28 de jun de 2014

A arquitetura do medo e a vigilância consentida

Por: Eliana Rezende

As cidades são o seu entorno e, se arriscarmos uma arqueologia do lugar, veremos de forma muito acentuada exclusão e sua rede de excluídos.
Os espaços antes construídos para o convívio social como as praças e mesmo as ruas hoje são, em especial nas grandes metrópoles e megalópoles, onde o medo transita e a barbárie se instala.

Para alem disso, as constantes demolições, construções e reconstruções mostram uma cidade autofágica, que perde sua identidade cada vez que um novo edifício surge encima dos entulhos. Camadas e camadas de viveres e fazeres são abandonados e simplesmente substituídos, tal qual nas construções aztecas. 
Em alguns casos, tais sobreposições representam o domínio de uma forma ou modus vivendi substituir, suprimir ou subjugar outra. Novas apropriações e reconfigurações marcam um novo tempo ou função. Implosões, demolições, ocupações, dão nova configuração a antigas formas de ocupação espacial.  



A sociedade atual tem um foco voltado no eu, no indivíduo contrapondo-se ao sentido de coletivo das antigas aglomerações citadinas. As relações estão sempre ao longe e habitam um locus virtual. Acessamos pessoas que estão a milhares de milhas e há distâncias abissais entre pessoas que partilham uma mesma sala!

É interessante que recentemente incorporou-se um sentido na arquitetura que é o de integração de ambientes internos. Um exemplo são cozinhas integradas com salas de jantar, e até dormitórios. Em projetos ainda mais arrojados abandonam-se as paredes e apenas móveis são utilizados como delimitadores de ambientes. Só que esses espaços estão recolhidos sob muros que isolam e tentam "proteger". São ilhas de fantasia plantadas em condomínios e em alguns pequenos redutos. Fisicamente tais condomínios plantam-se em um locus chamado cidade, mas socialmente está fora. Uma inclusão feita pela exclusão.
Paradoxal, não?

Temos de forma ainda mais pontual e localizada o desenvolvimento do que vem sendo chamado de arquitetura do medo. Nela imperam cercas eletrificadas, muros, fossos, grades de proteção, espelhos, câmaras de vigilância. Todo um arsenal de meios que excluem pela inclusão. Justificam-se pelo desejo de segurança partilhada com pretenso pares ou iguais. Estar dentro significa ser um igual, co-partícipe do medo e da insegurança generalizada, fabricada e presumida.

A necessidade de visibilidade com ocultação insere em nossa cultura vidros, vidraças, baias de trabalho, câmaras de vigilância, etc...são formas explícitas de "policiamento" e vigilância justificadas amplamente pela insegurança real ou fabricada. Colocam-se como aparentes escudos protetores contra a ameça invisível, ou visível do "outro", do desconhecido.



Mas toda essa visibilidade passa longe do que seja sociabilidade, vivência.
As pessoas muitas vezes querem ver e ser vistas, mas se relacionar parece não ser o objetivo.
As cidades no decurso da história sempre tiveram um sentido de exercício de cidadania e em muitas o meio de viver e trocar socialmente. Espetáculos de vida e de morte aconteciam em praça pública.
Hoje temos passantes... transeuntes...

Isto para não falar do quanto a cultura do automóvel destitui de todos a mobilidade, gerando um grande paradoxo. Encapsulados, muitas vezes blindados e envidraçados fazem da rua um percurso e não um espaço de (con)vivência. A rua passa a ser apenas um espaço de ligação entre um ponto e outro. Ponto este que, em geral, é de um local fechado e guardado para outro com características semelhantes. 

As construções repetem as formas prisionais e em muitos casos fica dificil determinar se ela é um presidio, uma escola, um hospital, um templo ou um shopping. Tamanha a semelhança entre as edificações.

Reclusos em todas elas, as pessoas simplesmente se entreolham. Partilham a artificialidade de um ambiente com temperatura e luz controladas, os sons igualmente reproduzem uma escolha de terceiros com objetivos os mais variados. Escadas rolantes marcam itinerários que tornam obrigatório determinadas rotas e destinos.


Os espaços portanto são demarcados dentro de universos circunscritos e domésticos (conhecidos). O desconhecido ganha vultos de perigo e cada vez mais gera estranhamentos, distancias e isolamentos. Sem este tipo de vivência com o diferente, cada vez mais as pessoas criam suas ilhas de isolamento social e o medo acaba imperando e justificando cada uma das ações aplicadas às vivências ditas urbanas ou públicas. 
A (con)vivência entre diferentes, estanca-se e se atrofia. O circulo vicioso está feito. 
Fica então perdido o sentido de cidadania, de vivência e sociabilidades urbanas.
O que sobra de tudo é uma arquitetura de medo e individuação.   
Qual será o destino para as nossas cidades?



Os espaços cada vez mais segmentam, interceptam, selecionam e filtram os que podem por eles circular. Trazem em suas formas a exclusão, a divisão e a segregação como norma. Resultados óbvios, são ilhas de similaridades e mesmices. Mixofobia, para usar uma única palavra.
Com que resultados?

Quanto mais hegemônica e similar uma sociedade for, menor será sua capacidade de negociação, de acolhimento e de tolerância. Negociações mínimas começam a ser cada vez mais difíceis e a segregação pelo diferente uma constância. 
Cada vez mais o desconhecido assumirá ares assustadores e que, como tal, deverá ser mandado cada vez  mais para a periferia do que pode ser considerado seguro.


Referência:
BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

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24 de jun de 2014

História Oral: o que é? para que serve? como se faz?

Por: Eliana Rezende

A questão sobre o que vem a ser História Oral, como pode ser utilizada pelas instituições e de que forma deve ser realizada é um tema que interessa a diferentes áreas.

Neste artigo, procurarei tecer considerações acerca de sua utilização, metodologias, aproximações e diferenças entre as áreas.

A História Oral é amplamente utilizada pelas Ciências Humanas, e é caracterizada pela coleta de depoimentos com pessoas que testemunharam conjunturas, processos, acontecimentos, modos de ser e de estar dentro de uma sociedade ou instituição. Ela pode estar dividida em três gêneros distintos: a tradição oral, a história de vida e a história temática.


Explicando cada uma delas:

A Tradição Oral caracteriza-se pelo testemunho transmitido oralmente de uma geração para outra.
Por meio da História Oral e suas metodologias pode-se resgatar tradições rurais e urbanas como cantigas de roda, brincadeiras e histórias infantis.
A História Oral não pode ser confundida com História de Vida. Esta última é um relato autobiográfico onde a escrita está ausente, e portanto não pode ser chamada de autobiografia. A História de Vida concentra-se na história pessoal de um individuo contada por ele próprio. É, portanto, um relato pessoal.
Já a História Oral Temática, em geral, é feita com um grupo de indivíduos sobre um determinado evento ou movimento vivido por todos. São perspectivas individuais de sujeitos inseridos em um mesmo contexto.

Você poderá estar se perguntando:

Mas afinal, é uma metodologia de trabalho?

Bem, ela poderá ser considerada um método de investigação, fonte de pesquisa ou técnica para produção e tratamento de depoimento, entretanto, sua classificação dependerá da orientação dada ao trabalho. 

Vejamos um exemplo:
Quando a história oral é utilizada como forma de conhecer um período, conjuntura ou instituição, ela será entendida como uma metodologia de trabalho mas, a partir do momento que essas informações sejam utilizadas, tais relatos constituirão a bibliografia de uma pesquisa posterior.

A produção de um depoimento é um trabalho conjunto entre depoente e entrevistador  onde juntos produzem um documento. Após a geração deste documento, que deve obedecer a um método e sequência de trabalho próprio da história oral, é necessário estabelecer critérios técnicos para a sua guarda, sigilo e acesso.

Lembrando que a definição que adoto para documento é a seguinte:


Há diferença entre um depoimento e uma entrevista?

Em linhas bem genéricas podemos afirmar que sim!
Em geral a entrevista é utilizada pelas áreas de comunicação e obedece a  uma pauta previamente estabelecida, com objetivos claros e definidos a priori.

Numa entrevista nunca se busca ir muito além da pauta, especialmente, por questões de tempo e disponibilização aos meios de comunicação que a produziram e, normalmente, atendem sempre a urgência de um fato.

Com o depoimento precisa e deve ser diferente. Em geral, faz-se um roteiro inicial para entrevista, mas este pode ser alterado de acordo com a interação entre depoente e entrevistador. O depoimento respeita a sequência memorialística do depoente, valorizando seus silêncios e não ditos.  Nesse tipo de depoimento, o depoente nunca deve ser interrompido. O entrevistador é antes de tudo um ouvinte!
Daí que aquele que colhe o depoimento não é um entrevistador, é um ouvinte!

Seguindo sobre a história oral seria importante você saber que:

Sua introdução no Brasil deu-se a partir dos anos 1970 e encontrou força nos anos 1990. Deste crescimento surgiu a criação em 1994 da Associação Brasileira de História Oral, e em 1996 foi criada a Associação Internacional de História Oral. 

Desde os seus primórdios a história oral firmou-se como um instrumento de construção da identidade de grupos em processo de transformação social.  

A história oral é caracterizada por uma série de procedimentos no pré-, no curso e pós- depoimento. Isso porque a definição de quem,  porquê e como deve obedecer a critérios pré-estabelecidos de relevância e sentido ao que se quer pesquisar ou preservar.

Em geral, a opção pela história oral dentro de uma instituição ocorre com alguns objetivos pré-definidos. Dentre os quais citamos:

  1. Registrar os relatos das personalidades que, direta ou indiretamente, partilharam determinado período, tema, ou instituição;
  2. Recuperar dados e informações sobre fatos e episódios importantes para a história institucional; 
  3. Constituir um acervo que sirva às consultas, para posterior pesquisa e produção de conhecimento.
  4. É preciso que se tenha em mente que o equacionamento entre história x memória nestes casos, resulta em uma nova “construção do passado, mas pautada em emoções e vivências”, já que os eventos da memória são retomados a partir de experiências passadas com o filtro da atualidade. 


Sugiro que aprofunde seus conhecimentos sobre o tema. Você pode obter informações sobre todos os passos necessários à coleta do depoimento, suas diferenças e procedimentos, consultando o Manual do CPDOC no link abaixo, tal leitura será útil para a nossa Unidade que trata sobre metodologias adequadas:

Abra-o e leia-o na íntegra aqui:
Na sua leitura tenha atenção sobre os aspectos relacionados à metodologia de produção do depoimento e de que forma esta se adequaria às realidades de sua instituição ou às suas concepções de projeto. Fazendo desta forma, sua leitura passa a ter uma direção metodológica e não apenas informativa.
As experiências do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil - CPDOC / FGV  continuam a fornecer importantes relatos sobre a experiência de colher e tratar depoimentos. Por isso, sugiro que leia o artigo "Tratamento das entrevistas de história oral no CPDOC", de Alberti (2005), disponível aqui:

No caso dessas leituras, é importante ressaltar que para além das discussões entre História, Memória e Psicologia, todo um universo que considera os aspectos técnicos e tecnológicos deve ser tomado em conta. Muitas vezes o fascínio pela possibilidade de colher depoimentos tira a nitidez do que todo o processo significa.

As tecnologias hoje disponíveis facilitam em muito a coleta de depoimentos, por outro lado colocam inúmeros desafios em relação à sua perenidade que o artigo trata de forma meticulosa e acertada. Considere tais aspectos ao pensar sobre a elaboração de um Projeto de Memória Institucional quando for o caso.
Sugiro atenção em relação aos campos definidos para compôr a identificação do depoimento. Defina com antecedência quais serão estes campos, como deverão ser preenchidos e de que forma sua acessibilidade estará garantida em especial considerando aspectos relacionados à obsolescência tecnológica. A leitura atenta do artigo de Alberti auxiliará na estruturação destas necessidades.
Não há uma única forma de estruturar depoimentos de história oral. Mas alguns cuidados podem e devem ser tomados na fase de elaboração e execução do projeto. Transcrevo alguns destes cuidados, apresentados no artigo "História Oral e Memória: a construção de um perfil de Historiador-Etnográfico", de Éder Silveira e que você, se desejar, pode ler na íntegra aqui:

(...) A entrevista se configura como principal instrumento (ou técnica) do método de História Oral. Para realizá-la, não há uma única receita ou diretriz. Contudo, cita-se algumas observações convergentes nas obras de THOMPSON (2002), ALBERTI (2004; 2005) e ZAGO (2003) que orientam o pesquisador na produção de entrevistas no método da História Oral:
1. Ter consciência de que não existe neutralidade do pesquisador desde a escolha pelo tipo de entrevista a qualquer outro instrumento de coleta de dados ou fontes.
2. Respeitar os princípios éticos e de objetividade na pesquisa, lembrando que nenhum método dá conta de captar o problema em todas as suas dimensões. Todas as conclusões são provisórias, pois podem ser aprofundadas e revistas por pesquisas posteriores.
3. O pesquisador não deve se apropriar da entrevista somente como uma técnica de coleta de dados, mas como parte integrante da construção do objeto de estudo.
4. A entrevista compreensiva não tem uma estrutura rígida, isto é, as questões previamente definidas podem sofrer alterações conforme o direcionamento que se quer dar à investigação. Dar preferência a perguntas mais abertas e um roteiro flexível.
5. Reservar um tempo relativamente longo para a realização da entrevista.
6. Durante a entrevista é válido ter um diário de campo onde se possa fazer anotações das reações, posturas e impressões do entrevistado, dificuldades nas informações obtidas, o que provocaram suas lembranças, novidades nas informações ou conteúdo, informações obtidas em off, etc.
7. Uso de elementos que evoquem a memória do entrevistado como fotografias, recortes de periódicos e menção a fatos específicos podem facilitar o desenvolvimento do trabalho.
8. Construir fichas que organizem e orientem as futuras fontes orais. Deve-se privilegiar dados como o nome do entrevistado, número da entrevista que vai representar dentro do universo da pesquisa, idade do entrevistado, endereço, local onde foi gravada a entrevista, nome do entrevistador, idade, profissão, religião, datas das entrevistas realizadas com o informante, em que fitas (previamente numeradas) estarão gravadas as entrevistas, em que páginas da transcrição se encontrarão referências a determinados temas e se há alguma restrição ao acesso das informações.
9. No início da entrevista, gravar informações como: nome do entrevistado, do(s) entrevistador (es), data, local e finalidade do trabalho.
10. Providenciar um Termo de Consentimento Informado, onde fique bem claro ao entrevistado:
a) as finalidades da pesquisa;
b) nome do informante e número de documento pessoal, como RG;
c) se a divulgação da entrevista oferece riscos ou prejuízos à pessoa informante;
d) a permissão ou não permissão da divulgação do nome do informante (caso não seja permitido, orienta-se que se produza uma declaração para este fim no verso deste termo, sendo assinado por ambas as partes (pesquisador e entrevistado), podendo o informante optar por um pseudônimo;
e) cedência dos direitos da participação do entrevistado e seus depoimentos para a pesquisa em questão;
f) abdicação dos direitos autorais do entrevistado e de seus descendentes;
g) data e assinatura do termo pelo participante e pesquisador - torna-se importante nesse item, anexar ao termo que será assinado por ambas as partes, a transcrição da entrevista. (...)  Silveira (2007)

Realizado o depoimento, vem o momento de indexá-lo de modo a facilitar sua posterior pesquisa. De novo, o exemplo do CPDOC merece ser considerado. Como forma de pensar em formas de indexação para o caso da história oral proponho a leitura do artigo "Princípios de indexação de entrevistas de história oral" de Brando,que você lê aqui:
Mas, todo este trabalho não faria qualquer sentido se a divulgação não alcançar seus objetivos: registrar as informações de maneira a atender às demandas de produção de conhecimento e/ou inovação em diferentes áreas de conhecimento.

Para esta tarefa, o mundo contemporâneo tem oferecido inúmeras ferramentas e possibilidades. Se usadas de forma coerente e consciente trarão inúmeros benefícios.

Muitos subprodutos um Projeto de Memória Institucional pode oferecer: de exposições permanentes à itinerantes, livros comemorativos, sites, portais, entre outros. Em todo caso, o cuidado e o zelo na elaboração do projeto devem estar refletidos e mostrar a importância e o respeito às memórias ali reunidas.
Os produtos devem refletir o valor reunido de experiências e da identidade institucional.

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17 de jun de 2014

Alfabeto de Corpos

Por: Eliana Rezende

Tenho uma especial admiração pelo movimento dos corpos.
Fico sempre encantada de ver um espetáculo de dança, por exemplo, onde uma história inteira é contada sem uma única palavra... apenas os corpos em movimento, acompanhados por sons que os fazem vibrar.


Deixo-os com um aperitivo de como uma história inteira pode sair de um alfabeto proposto.
Em um primeiro momento gostaria que vissem os bailarinos Tiffany Heft y Eric Hoisington.
São imagens feitas debaixo da água e estão no livro "Body Type an Intimate Alphabet", dos fotográfos Howard Schatz e Beverly Ornstein. A música é de Jon Hopkins, "Private Universe"

Usem a imaginação!
Juntem as letras, formem palavras e escrevam seu parágrafo com coreografia e não caligrafia!

Que escrita obteve? Que história é capaz de contar?


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10 de jun de 2014

Inteligência em Inteligência Artificial?

Por: Eliana Rezende


Acho "natural" esse movimento tecnológico e seus usos e aplicações, e parece ser uma tendência esperada e buscada, até pela ficção



Isso nos leva a várias e grandes discussões em torno da ficção científica e da Inteligência Artificial.
Se formos remeter-nos no tempo,  a Segunda Guerra Mundial foi um grande marco, pois foi a partir desta que houve o desenvolvimento de tecnologias com vistas à indústria.
É nos anos 1960 que o desenvolvimento de conceitos que pretendiam imitar as redes neurais humanas ganha o termo “inteligência artificial” por parte de pesquisadores da linha biológica, que viam a possibilidade de que máquinas pudessem realizar as tarefas mais complexas humanas, tais como o pensar.
E é seguramente nos anos de 1980/90 que a sedimentação e discussão destes temas se dão em diferentes áreas.

Como forma de acrescentar elementos à nossa discussão sugiro que assistam o vídeo a seguir.
Ray Kurzweil é considerado um dos maiores inventores do nosso tempo. Pioneiro nos campos de reconhecimento ótico de caracteres, síntese de voz, reconhecimento de fala. Ele fala sobre inteligência artificial, tecnologia e o futuro do homem.




Basta lembrarmos do filme "Minority Report" de 2002, onde se leva ao extremo esta forma de reconhecimento para a busca de situações de pré-crime. Todos devem se lembrar do enredo, onde o reconhecimento do personagem por sua íris e a publicidade completamente customizada a partir de características individuais, era o centro da discussão trazida pelo filme. 

O interesse movimenta humores e ficção, e datam desse período os filmes do pioneiro Isaac Asimov (O Homem Bicentenário, Eu Robô) até o inesquecível “Inteligência Artificial”, dirigido por Steven Spielberg, ou a animação "Wall-E" de Andrew Stanton.

Se desse lado a ficção é romanceada e doce o mesmo não ocorre com outros filmes ficcionais onde a Inteligência Artificial é tratada como um grande e sério problema para humanidade e sua perenidade, além de tornarem-se opressoras e subjugadoras dos humanos. São exemplos neste caso: "2001: Uma Odisséia no Espaço", dirigido por Stanley Kubrick, "Matrix", de Andy e Larry Wachowski, e "Exterminador do Futuro", dirigido por James Cameron.

Se acrescentarmos a tais inteligências artificiais, características humanas como raiva, medo, autopreservação amor, inveja, entre outras emoções, é só uma questão de tempo para que sejam considerados opressores. As três leis da robótica serão suficientes para os conter? E se o homem bicentenário um dia for uma realidade? O que faremos? Como iremos lidar com algo que pode ser uma nova forma de vida inteligente? 

Em geral argumenta-se que tais inteligências são projetadas devido a limitação humana em várias áreas, especialmente quando envolvem grandes volumes de dados, ou necessidade de força. Mas e se pudéssemos aumentar nossa capacidade intelectual ou física das próximas gerações, ainda haveria necessidade destes?

E de novo, penso em um exemplo muito concreto e que já existe em  nosso mundo contemporâneo. Recentemente lia sobre a customização de publicidade utilizando perfis individuais. 

É o caso das vitrines inteligentes.
Os manequins inteligentes são resultado do trabalho conjunto entre a empresa Kee Square, ligada à Universidade de Milão, e a empresa italiana de venda de manequins Almax.



Biodegradáveis, possuem uma câmara na cabeça onde as reações dos que olham pela vitrine são captadas e posteriormente analisadas por um programa de computador. 

As imagens e análises tomam em conta idade, sexo, etnia e pontos de interesse do cliente ao apreciar a roupa. Este reconhecimento facial é posteriormente utilizado como estratégia de mercado e consumo.

Puristas consideram isso uma invasão de privacidade.
No entanto, já não é o que temos com mecanismos hoje existentes no Facebook, Google e outros motores de pesquisa e busca? Quantas vezes abrimos nossos e-mail e nos deparamos com ofertas diversas que envolvem os temas das nossas últimas mensagens?


Programa utilizado para a Vitrine Inteligente
Seus defensores todavia, argumentam que a tecnologia é a mesma usada amplamente em locais públicos como aeroportos, rodoviárias, shopping centers. A diferença é que nesses casos seus fins são de segurança. E que no caso das vitrines inteligentes há apenas um outro fim, que é o comercial. Afirmam também que tais câmaras não enviam informações sensíveis ou que mostram detalhes dos rostos dos indivíduos.   

Mas com certeza é um tema aliciante e que nos desperta curiosidade e questões, em especial pelos que são de outras áreas.


O que me inquieta é que toda esta possibilidade tecnológica de fluxos de dados, informações e tecnologia de ponta não tem conseguido algo muito mais simples que é o de fazer os homens lidarem com suas emoções mais básicas e primitivas: o amor, ódio, sentido e necessidade de poder, inveja, além de todos os artifícios empregados para manter tais situações como a opressão, os assassinatos em massa...a guerra...

Ou seja, toda essa capacidade inventiva de Inteligência artificial poderia ser capaz de levar os homens a outro patamar: mais autoconscientes, perspicazes e com maior capacidade de verticalização em todas as coisas. No entanto, o que temos assistido é uma capacidade humana inversamente proporcional ao que é oferecido tecnologicamente falando. Os humanos em geral não compõem uma massa crítica pensante na maior parte das vezes. São meros consumidores acríticos de tudo o que está disponível.



Queria de verdade que a tecnologia fosse acompanhada por um movimento consistente em direção a ser uma inteligência mais humana como um todo...


Referências:
Saiba mais

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4 de jun de 2014

Geração Touchscreen

Por: Eliana Rezende

Sons, telas, toques, luzes, imagens, palavras.
Um mundo feito de estímulos, desterritorializado e fracionado em ações e reações.
Os deslocamentos cada vez mais significam trafegar por redes, espaços e tempos muito mais do que com os corpos, que presos em meios de transporte estão sempre mais aprisionados do que as mentes, as retinas, a audição.


As narrativas e formas de comunicação, cada vez mais cifradas, ganham na economia silábica sua expressão máxima. As imagens tentam substituir todo um conjunto de ideias que antes precisavam da grafia de um alfabeto inteiro.

Com isto temos em formação uma geração que, pela primeira vez, consegue ter cindidos corpo e mente. As relações desterritorializam-se, e tempo e espaço ganham uma outra dimensão: glocalizam-se! (Isso mesmo, glocalizam-se, neologismo para designar local e global ao mesmo tempo, onde território físico não significa.) Ante à avalanche de conteúdos, informações e estímulos encontramos cada vez mais pessoas que vivem o que está se convencionando chamar de: "idade mídia". Relações e vidas constituem-se de formas entrecortadas, cifradas e dispersas. Tecidas pela imediaticidade, estímulos que vem de todos os lados e de complicada assimilação e análise.

O mundo glocalizado a partir de suas redes sociais, numa frase que já esta virando clichê, aproximou pessoas antes separadas por um oceano e cria fissuras maiores que as das Ilhas Marianas entre quatro paredes.
É comum em salas de um mesmo ambiente doméstico cada um estar conectado ao mundo, sem saber o que se passa na mente de quem senta ao lado.

Famílias e jovens não sabem bem como lidar com seus limites de consumo e de possibilidades relacionais. Vive-se com culpa e excessos de todos os lados: pais pela escassez de tempo fornecessem aos filhos parafernálias tecnológicas que lhes mantém ocupados e distraídos.


Duas palavras talvez sejam fundamentais em todo este processo: fracionamento e aceleração. Dessa matemática feita por duas variáveis, temos como resultante a imediaticidade.
Corpos e mentes fragmentados em seus espaços físicos, mentais e emocionais, em geral a mercê de estímulos de todas as ordens e uma profunda dificuldade de reunir e sintetizar percepções de forma mais elaboradas e consistentes.

As sociabilidades ganham com isto uma nova forma de entender realidade, até então tradicionalmente concebida como territorialidade, ligada essencialmente ao espaço geográfico, local, material, presença e de convivência; encontra agora o conceito de tele realidade, onde a realidade pode ser experimentada de um outro ponto de vista de espaços e tempos. As redes e seus meios de comunicação colocam a possibilidade de tele (vivências), desmaterialização, globalidade, distância. Tudo em tempo real.
Existir ganha um novo sentido.

Segundo Rubim (2000):
"(...) A singularidade dessa nova circunstância societária vai incidir nas cruciais questões da realidade e da existência. Essa dupla composição "fragmenta" a realidade contemporânea em uma realidade contígua, (con)vivida no entorno por cada individuo, em uma realidade remota, porque não inscrita no mapa de proximidades, agora tele(vivida) planetariamente e em tempo real como teler realidade (...) 
"(...) O caráter composto da realidade na contemporaneidade possui outra significativa consequência: ele impõe o descolamento entre existência e o existir publicamente. Hoje, a mera existência física já não assegura um existir social , expediente automático em uma sociabilidade de tipo comunitário, na qual a existência física e publica praticamente coincidem, pois a contiguidade do território, a exigência da presença e as dimensões possíveis do mundo garantem o compartilhamento, o movimento de tornar comum coisas e pessoas, enfim a publicização. Nesta circunstância societária existir fisicamente significa, sem mais, ter existência pública. (...)"

Essa cisão entre real e virtual, público e digital talvez seja o maior de nossos desafios. As existências se multifacetam, ao mesmo tempo que cindem corpos, almas, sociabilidades, pessoas...

Nem bom nem mau em si. Apenas uma nova forma de relação com tempo, espaço e estímulos.

De tantos fragmentos e estilhaços movidos em velocidade e em substituição constante é que nossos adultos do futuro serão formados. Dispersão e em vários casos dificuldade de estar profundamente absorto e comprometido com algo, passa a ser um desafio para cada um.

Em verdade o que temos são verdadeiros caleidoscópios de relações efêmeras.

Fica o desafio:
Como usar e potencializar todas essas habilidades de um mundo feito de tantos estímulos em prol de melhores adultos?

1 de jun de 2014

Afinal, quem você pensa que é?

Por: Eliana Rezende

Em tempos de egos tão inflados as pessoas parecem se esquecer qual o espaço que, de fato, ocupam no universo. Talvez seja uma boa ideia parar... pensar... redimensionar!


Proponho um pequeno exercício de reflexão com apoio de alguma pirotecnia visual. 
Confira a animação aqui:

A animação parece tão simples; afinal é só olhar nosso tamanho no universo.
Ela faz por nós algo que é muito caro à arquitetura e engenharia, põe numa perspectiva e escala adequada o que somos em qualquer lugar que estejamos e qual é o nosso ínfimo lugar nesse macrocosmo infinito.

Do ponto de vista de uma animação a hierarquia facilita o redimensionamento de tudo.
As dificuldades começam a surgir quando saímos dela e olhamos ao nosso redor, o nosso mundo real.
Se formos ao mundo corporativo poderemos constatar então, que a arrogância e prepotência de determinados cargos criam opacidade na forma e nos valores como cada um se vê e olha o outro.

É mesmo um longo aprendizado lidar com a vaidade.
De fato, em áreas onde a técnica e arte podem se misturar e até confundir o encontro de egos e ruídos de vaidade tendem a aumentar.
Talvez por isso mesmo devêssemos voltar, olhar para a nossa verdadeira dimensão e reconsiderarmos o que pensamos de nós e dos outros. 

Pessoalmente, gostei muito da animação. Achei-a instigante e que contribui muito para fazermos um redimensionamento sincero do que somos neste universo infinito, sem a arrogância, às vezes, tão presente em cargos e funções ocupados nos universos corporativos. 
Se servir a isso, foi excelente!


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