejo o atual momento como de uma saturação sem fim: as pessoas, especialmente em redes como o Facebook, possuem um comportamento passivo e consumista. 



Passivo em se contentar com simplesmente "curtir" ou "compartilhar" sem verticalizar nada. Fica-se numa superfície horizontal onde "toda" a mensagem se resume a uma foto ou uma frase (pior é quando eles vêm sem autoria correta e em muitos casos uma reprodução infinita de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu).
Consumista no sentido de seguir não sei quem e nem por que...

Espalha-se um rastro de seus gostos e desgostos a troco de ter seus dados "embalados" e oferecidos às agências de publicidade que não param de poluir sua página feita em azul para que você, de novo, curta isto ou aquilo. Preocupo-me com esta robotização de comportamentos e na incapacidade de ações críticas de acordo com seus posicionamentos frente ao dado ou estabelecido.

Se todo o potencial que a internet oferecia não for reinventado e as pessoas não voltarem a buscar formas inovadoras, teremos mais uma plataforma que cairá vítima de seu próprio veneno: o consumo pelo imediatamente novo. Não será para o melhor... simplesmente para o mais novo lançamento, sofrerá o descarte e substituição tal como um velho aparelho de TV de tubo.

Sim, o objetivo é irmos além de propriamente gostar de uma matéria interessante, mas é também verificarmos o quanto ela tem que ver com nossas opções, escolhas e repertório. Quanto de fato acrescenta àquilo que pensamos e acreditamos? 
A passividade não é desejada em espaço algum, mas em espaços ditos de compartilhamento e troca, fica ainda mais estranho.

O Facebook em verdade dita um padrão, acolhido por uma maioria que é de curtir/compartilhar, como ferramentas de facilidade. É mais fácil clicar num botão de gostei ou postar uma foto e uma frase do que de fato articular um raciocínio e falar sobre algo de forma a acrescentar ou se colocar.

A robotização aparece como um instrumento de massa para obter cifras e dados e não como forma de gerar crescimento intelectual ou de conteúdo.  



É óbvio que não estou aqui para questionar números. Contra tais não há argumentação. E talvez tenham sido alcançados exatamente por essa homogenização. Todos são tomados como meros algoritmos e que são computados a partir da robotização do “gostei”. A situação é tão interessante que em tempos passados até campanha para ter o botão não gostei, houve. Mas claro que isso confundiria o sentido de construção da base do Facebook e nunca foi adotado. E aí nos defrontamos com a situação absurda que é, por exemplo, a notícia da morte de alguém ou de uma catástrofe e que as pessoas sem pensar clicam “gostei”. Isso para mim mostra o ápice do que seja robotização sem critério ou crítica.
As pessoas simplesmente não param para pensar sobre isto.   

Buscar um olhar crítico envolve debruçar-se sobre. E em geral as pessoas julgam não ter "tempo" para isso. A cultura da imediaticidade e consumo leva as pessoas para longe de estar em contato consigo próprias. Basta andarmos pela rua e vermos cada um com seu celular, seu jogo, sua música nos ouvidos. As pessoas não buscam mais relacionar-se com outros, mas sim com seus gadgets. Já disse antes que a internet tem conseguido o paradoxo de aproximar quem está a centenas de milhas ou quilômetros e em geral separa os que dividem a mesma casa!

Esta robotização com ensimesmamento foi reforçada com as redes. E aqui há discussão para um post inteiro e que guardo para outra ocasião. 

Mas adianto que em cada período a humanidade está propensa a que determinados comportamentos se desenvolvam e se disseminem. Esta "robotização" é mundial e muito mais relacionada ao processo de midiatização e tecnologia em que estamos.

Há um narcisismo generalizado e uma busca por exposição que "leio" muito mais como uma insegurança e temor de estar consigo próprio do que a necessidade de relação com o outro.
Os silêncios da alma são fantasmas para alguns e a busca da "multidão" tem um pouco esse sentido de fuga.
A robotização combinada com a alienação parecem ser uma marca dos nossos tempos.

Para além disso tudo, acho que o padrão de repetição em formatos idênticos para todas as redes é o que mais me incomoda. De repente, Google+ e até LinkedIn repetem o mesmo padrão como forma de garantir que seus usuários continuem a usar suas respectivas plataformas.


Vejam, sou usuária e gosto muito de tecnologias, mas gosto de pessoas, silêncios e leituras, gosto da reflexão que ações e comportamentos têm, ou de uma boa ideia exposta num texto, ou até numa frase. Não precisamos nos isolar e nem viver no meio de tudo. Há o caminho do meio sempre!
Estar nele significa conseguir olhar de um lado e de outro e encontrar o caminho perfeito que há quando se tem equilíbrio e bom senso. 

O que discuto aqui é esta alienação consentida, onde o nivelamento horizontal alcança tais redes numa velocidade muito grande e onde verticalidade, profundidade e criatividade estão deixando muito a desejar.

Um dos precursores da realidade virtual e crítico da web 2.0, Jaron Lanier defende um caminho diferente para se utilizar a rede. Ele é defensor de uma internet aberta, mas não completamente gratuita. A questão levantada por Lanier é estrutural. O problema é que a rede, gradualmente, direciona e agrupa os usuários em blocos. As informações ‘sugeridas para o seu perfil’ escondem uma variedade enorme de outras possibilidades e, ao categorizar por ‘gostos’, tornam o usuário um produto bem definido para publicitários, por exemplo. Ou seja, no modelo atual, quem lucra mais são os sites de busca e as redes sociais, e quem sai perdendo são os criadores, que dependem dos direitos autorais para viver.

Segundo Lanier, a estrutura atual permite que exista uma ‘agência de espionagem privada’ que desvirtua o propósito inicial de permitir que cada usuário pudesse trocar seus bits com outros, como em um grande mercado, e tudo seria acessível a uma taxa razoável. Esse fluxo permitiria que a criação individual fosse devidamente remunerada e estimularia o trabalho intelectual. Nesse sentido, ele afirma que "precisamos de um design mais antropocêntrico ao invés de um focado em algoritmos". Jaron Lanier quer não apenas a liberdade de trocar informação mas a liberdade de pensar e de ser criativo em um modelo que, atualmente, anestesia, cada vez mais, os usuários.


Desde os seus primórdios o Facebook teve como característica coletar dados e a partir deles ter concentrada uma ampla base de dados. Longe de ter um viés que diria relacional, cultural, educacional rapidamente transformou-se num meio eficiente de fornecer dados para fins mercadológicos e de consumo. Ponto.

Sua facilidade rudimentar trazendo funções simples com botões de uma única opção deu à maioria das pessoas o que elas querem: entropia! É neste estado entrópico que as pessoas realizam ações robotizadas e em alguns casos até insensíveis (como por exemplo: filmar alguém morrendo, sendo espancado, etc...para a seguir lançar na rede em busca de reconhecimento por meio de likes).

Apesar de tudo, vejo que em verdade o Facebook acaba sendo um grande espelho de comportamento social e cultural. E eventualmente a plataforma serve apenas para refletir o que a nossa sociedade é em sua maioria: superficial, frívola, autocentrada e egocentrada.

Como historiadora, fico sempre imaginando o que pesquisadores daqui há alguns séculos dirão ou apreenderão quando olharem perfis de redes... que sociedade verão no espelho?





______________________

Posts relacionados: 

Escravos do celular?
Geração Touchscreen
Curadoria de Conteúdos: O que é? Quem faz? Como faz?
Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I
Chegamos ao fim da leitura?
Os Historiadores e suas fontes em tempos de Web 2.0
Ruídos do silêncio
Inteligência em Inteligência Artificial?
*
Curta/Acompanhe o Blog na sua página do Facebook
Visite meu Portal: ER Consultoria | Gestão de Informação e Memória Institucional
Siga-me no Twitter: @ElianaRezende10

25 de jul de 2014

Museus: faces e fases de uma metrópole

Por: Eliana Rezende

Como poderíamos, por meio de determinados ícones de arquitetura e cultura, entender uma metrópole?

Experimente fazer isso com alguns deles.
Comecemos por dois. Com acervos e localização à parte, os prédios da Pinacoteca do Estado de São Paulo e o MASP (Museu de Arte de São Paulo) podem nos trazer pistas interessantes sobre a metrópole e suas faces. Contam-nos boas histórias de um outro tempo e da criatividade e determinação de seus arquitetos e idealizadores.


Um é representante de uma arquitetura tradicional de princípios do século XX, com projeto do escritório de Ramos de Azevedo (1896-1900) e que no decurso do tempo sofreu diversas reformas e intervenções. A última delas ocorrida na década de 1990, durante a gestão de Emanoel Araújo como diretor da instituição. E de um projeto de recuperação do prédio assinado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

O outro é representante de uma arquitetura moderna.
Em 1958, a arquiteta Lina Bo Bardi projeta o edifício da avenida Paulista, atual sede do museu. Foi inaugurado em 1968 com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra, logo após a morte de seu fundador, Assis Chateaubriand (1892-1968).

Pensar estes dois prédios é de fato pensar de que forma o cosmopolitismo de São Paulo perpassa bairros, épocas e composições. Olhar o vão livre do MASP é espreitar sob um janela de 74 metros estendida sobre o asfalto e de alguma maneira tomada pelos paulistanos e por suas construções em concreto à sua volta. Tem uma linguagem que, para mim que sou leiga, é limpa, linear, moderna, sem excessos ou rebuscados.

A Pinacoteca é fruto de um prédio que pareceu, no decurso do tempo, ser fruto de uma constante reforma, e que por empenho de muitos, com um acervo impecável e uma programação irrepreensível, tornou-se uma referência do coração da cidade. Plantada numa área histórica, se impõe como um edifício que salta aos olhos e que para nós paulistanos, dá uma sensação de nos sentir em casa. Carrega em si todas as nossas contradições urbanóides. A sensação de luminosidade e espaço em seu interior contrastam com uma cidade sufocada por trânsito, congestionamentos de carros e de almas que tem em suas bordas toda a marginalidade e decadência do craque, da prostituição.

De fato, duas pauliceias: prazer estético e contradições para todos os que por elas passam.


O vão livre do MASP a cada dia parece menor em vão e mais ocupado em gentes. Espaço de constantes manifestações e ocupações, é palco de vida pulsante.

Para além disto, o MASP parece ser o signo de toda a nossa contradição: um esforço de ser moderno, viver com suas dificuldades, usos e abusos heterogêneos de espaços, riqueza cultural e patrimonial, em meio a um poder público omisso e ausente. Sua riqueza de acervo contrasta com problemas estruturais de múltiplas gestões e muitas ausências de políticas culturais e financeiras. De fato, temos no MASP a expressão de tudo junto: essa Pauliceia sôfrega por tantos problemas, ritmos e possibilidades.

A Pinacoteca e todo seu conjunto arquitetônico, em torno da Luz, tem uma vitalidade histórica contrastante com tantos problemas sociais e de ocupação à sua volta. Mas é uma ilha de prazer estético e entrar dentro dela parece nos levar para outro tempo... outra sensação. É um ponto de oxigenação para mentes e meio de encontrar diálogos para formas e estéticas.

Icônicos em composição, ocupação, funções e atribuições revelam as muitas contradições que só uma megalópole como São Paulo tem.

Mas as faces e as fases de Sampa não são apenas estas.
Podem estar no caleidoscópio de outros ícones que se espalham pela cidade e que dão conta de outros trechos de longas histórias.

Um terceiro exemplo é o Museu Paulista, mais conhecido como o Museu do Ipiranga.
O arquiteto e engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi foi contratado em 1884 para realizar o projeto de um monumento-edifício. O estilo arquitetônico, eclético, foi baseado no de um palácio renascentista, muito rico em ornamentos e decorações.


Seu acervo riquíssimo dá ao seu conjunto arquitetônico ainda mais interessência e prazer estético. Escadarias internas e externas, colunas e tetos adornados, ladeado por belos jardins planejados e inspiradores. O primeiro projeto paisagístico, por exemplo, é de 1909 do belga Arsênio Puttemans. Nos anos 1920 o jardim foi remodelado, desta vez pelo alemão Reinaldo Dierberger. Leia mais aqui, sobre a importância de tais projetos paisagísticos na construção da identidade nacional e suas relações com os espaços urbanos.

É de fato um museu que se derrama por seu entorno e que acolhe todos os que fazem de seus jardins uma extensão de suas próprias casas. Permite por meio de suas calçadas e jardins uma comunicação interessante entre os espaços de dentro e de fora. Democrático nos seus sentidos de uso, via a diversidade de utilizadores encontrar-se todos os dias com pesquisadores em busca de seu acervo documental e rica biblioteca.

Sem dúvida, está entre o mais querido e lembrado por todos os que visitam ou moram na cidade.
Mas também é outro museu que vive de contradições tal como os citados acima. Infelizmente para todos nós, foi o que teve o mais trágico destino dos últimos tempos.
Teve suas portas fechadas às pressas e só tem previsão de reabertura em 2022, para salvaguardar conjunto arquitetônico, bem como suas obras e acervo.

Mas, e quando a arte deixa as edificações e as paredes que as circunscrevem e toma a rua num nítido transbordamento de muros?


São Paulo também conhece muito bem esse fenômeno. A Vila Madalena corporifica esse transbordamento por becos e ruelas. O grafitti ganha os muros e revela um museu a céu aberto. As fronteiras tão marcadas por projetos desenhados, que guardam obras e expressões artísticas intramuros se dissipa: o muro e a rua passam a ser molduras para seus artistas e sua comunicação com e pela cidade.

A cultura neste sentido, deixa suas marcas na malha urbana e dialoga com os espaços desta. O grafitti se espalha pelos muros do bairro usando a cidade como seu suporte principal. Técnicas, temas e artistas se revezam nos olhares de transeuntes-consumidores. Uma via de comunicação entre os que vão e os que vêm.

No bairro, uma viela se tornou um ponto turístico na região, é a rua Gonçalo Afonso, chamada de Beco do Batman que é totalmente grafitada, onde não se encontra praticamente um espaço para mais desenhos, por isso, periodicamente os trabalhos são substituídos.

Conheça um pouco mais do Beco do Batman na Vila Madalena, através da reportagem "Outras Coisas", Do programa da TV Uniesp sobre o roteiro cultural do bairro:


De tudo o que vimos tem-se que a cidade e seus museus são espaços de apropriação multicultural. Por meio destas apropriações, tais sujeitos fornecem uma nova cartografia que se impõe aos diferentes espaços aqui analisados. Representam também formas que se alteram pelo tempo e espaço, não apenas edificado, mas social e cultural.

É só prestarmos atenção como a arquitetura eclética e de paisagismo construído com vistas à criação de uma identidade nacional presente no edifício do Museu Paulista, ganha um novo contorno na proposta do prédio da Pinacoteca do Estado, que é tradicional, como o são toda a concepção de cidade que cresce ao seu entorno. Uma cidade que ainda busca em matrizes europeias, formas, gostos e ornatos.

Num nítido processo de busca de despojar-se de todo esse passado, o projeto arquitetônico do MASP traz uma nova dimensão de linhas e traços. Abandona os rebuscados. Busca nas linhas retas e de material moderno sua edificação. Plantado em meio a casarões de barões de café, para começar a comunicar-se com seu entorno: acolhe e é acolhido por outros elementos de construção à sua volta.  Ergue-se e constitui-se um marco de uma metrópole contemporânea, assumindo formas que dão-lhe mais usos e funções.
É concreto e cor sobre asfalto e gentes.


E só a partir daí que a maturidade urbana permite o encontro da arte com os muros de ruas, becos, ruelas. A Pauliceia encontra formas de expressão não apenas circunscrita por paredes e projetos, mas pelas ruas desenhadas por habitantes e ocupações: sem projetos ou linhas. A arte libertou-se de todas as amarras e encontra expressão por tintas, pinceis e spray, molduradas por blocos simples de cerâmica ou concreto.
A Vila Madalena materializa esse escape cultural.

18 de jul de 2014

A dança como metáfora corporativa

Por: Eliana Rezende

É a primeira impressão a que fica?

Quantos de nós somos capazes de admitir a quantidade de pré-conceitos que carregamos quando confrontados com um primeiro olhar?
O exercício aqui será simples. A dança será apenas uma "licença" para abordar temas que tem que ver com o nosso autoconhecimento e postura profissional. Uma forma divertida e inusitada de falar de preconceitos, improviso e flexibilidade nas relações.


Você escolhe o ritmo e assiste a apresentação de um rock ou um tango. E, se simplesmente não resistir assista aos dois!
Rock?! Tango?!
Mas o que isso poderia ajudar a pensar sobre idéias preconcebidas?
Acompanhe-me.
Ah! E se ao final não resistir, aplauda! Todos fazem isso!


Vamos ao Tango? 


Agora explico o porque da proposição de pensarmos a dança como uma metáfora para o universo corporativo. 
Devo dizer que transpor o que vimos, nos dois casos, tanto para nossa vida pessoal, profissional e intelectual é um exercício muito interessante.
Afinal, surpreende o expectador, pelo que já possui de pré-concebido num tango, ou mesmo em um rock dos anos 50: a mulher é sempre a grande estrela e o foco principal. 
Em geral, é nela que todos os olhos se prendem e concentram.
No entanto, aqui um elemento de surpresa é acrescentado de cara quando biotipo e gênero não são o que se espera.

A seguir, e não menos surpreendente, está o que para mim seja a forma como lidamos com o inesperado, com os limites que, muitas vezes, nos impomos. Ora, tais limites podem ser intrínsecos ou extrínsecos a nós. A medida que permitimos que nossa flexibilidade, adaptabilidade e criatividade os vença, podemos simplesmente ter a grata satisfação de contentamento. O citado gênero e biotipo na dança não correspondem às nossas ideias preconcebidas.

Mas que satisfação ver o resultado da dança que assistimos, não é mesmo?

Eventualmente, e em situações semelhantes metaforicamente, conseguimos perceber como se abrem em leque nossa capacidade de aceitar como válidas novas opções. A flexibilidade, adaptabilidade e criatividade, cada vez que são usadas passam a fazer parte de nosso repertório empregado para desenvolver soluções. O primeiro passo é estar pronto e aberto à surpresas! Descubra que ao lançar-se aos desafios poderá se surpreender com soluções que poderão até ser simples, como alguns passos de dança.

O que é preciso é se lançar!

Como na dança, o primeiro passo pode parecer muito difícil. Um fiasco pode apresentar-se quase como uma sentença. Mas sem permitir que o primeiro passo seja dado nada acontecerá nem para o bem nem para o mal. 

"Estar pronto e aberto para surpresas" nem sempre é o comum e em muitos casos é um gerador de ansiedades, dependendo do perfil de cada um. Afinal, surpresas são surpresas exatamente por serem o que são, inesperadas!
Algumas boas, outras nem sequer pensamos que fossem possíveis. Às vezes, as deixamos passar desapercebidas, para num susto posterior se perguntar: "como foi que não enxerguei isto?!"    

Alguns chamam tudo isto de Serendipity. 

Nunca ouviu falar? Então descubra um pouco mais sobre o que é e quais algumas de suas características:





Afinal, na vida tanto quanto na dança, os encontros podem ser surpreendentes, inesperados e trazer um dado inusitado que acrescentará perspectivas e possibilidades. 
Porque não falar sobre a importância das parecerias e de compor com elas formas criativas de solucionar problemas?

Diante do novo e inusitado a capacidade flexível de adequação, com soluções muitas vezes inéditas, e portanto, inovadoras para antigos problemas corporativos pode ser exercitada, e até com muito bons resultados.

Enfim, ficar confortavelmente instalado ao dado linearmente e colocado como rotina é o caminho mais curto para acomodação e enrijecimento de ideias e posturas. Ao abrir-se ao novo e inusitado tomando aparente limitações como vantagens você descobre que não apenas está em você a possibilidade e capacidade de superação, mas que provavelmente contagiará todos à sua volta. 


Então, porque simplesmente não tentar?
Deixe os medos de lado e lance-se! De repente até vai se divertir...

__________________

Posts relacionados:

E se...
Afinal, quem você pensa que é?
Ruídos do silêncio


12 de jul de 2014

Letra cursiva: a caminho da extinção?

Por: Eliana Rezende

Recentemente lia sobre a decisão, e que em alguns países está se tornando lei, que é a não ensinar mais a letra cursiva nas escolas para estudantes que estão sendo alfabetizados.

Ao que parece tal decisão pauta-se mais pelos que consideram que a escrita digital está substituindo a escrita cursiva, e que esta última não possui sentido em um mundo feito de gadgets e outras formas de composição do escrito.
Não sei se esta radicalização é correta neste momento ou se basta deixar os anos correrem para ver se a escrita cursiva de fato cairá na obsolescência e consequente esquecimento, tal como o dizem seus profetas apocalípticos. Tudo acaba sendo especulativo. Mas de fato, creio que essa opção de extirpar a escrita cursiva, ainda na alfabetização, será alvo de acaloradas e intensas discussões.

Um artigo interessante do The New York Times trata desta questão do ponto de vista do que se tem com a escrita de próprio punho. Veja aqui

No lado oposto estão os que defendem que a escrita de próprio punho é, não apenas salutar, como ajuda a desenvolver aspectos neurológicos, de memória e retenção que nos meios digitais não seriam possível.

Em relação a isto, e até mesmo no Brasil muitos conteúdos têm sido revistos quanto à sua importância no currículo, e a letra cursiva é mais uma destas reflexões.

O que precisa ser levado em conta é que a transmissão da ideia de um texto escrito necessita ser inteligível a qualquer um, em dois aspectos: coesão e letra. Pois a ideia pode ser ótima, mas se perde quando a letra não possibilitar sua leitura e compreensão. Penso que a letra (qualquer uma delas) é um recurso intermediário e nunca o objetivo final.
De que vale uma letra maravilhosa com pobreza de ideias, sem clareza de raciocínio?

Para nós, que temos o domínio de todas as formas e formatos que a escrita pode ter, é apenas uma questão de escolha por um ou outro meio. Agora, optar pelo não ensino é uma discussão que vai muito além.

O maior problema que temos assistido é que da mesma forma que os suportes tem feito a cisão entre conteúdo e forma, o mesmo vem ocorrendo, ainda que de forma sutil entre escrita digital e cursiva.

Para, além disso, a escrita vem tornando-se fonética e encontra públicos usuários de todas as idades. Tenho para mim que seria um dos motivos de estarmos assistindo uma inviabilização da escrita cursiva com alguma fluência. Os alunos quase que junto com a alfabetização começam a se comunicar utilizando essa forma de linguagem.
Tão logo aprendem as primeiras letras incorporam os vícios da linguagem fonética.

Em outros tempos éramos alfabetizados e utilizávamos o encurtamento de caracteres para simplificar a escrita ágil, em geral para anotações de aula. Obedecíamos as regras e a forma taquigráfica tinha como base uma boa redação. Hoje o que temos são alunos que não aprenderam a ler, a se expressar e transformam essa expressão em código escrito que tenha inteligibilidade e correção.

Nossa sociedade, em especial as digitais, está se habituando cada vez mais com a pirotecnia e a cisão entre forma e conteúdo. 
Em tempos analógicos seria impensável separar conteúdo de suporte.
Daí que a escrita de próprio punho cunhava sobre o papel modos de ser e expressar... a grafologia fornecia uma possibilidade concreta de análise do individuo a partir de seus dados.

Com os processos digitais, conteúdo e forma se cindiram e hoje esta cisão acaba sendo "natural", até para propiciar links e hiperlinks que saem de um lugar e vão ao outro em ritmo de sons, imagens, textos e cores e que muito pouco possuem do traço do individuo.

De um lado, pode-se ter acréscimos se pensarmos em compartilhamentos de qualidades e que amarrem de fato ideias. Mas sabemos o quanto isso tem se distanciado do ideal.

Aqui temos outra dimensão do tripé: leitura, escrita e comunicação.
Enquanto a escrita de próprio punho possa sofrer alterações de ritmo e velocidade em função das tecnologias utilizadas, a leitura e a comunicação de ideias não possuem as mesmas características.

Apesar de programas facilitarem correções ortográficas e erros mais óbvios, eles não conseguirão extirpar problemas que tenham que ver com clareza e objetividade de ideias. Neste sentido a escrita tem um componente mais "braçal" no sentido de exigir da parte de quem escreve, esmerilhar as palavras e encontrar as que comuniquem com maior clareza suas ideias.

Em tempos de imediaticidade, contenção e superficialidade os textos, ainda que curtos, perdem muito da fluidez da boa escrita, pautada em boas leituras e concatenadas com raciocínio articulado. Essa "terceirização" que muitos estão fornecendo a corretores ortográficos e similares mutila e deforma conteúdos, mesmo os ditos profissionais.... infelizmente.

Com o tema encontramos a bifurcação entre a expressão comunicacional e seus suportes. Como um dado de suporte os meios que temos hoje chegam a agilizar pensamentos e formatar ideias. Mas é apenas, e tão somente, um meio. Se o que antecede a tudo que é formatação mental de uma ideia, um conceito que, ou o que quer que seja, não tenha um embasamento sustentável não haverá tecnologia que "concerte" isso.

Engraçado pensarmos como foi difícil todo esse processo. Lembro que no início escrevia tudo à mão para depois digitar com medo que tudo se perdesse.
Hoje em dia, tenho que confessar minha escrita manual está cada vez mais lenta.

Mas gosto de pensar que tudo é uma questão de escolha. Não creio em radicalismos, em especial o de simplesmente um decreto pondo o fim ao ensino da letra cursiva na alfabetização básica. Acho que as pessoas tem que ter a escolha... sem aprender fica um pouco difícil.

Essa facilidade que nós, da versão analógica sentimos, talvez não seja a mesma que as crianças sintam. Basta ver o fascínio que as telas sensíveis ao toque exercem até em bebês!

Notamos uma busca de ergonomia dos gadgets para que se assemelhem a modos que estávamos habituados a nos expressar, sendo a escrita cursiva uma delas, alguns inclusive incluem canetas e estilos em seus acessórios.

Estamos de novo com sinais de novos tempos e apropriações culturais de códigos e postura no ler e escrever. 
As sociedades nem sempre mantiveram os mesmos padrões para a leitura e muito menos para a produção do escrito. Essa relação foi desde o sagrado (já que dominar a arte da escrita aproximava o homem de sua divindade) à estruturas que colocavam o escriba como um alto funcionário do governo.
Era uma escrita técnica e absolutamente dominada por bem poucos.

A passagem para pergaminhos e tintas também não foi sem certa dose de elitismo já que era apenas nos mosteiros que elas eram realizadas e possuíam ainda essa característica de um poder concedido a poucos.

A imprensa e com elas os meios de disseminação da leitura, popularizaram posteriormente também a escrita. Foi a partir daí que as tintas ganhavam o papel e o imaginário das pessoas como forma de externar sentimentos e os séculos mais recentes, em especial o XVIII e XIX, conheceram a escrita romântica e o desenvolvimento das chamadas escritas ordinárias. Foi o época dos diários e da relação com a escrita como uma catarse. O século XX manteve boa parte disso e até mesmo técnicas de grafologia foram desenvolvidas exatamente para relacionar aspectos de personalidade com a escrita de próprio punho.

Hoje assistimos mais uma transformação. De novo com muitos questionamentos. É difícil estar em meio a toda essa transformação e entender para onde vamos. Só historiadores e outros pesquisadores de transformações sociais do futuro serão capazes de entender o que de fato se passou.

Talvez eu ainda seja romântica no sentido crer que a expressão pelas palavras deve vir em todas as formas e me encantam mais as palavras que seus suportes..

Talvez esse saudosismo que deixo transparecer pela escrita de próprio punho tenha que ver com uma pratica profissional e com uma experiência de vida.
O tema da escrita e seus suportes são, para mim, forte questão até por que transcende meu gosto pessoal e perpassa meu ofício: sou historiadora e a lida com suportes de outro tempo quase sempre uma constante. Dado que aí é impossível  não fazer as comparações. Ainda tenho muito vincado em mim a experiência da escrita de próprio punho.
Hoje em dia, as palavras deixam de ser pensadas e as correspondências giram em torno do imediato. Roubou-se a aura da palavra cunhada e da magia que seus complementos tinham (os selos, os papéis, os timbres, as tintas, o rebuscado de letras e formas, sua sinuosidade e curvas).

Apesar do ar saudosista tenho claro que as alterações no mundo em que vivemos são parte de um processo e que como tal não deve ser desprezado ou ignorado. Não vejo como um problema essa alteração que nossos tempos e tecnologias vêm imprimindo à escrita.
O desafio é grande por que não vem só com a escrita fonética é todo um conjunto, e o que é pior: avassala toda uma geração cultural.

Há ainda a questão do raciocínio lógico e o uso de operações consideradas básicas. Os alunos em geral têm passado longe dessa capacidade e o que vemos cada vez mais é um analfabetismo funcional que alcança os níveis de graduação.

Não culpo apenas o sistema de ensino. Volto a dizer que sou fruto dele e nunca estive em uma escola particular. Foi necessária muita determinação e empenho. Algo que parece meio em desuso pela maioria dos discentes. Muitos optam pela lei do menor esforço e em geral até a escolha de uma faculdade passa por aquela que não tem processos rigorosos de ingresso nem de permanência.

Mas isso é assunto para outro post...
______________________
Posts relacionados:
Criatividade e escola: caminhos incompatíveis?! 
O papel e a tinta por Da Vinci 
Palavras vincadas 
Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I

5 de jul de 2014

De metáforas e escrita...

Por: Eliana Rezende

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” 
(Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948)
Sim, a palavra, tal como a roupa da lavadeira precisa ser trabalhada e limpa antes de ser exposta.
É trabalho duro, de ir e vir, encontrar sua sonoridade e ritmo tal como o tecido, que ao bater contra pedras vai deixando as nódoas e sujidades que carrega.
Só aí será exposta aos olhos de todos, tal como as roupas são quaradas e alvejadas para depois serem penduradas ao tempo, recebendo a luz do sol e a brisa do vento.


Escrever é oficio, e muitas vezes representa trabalho duro de ir e vir, de repetição de tarefas, de espera. Até que fique de fato pronto para "dizer" e não apenas reluzir. Como um ourives, manipula as palavras como quem trabalha com metais e pedras preciosas. As procura, lapida e finalmente as coloca meticulosamente uma a uma como adorno ao escrito.

As palavras para mim são poderosos instrumentos e merecem ser postas e dispostas com respeito àquele que oferece parte do seu tempo para as tomar e ler.

Da minha vida errante e oscilante distribuo ideias por meio de palavras no transcurso de deslocamentos. Vida cindida entre várias cidades, gentes, modos de ser, de estar... vidas múltiplas percepções errantes. De punho, ou em um jato de tinta, contam ânimos e prismas de minhas visões de mundo. São retalhos caleidoscópicos de tantas vidas que vivi, de ideias consumidas, partilhadas e compartilhadas.

Nas palavras encontramos as metáforas que ajudam a explicar o mundo ao qual pertencemos.
Nominar é, em última instância; “trazer à existência”. São com elas que expressamos ideias, sentimentos, projetos, sonhos, expectativas, reflexões, tecemos críticas e construímos pontes entre o sensível e o visível. Com elas construímos e partilhamos o saber e o conhecimento.
Construímos mundos.

Vejo o mundo nominado pelas palavras constituído a partir de tramas que se cruzam e entrecruzam por meio de relações. Relações que são antes de tudo, troca. Troca de experiências, de sentimentos, de vida! São as relações, em toda a sua complexidade, que oferecem as tensões, os conflitos, mas também as descobertas, as quebras de paradigmas e de preconceitos. Oferecem a resistência, mas também a superação. Oferecem o desafio dos limites e a alegria da transcendência.
Proporcionam a infinita possibilidade de expansão e alargamento do ser, em sua mais pura acepção.

A escrita desta forma, vem como a sinuosidade de um rio, saber entender esse fluxo e se movimentar entre elas, dá contornos às nossas emoções e a forma como olhamos e interpretamos o mundo. É neste sentido que se transforma em comunicação.