28 de mai de 2014

Patrimônio Arquitetônico: Preservar não é apenas tombar!

Por: Eliana Rezende

O que seria uma ação de preservação adequada?
Seria a preservação uma forma de recriar de forma artificial o espaço urbano, excluindo e levando para longe aquilo que é considerado inadequado ou indesejável?

A discussão pode ser longa e enveredar por muitos caminhos.
Em geral, tem-se a falsa noção de que uma ação de preservação ou tombamento é tornar tudo limpo e arrumado, afastar da paisagem tudo o que seria considerado marginal e social ou culturalmente inadequado.

 Missões Jesuíticas Guarani

Em verdade, as coisas não são bem assim. Talvez o caminho seja esclarecermos algumas noções fundamentais. Escolho para tanto falar sobre os conceitos de Preservação, Conservação, Restauração e Tombamento. Tais conceitos podem ser utilizados por diferentes áreas, e portanto, opto por estabelecer noções que sejam mais abrangentes.


A noção de preservar tem que ver com uma atitude de prevenção, é algo que se estende a modos que implicam uma conscientização que pode ser de um grupo, uma pessoa ou uma instituição.
O tombamento é uma medida, um ato legal, no sentido de fazer com que a preservação se dê. Em geral é a primeira de uma série de ações. Nesse sentido, e com esta perspectiva, a Preservação é algo muito mais abrangente, e é bom que se diga, que nada tem a ver com uma museificação do lugar. Ao contrário, boas ações de preservação inserem a população local e dão um sentido de apropriação e uso do espaço.
O objetivo da Preservação longe de transformar-se em um empecilho é, antes de tudo, garantir às gerações futuras um passado, que é composto multifacetadamente, por aspectos que tomam toda a sua cultura de modo que seja um Patrimônio.

Gosto de uma definição do Gilberto Gil (poeta que sabe usar as palavras como ninguém): “pensar em patrimônio agora, é pensar com transcendência, além das paredes, além dos quintais, além das fronteiras. É incluir as gentes, os costumes, os sabores, os saberes. Não mais somente as edificações históricas, os sítios de pedra e cal. Patrimônio também é o suor, o sonho, o som, a dança, o jeito, a ginga, a energia vital e todas as formas de espiritualidade da nossa gente. O intangível, o imaterial."

Falando sobre isso, assista ao vídeo de Carlos Fernando Delphim, do IPHAN, falando sobre Patrimônio Natural e suas diferenças e semelhanças com o Patrimônio Cultural:



A relação de comunidade e o uso de seus espaços e suas histórias auxiliam nesse trabalho de preservação da cultura local, regional e nacional, e dá um sentido de uso para patrimônios materiais e imateriais.
Felizmente, vejo ventos de mudança e, com uma concepção que se alia à sustentabilidade, muitos projetos dão vida nova à antigas funções.

O que é preciso que se diga é que são muito mais iniciativas de consciência de um grupo do que de valores monetários. Óbvio que precisamos dos dois! Mas as boas ideias e iniciativa nesse sentido precedem toda e qualquer forma de valor monetário.

A concepção mais recente de preservação é interessante exatamente por tomar em conta contextos e tessitura de vida dos espaços nas vidas sociais de cada comunidade. Se tomada em sua verdadeira acepção todos tem muito a ganhar. Acho uma área rica e interessante exatamente pelos olhares multidisciplinares que são necessários.

Em relação à políticas de preservação e tombamento, há de fato muitos interesses e desinteresses.

De um lado, por responsabilidade do estado, há uma imposição que deixa o proprietário sem recursos financeiros e numa situação difícil, com imóvel sem cuidado e muitas vezes impossibilitado de ser ocupado quer comercialmente, quer residencialmente. É um ônus sem qualquer bônus ou incentivo.
De outro lado, há a total desinformação por parte de proprietários e até de comunidades inteiras em relação ao patrimônio cultural e material que muitas dessas edificações possuem. É um problema de educação cultural e até de empreendimento. Se orientados, vários projetos assim podem reverter para proprietários e em muitos casos para comunidades inteiras.
O caminho, considero longo, mas não impossível de ser seguido.
Cada vez mais nossas cidades estarão envelhecendo e se não entendermos que o novo e o velho podem conviver sem um suplantar o outro não teremos futuro e nem passado!

De concreto, e sei que é algo que nenhum de nós quer ou precisa: é de uma cidade museificada.
Por outro lado, aspectos que têm a ver com o DNA da cidade precisam, e devem, ser mantidos para que sua identidade se mantenha. Talvez esse seja o grande desafio e em nome do que áreas interdisciplinares devam colocar a sua criatividade e inventividade.

Um pressuposto que era próprio do século XIX, e do qual Paris foi a cobaia, foram as políticas de Houssman, onde acreditava-se que de tão ruim tudo deveria vir abaixo! Munidos de pólvoras e homens com suas ferramentas, a cidade ruiu. Em seu rastro várias outras cidades seguiram o mesmo caminho dentre os quais estão Buenos Aires, Rio de Janeiro do Prefeito Pereira Passos e Nova York.


Bota abaixo de Pereira Passos no RJ

Considero que todas as ações devem tomar em conta seu entorno, seu contexto de formação, a população que vive e circula e suas relações geográficas, históricas e culturais. Tudo o que escapa a isso parece-me sem sentido e despossuído de valor e com poucas chances de perdurar. Quando essas relações são tomadas em conta as possibilidades de configurar-se como legado benéfico são grandes.

Como historiadora, vejo muito mais o valor que os espaços propiciavam enquanto sociabilidades e trocas (sejam elas de quaisquer natureza: culturais, políticas, comerciais, entre outras) e os espaços arquitetônicos como a materialização de fazeres e viveres. Se pensarmos será essa urbanidade vivida e pulsada em cada rua, em cada edificação, que trará valor para além dos aspectos imobiliários. Uma lembrança para este caso é o que ocorreu em São Paulo com o Bexiga e mesmo à Nova Luz.  são importantes fontes de mensuração disso.

Quando pensamos uma das variáveis para valor entramos de novo na forma, uso e ocupação dos espaços através do tempo. As movimentações de fronteira entre os espaços e a "necessidade imobiliária” de empurrar à margem o que não tem valor monetário é outro dos problemas, em especial quando o patrimônio arquitetônico, está tendo outro valor de uso, ocupação e transito social (caso específico do comércio da Santa Ifigênia e da área de venda e consumo de craque). A decadência social em geral acompanha a dos espaços arquitetônicos e em geral de outras praças e ajuntamentos.

De fato, projetos chamados de preservação, mas que engessam e de certa forma descaracterizam e museificam espaços não fazem sentido à preservação como um todo e a cidade especificamente. Exatamente por ela conter fortes elementos vivos e de interatividade. 

São muitos os critérios e variáveis essenciais para estudos de viabilidade neste sentido, que devem ser feitos de forma prévia e nunca imediatista. Infelizmente, vemos que isso ocorre a conta-gotas.

________________
Referências: 
Algumas Reflexões sobre Preservação de Acervos em Arquivos e Bibliotecas, [link]
A Construção do Conceito de Patrimônio Histórico: Reconstrução e Cartas Patrimoniais, [link]

24 de mai de 2014

Vendem-se palavras

Por: Eliana Rezende

Há crônicas que são mesmo fantásticas!
Esta fala das palavras que nomeiam o mundo. Neste mundo onde tudo tem que render um bom negócio, acho que vale à pena esta pechincha!
Considero uma boa forma de pensarmos sobre Informação e Conhecimento. Experimentem...
Leiam comigo!



O vendedor de palavras
Fábio Reynol

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma ideia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.
Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico — apenas R$ 0,50!".
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.
— O que o senhor está vendendo?
— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.
— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
— O senhor sabe o significado de histriônico?
— Não.
— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.
— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
— O senhor tem dicionário em casa?
— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
— O senhor estava indo à biblioteca?
— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?
— O senhor conhece Nélida Piñon?
— Não.
— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
— E por que o senhor não vende livros?
— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.
— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
— Jactância.
— Pegar um livro velho...
— Alfarrábio.
— O senhor me interrompe!
— Profaço.
— Está me enrolando, não é?
— Tergiversando.
— Quanta lenga-lenga...
— Ambages.
— Ambages?
— Pode ser também evasivas.
— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
— Pusilânime.
— O senhor é engraçadinho, não?
— Finalmente chegamos: histriônico!
— Adeus.
— Ei! Vai embora sem pagar?
— Tome seus cinqüenta centavos.
— São três reais e cinqüenta.
— Como é?
— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
— Tem troco para cinco?


O texto é mesmo uma delícia!
Gosto dessa ideia de que as palavras nomeiem o mundo. Isso é fantástico! Ter as palavras significa dar nome a sentimentos, emoções, percepções.
Lembro com carinho quando descobri o mundo das palavras e recordo com encanto o dia em que, através de uma colega, descobri que “beijo” podia ser escrito! Grande descoberta!
As palavras nomeavam e ajudavam a entender o mundo e até sentimentos podiam ser descritos! Não sou capaz de descrever em palavras minha perplexidade e emoção naquele momento.
Acredito que por isso achei tão especial a crônica.

Sugeri que tomássemos o texto também como forma de reflexão sobre o que seja Conhecimento e Informação. O paralelo é interessante e mostra bem o hiato que separa essa duas palavras tão preconizadas, e desconhecidas, pela maioria de seus utilizadores.

Em verdade minhas palavras de hoje não tem nada que ver com histriônico, mas vale à pena estabelecermos suas diferenças. Feito isso, creio que terei conseguido contribuir com algumas palavras para que as carreguem consigo.

Entendermos que as palavras podem possuir e ser possuídas por nós como sentido de mundo e como forma de o entendermos e expressarmos é muito rico e interessante. Muitas nos chegam e partem sem nos empoderarmos delas. Mas se entendemos o valor que possuem, e a moeda de troca que representam, ficarão para sempre entre nossos tesouros e como tais poderão inclusive ser compartilhadas.

18 de mai de 2014

Você ainda escreve cartas?

Por: Eliana Rezende

Provavelmente a resposta é: "parei faz um tempão!"
Mas houve um tempo em que as cartas possuíam um ritual de produção e atenção. Lembram-se dos envelopes que continham perfume? Pois é... novos tempos. Mas e agora?

As formas de escrita sempre encontraram diferentes suportes e as cartas tal como os diários, representam uma forma de escrita ordinária onde imprime-se com o que se sente.


A relação com a escrita neste caso específico é uma relação tátil e de afetos. Sob esta ótica, era ritualística e envolvia um tempo cíclico composto de começo, meio e fim. Exigia uma composição que ia desde a escolha do tipo do papel, a tinta, o cunhar as palavras de próprio punho, a busca de um envelope que não alterasse a forma de dobras e, óbvio: filas nos correios, compra de selos, o uso das colas e finalmente o encontro com uma caixa que servisse de fiel depositária até que esta encontrasse seu destinatário.

O recebedor da carta inspecionava quem lhe havia remetido, de onde, em que data e há quanto tempo ela viajava ao seu encontro. A leitura seguia sempre a busca de um melhor lugar. Era lida, relida e muitas vezes guardada afetuosamente entre os principais valores pessoais de cada um. Algumas continham o perfume dos papéis e até objetos que eram-lhes acessórios (pétalas, desenhos, e outros objetos que teciam com a carta os seus sentidos). A resposta quase nunca imediata necessitava do tempo da elaboração. Era preciso buscar todos os utensílios da escrita para além das palavras que expressavam de fato o sentido ao dito.

A escrita em traços duráveis e em espaço íntimo trafegava por espaços públicos, de mão em mão, de pessoa em pessoa até o seu destinatário.
De fato uma grande elaboração!

Como historiadora, todo este trânsito é fascinante e passível de muitas “leituras”. São modos de viver, pensar e produzir culturalmente modos de estar.
Hoje, em tempos de tanta imediaticidade e consumo, tudo passa muito rápido, com economia silábica e fonética. As palavras deixam de ser pensadas e as correspondências giram em torno do imediato. Roubou-se a aura da palavra cunhada e da magia que seus complementos tinham (os selos, os papéis, os timbres, as tintas, o rebuscado de letras e formas, sua sinuosidade e curvas).


Escrevi muitas cartas (imagine o trabalho que tive pelo tanto que sou prolixa!!!), recebi muitas e experimentei o prazer de estar longe do Brasil e aguardar ansiosa que alguma me chegasse.

Já tive nas mãos cartas escritas por pessoas que morreram há séculos e tenho que dizer que é uma emoção ver ali a tinta impressa com a energia dos punhos de alguém como, por exemplo, Mário de Andrade. A forma como a caneta tinteiro modifica seus tons e como o papel vai ganhando um tom sépia.

Talvez esse saudosismo tenha a ver com a minha pratica profissional e com minha experiência de vida. A adaptação houve. mas ainda tenho muito vincada em mim a experiência da escrita de próprio punho.

Os tempos hoje são outros:
Desaparecimentos e perdas são usuais e muitas vezes temos a ingrata surpresa de descobrirmos que nossos conteúdos digitais foram para além das nuvens.

Obsolescências, superficialidades... pressa. São muitos os males que atingem nossas comunicações. Como disse, a relação é tátil e sensorial própria de um tempo que talvez tenha passado. Para nós, homens e mulheres de um tempo de transição, é às vezes difícil verificar como tudo passou tão rápido por nós.

Apesar de tudo, tento pensar que a qualidade dos textos se preserva e que apenas os suportes se alteraram. Mas infelizmente todo o código social e cultural em torno dessas produções se alterou para sempre. O tempo dirá com quais resultados. Acho que o principal componente de todo este ritual de sensibilidades e cuidado era exatamente o tempo e atenção dispensada ao seu preparo.

Você poderia perceber a atenção em cada detalhe material: o papel escolhido e sua textura, a tinta enquanto espessura e cor, letras trêmulas ou incisivas, as formas de dobra e até o tipo de envelope. Tudo denotava cuidado, esmero, atenção e principalmente um dos recursos mais escassos que temos: tempo.


Hoje, a volatilidade é grande. Com os meios digitais apascentou-se o espírito ansioso. Mas, e todo o "conjunto da obra"? Como referir a emoção que às vezes tínhamos quando víamos o carteiro? Lembro-me de ter corrido atrás deles algumas vezes com receio de que minha carta não chegasse.
Bons tempos...
Como falar disso a um natodigital?! Eles de fato não saberão, infelizmente, o é isso.

Acho que uma amarração fantástica para este tema sejam os filmes "O carteiro e o Poeta" (que você pode assistir aqui) e "Central do Brasil" (que você pode assistir aqui). O sentido das cartas que tecem vida é uma deliciosa lembrança e uma forma belíssima da ficção encontrar a escrita. 

Estamos no  mundo atual vendo a conformação de uma nova relação com as formas de escrita, seus suportes e os modos pelos quais nos relacionamos com nossas correspondências ordinárias. É um patamar de mudança cultural, e por isso é tão afeito aos nossos esquemas sensoriais. E por ser sensorial, imprime em nós muitas emoções e sensações. Não há nada de errado em uma forma ou outra. O que de fato importa é que a comunicação se estabeleça. Óbvio está que se vier com mais elementos que alimentem o sensorial, melhor! Anteriormente tínhamos todo um conjunto de códigos de posturas, que davam uma forte dimensão de "valor" ao que imprimíamos em tinta: era uma escrita de próprio punho com as inconstâncias e oscilações do que nos vinha pela alma. Hoje a escrita padronizada e eletrônica tira isso e muitas outras coisas... mas é uma passagem, e como tal precisa ser trilhada...

A experiência da escrita, interlocução e troca é uma das grandes aliadas no alargamento do espírito. Nos oferecem olhares que de onde estamos não enxergamos. Por isso, o tempo despendido em cada comentário, em cada correspondência tem valor agregado que não possui cifras, é intangível. 



O tempo da vida e as palavras que as nomeiam dão formas ao sentido e ao vivido pensado.  Nominar é, em última instância, “trazer à existência”. São com as palavras que expressamos ideias, sentimentos, projetos, sonhos, expectativas, reflexões, tecemos críticas e construímos pontes entre o sensível e o visível. Tudo isso as tintas fazem por nós. De punho ou em um jato de tinta contam ânimos e prismas de mundo. Com elas construímos e partilhamos o saber e o conhecimento. Construímos mundos...

Nas cartas havia todo o conjunto de sentidos que partiam junto com os escritos e daí talvez toda a sua magia. Eram remetidos com elas pedaços de nossas existências compostas, muitas vezes, com folhas secas, pétalas, fotografias, bilhetes de ingresso de lugares incríveis e até beijo feito em batom! Elas são de fato auxiliares sensoriais por onde nossas memórias encontram as vias de acesso ao passado.

15 de mai de 2014

Duvidar é pensar!

Por: Eliana Rezende

- "Tens a certeza?"

Vejam, não se trata aqui de duvidar por duvidar ou criar um celeuma de qualquer ordem: seja político, ideológico, científico ou religioso. É mesmo procurar trazer à baila a importância e o valor que o pensamento crítico propicia. E este só encontra terreno fértil ante à dúvida. É preciso questionar sempre para que as respostas venham não por mera osmose, mas a partir de um trabalho sério de crítica e reflexão.


Vejo como sendo "natural" ao humano a busca de crer antes até de entender.
A História está repleta de exemplos aonde a credulidade conduziu povos e nações inteiras a confrontar-se com suas piores partes e vaticínios. Tudo em nome de uma pretensa verdade absoluta.

A dúvida, portanto seria um caminho mais sábio que favoreceria a possibilidade de compreender não de um ponto de vista meramente crédulo, mas estruturado e embasado.
As crenças, tais como as doutrinas não têm em seu horizonte a dúvida e o questionamento. São passivamente consumidas. E talvez daí o imobilismo e a acomodação que propicia. Toma-se o dado como fato absoluto, e sem questionamentos simplesmente assume-se tal como a única via possível. 

Talvez o maior problema da credulidade sejam as "verdades interiores" que se pautam sobre nossas crenças pessoais e estas muitas vezes não possuem qualquer lógica. Daí a importância da passagem dos anos. O caminho do amadurecimento é exatamente encontrar crítica num universo que é o pessoal e com ele compreender o que está em volta. 
Caminho difícil este de amadurecer, não é?

Interessante adotarmos a dúvida e pensarmos em sua atualidade contemporânea, quando é uma prática que teve seus primórdios na filosofia de Platão, Santo Agostinho e, posteriormente a duvida metódica de Descartes.
Extremamente relevante se pensarmos que estamos no século XXI e que o humano continua sendo humano. Que as questões que inquietam e fazem crescer são as mesmas e que as formas de buscá-las estão sempre à nossa volta.


Como disse Nietzsche: “o conhecimento não é o termo de uma caminhada, mas o princípio de um questionamento”. Tal como era concebida, a filosofia buscava preencher os espaços vazios do conhecimento. Em última instância o conhecimento assenta-se na dúvida.

Todas as ações que praticamos e movimentos que fazemos necessitam ter um sentido.
A crítica pela crítica torna-se vazia se não soubermos o quê perguntamos e nem para o quê. Se assim o fizermos, seremos apenas amargos expectadores e incompreensíveis interlocutores.

A dúvida posta neste sentido específico é a dúvida que busca a compreensão e o entendimento. É a dúvida feita como crítica assertiva, atenta e perspicaz. Visa antes de tudo o crescimento pessoal e de todos os que são impactados pelo que questionamos. Quando fazemos isto galgamos vários degraus e melhoramos muito nossa perspectiva e, quem sabe, até as alheias!

Sócrates resumia a extensão do seu conhecimento com a célebre frase "Só sei que nada sei". Assim, por maior que seja o nosso "saber", teremos sempre infinitas possibilidades de aprendizado ao nosso redor. Daí a importância da dialética, de questionar com lógica e método, de interagir de forma consciente, para efetivamente construir Conhecimento. Vale para o ser humano, vale para as empresas, bem como para o inter-relacionamento destes dois no universo social.

Vejam, aqui fala uma humanista e que considera que por em pauta a dúvida é também não achar-se possuidor de verdades. Quando temos a humildade de reconhecer que nada sabemos e que nossas verdades podem não bastar ao mundo e aos outros, acho que ganhamos muito.
Duvidar antes de tudo é um caminho curto de buscar alternativas criativas e inovadoras para velhas questões, tanto nossas quanto de outros. Por isto tão válida!

Duvidar é também um modo criativo de descobrir que há sempre muitas respostas e que talvez a nossa nem seja a melhor, a primeira e muito menos a última.

O questionamento é sempre um bom começo para o desenvolvimento de um espírito crítico, inquieto e que busca ir além da acomodação ao que é dado.
Vejo este movimento como proativo e capaz de auxiliar na trilha de novos caminhos e outras possibilidades.


Manter este espírito significa, entre outras coisas, também duvidar de que se possua as "verdades e todas as respostas". Talvez aí esteja a maior de todas as lições: descobrir que pouco ou nada sabemos! E que todo o tempo temos que nos dar chances para descobrir, aprender e questionar o já sabido, aprendido ou visto.

A dúvida é de fato o grande elemento impulsionador, e o questionamento até de si próprio e nossas crenças, dá-nos o sentido de nossa finitude e do quanto ainda temos que avançar. É aí que se encontra o qualitativo de todo o processo. 

Em alguns casos, as pessoas consideram que "ser do contra" é ser este espírito crítico, quando na realidade essa atitude irrefletida é vazia de posicionamento crítico.
Em geral, fica na superfície e na obviedade do dado. O espírito crítico, ao contrário, busca compreender seu interlocutor e com ele avançar um pouco além, dando consistência ao proposto e pensado.

Tarefa dura essa interlocução, pois muitas vezes não são pares e sim pessoas que estão em lados opostos e díspares de um mesmo ponto de origem.
Mas aí, creio que vem o senso crítico e que não deixa de ser o bom senso: tirar até do diferente algo que lhe acrescente e ser capaz também de acrescentar.

Pensar criticamente também é compartilhar...é preciso buscar eco às suas vozes interiores e isso só vem na ágora da existência



Por fim a pergunta, como historiadora, que deixo a todos é: como a dúvida pode ser ferramenta de gestão no século XXI?

Portanto, vamos fazer o mundo girar?


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4 de mai de 2014

Empáticos e gentis: para quê?

Por: Eliana Rezende

Há tempos quero falar sobre estas duas características, cada vez mais raras e quase sempre tão confundidas. A dificuldade se dá exatamente porque no mundo corporativo elas parecem ceder vez a outras palavras que ultimamente estão virando moda, como por exemplo: inovador, criativo, pró-ativo, entre outras.

De outro lado, empatia e gentileza são características que não estão no rol de termos monetizáveis. E ainda mais: não nascem como virtude e nem se adquirem ao se frequentar uma escola. Não estão à venda, nem são itens de consumo rápido, obtido por entregas via cartão de crédito.

Partindo de tanta dificuldade, resolvi iniciar minha busca pelos dicionários. As interpretações são muitas e várias, suas aplicações alcançam um número ainda maior. Mas das definições que vi escolhi estas:

"Gentileza é a qualidade do que gentil, do que é amável. Gentileza é uma amabilidade, uma delicadeza praticada por algumas pessoas.
A gentileza é uma forma de atenção, de cuidados, que torna os relacionamentos mais humanos, com menos rispidez. Quem pratica a gentileza não tem má vontade, não é indiferente e sim é cuidadosa, distinta e delicada.
As gentilezas devem ser praticadas com lhaneza, ou seja, com sinceridade e simplicidade, pois melhoram o convívio entre as pessoas."

Para empatia o significado é assim descrito:
" Empatia significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.
A empatia leva as pessoas a ajudarem umas às outras. Está intimamente ligada ao altruísmo - amor e interesse pelo próximo - e à capacidade de ajudar. Quando um indivíduo consegue sentir a dor ou o sofrimento do outro ao se colocar no seu lugar, desperta a vontade de ajudar e de agir seguindo princípios morais.
A capacidade de se colocar no lugar do outro, que se desenvolve através da empatia, ajuda a compreender melhor o comportamento em determinadas circunstâncias e a forma como o outro toma as decisões.
Ser empático é ter afinidades e se identificar com outra pessoa. É saber ouvir os outros, compreender os seus problemas e emoções. Quando alguém diz “houve uma empatia imediata entre nós”, isso significa que houve um grande envolvimento, uma identificação imediata. O contato com a outra pessoa gerou prazer, alegria e satisfação. Houve compatibilidade. Nesse contexto, a empatia pode ser considerada o oposto de antipatia.
Com origem no termo em grego empatheia, que significava "paixão", a empatia pressupõe uma comunicação afetiva com outra pessoa e é um dos fundamentos da identificação e compreensão psicológica de outros indivíduos.
A empatia é diferente da simpatia, porque a simpatia pode é maioritariamente uma resposta intelectual, enquanto a empatia é uma fusão emotiva. Enquanto a simpatia indica uma vontade de estar na presença de outra pessoa e de agradá-la, a empatia faz brotar uma vontade de compreender e conhecer outra pessoa.
Na psicanálise, por exemplo, a empatia significa a capacidade de um terapeuta de se identificar com o seu paciente, havendo uma conexão afetiva e intuitiva."

Buscar no dicionário foi a forma de procurar mostrar que, tanto uma quanto a outra, não tem nada a ver com educação ou quaisquer modalidades atribuídas ao espírito cortez e romântico que se espera de casais apaixonados. Gentileza, não se pratica dando bom dia, pedindo com licença, por favor, obrigado. Muito menos é enviar flores com cartão, abrir a porta do carro, segurar a porta do elevador.
Isso tudo é desejável, mas está apenas na categoria de boa educação.

Gentileza e empatia definitivamente são outra coisa. Elas envolvem uma real percepção de quem seja o outro. Enxergá-los em sua plenitude e verdade, e respeitá-los apesar de, ou por isso. É ter pelo outro a mesma consideração e respeito que deve ter por si mesmo. Antes e acima de tudo, ter a capacidade infinita de simplesmente saber se colocar no lugar do outro em certas circunstâncias. Um exemplo disto pode ser lido no post "O trabalhador Invisível", que escrevi e cujo link está aqui:

Saber ter palavras que em vez de ferir como lâminas, sejam antes de tudo um bálsamo que alivia e até cura. Significa ser bom ouvinte. Atento e cuidadoso, que saiba colocar cada palavra no seu devido lugar.
Ser gentil é saber andar sem armas. É saber conciliar todos em torno do que realmente interessa. Mesmo quando os ânimos estão em uma panela de pressão.

Gentileza e empatia são modos de ser, estar, agir, enxergar o mundo, a vida e as pessoas.


Daí dizer que gentileza e empatia vão muito além de boa educação ou cortesia aplicada às etiquetas e convívios sociais. Elas não constam nos currículos escolares exatamente porque tem a ver com sistemas de valores pessoais e éticos, que se exprimem num desejo sincero de contribuir para que o mundo e as relações à sua volta sejam mais humanas e tragam mais contentamento.

Quem as exerce é por natureza uma pessoa que pratica a justiça. Mas não apenas a que lhe beneficia, mas especialmente a que toma em conta os outros.

Gentileza e empatia envolvem não apenas aquele vestígio impessoal do tipico cumprimento "e aí, como vai?" e já virando as costas antes que a resposta seja devolvida. Significa o interesse de um olhar frontal, sincero com ouvidos atentos. É doar seu tempo.

Elas têm seu espaço em todas as circunstâncias de vida, sejam pessoais, profissionais, familiares ou digitais. Isso porque todos somos, ou deveríamos ser, apenas um. Praticadas no trabalho ou com pessoas que nos veem alguns minutos por dia são muito mais fáceis. Mas, e com aqueles que dividimos o teto, as paredes, a vida?

A gentileza e empatia estão, sem dúvida, ligadas ao autoconhecimento que cada um precisa ter de si e do mundo que o cerca. Sem ele, no máximo a pessoa será apenas e tão somente educada.

E você? Como tem exercitado a gentileza e empatia na sua vida?
Fez isso hoje? Fez ontem?

Seguirá fazendo?

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1 de mai de 2014

O trabalhador invisível

Por: Eliana Rezende



Começo com uma pergunta simples:

Você em seu cotidiano "vê" um gari?

A pergunta pode parecer óbvia e alguns inclusive dirão: “mas é claro!”
Mas será que de fato é assim?
Acompanhe-me:
Tempos atrás lia sobre um pesquisador que para desenvolver sua pesquisa de Mestrado na área de Psicologia Social vestiu-se de gari um dia por semana durante um período de seis anos, dentro do próprio Campus da Universidade de São Paulo no Departamento de Psicologia. 

Clicando aqui você pode conhecer mais sobre essa pesquisa e seu recorte.

No decorrer de sua pesquisa e para sua surpresa, percebeu o quanto essa categoria era ignorada por professores, alunos e funcionários. Em suas palavras:

“Conhecia muitas das pessoas, porém, todas passavam sem me olhar. Em determinado momento, um professor se aproximou e interrompi a varrição para cumprimentá-lo, debruçando-me sobre a vassoura. Ele não me notou. Chegou a esbarrar no meu ombro e nem sequer parou para pedir desculpas”

Sua experiência serviu apenas para mostrar que muitos destes trabalhadores mantém-se restritos aos seus próprios círculos e evitam o contato visual com outras pessoas como forma de proteger-se de formas de violência ou desprezo social. O que revela uma forte exclusão ligada à divisão social do trabalho.



Tal forma de invisibilidade recebe o nome de "invisibilidade social". O termo aplica-se em especial à profissões que, apesar de fundamentais para o funcionamento social, são totalmente ignoradas pela ampla parcela da população. Quer por preconceito, quer por indiferença. De modo geral, é uma indiferença que parte de camadas sociais consumidoras e com maior poder aquisitivo em relação às que habitam sua margem, ou que estão excluídas por causa de sua condição social.

No caso da pesquisa supra citada, o exemplo foi revelador, pois o pesquisador simplesmente trocou o lado e vestiu-se com um uniforme, dentro da própria instituição que estudava e descobriu que havia algo invisível à sua volta, que ele não havia se dado conta até então. Estar dentro dos muros da maior universidade do país e ainda assim encontrar tal tipo de invisibilidade apontou para um substrato de uma cultura da superioridade do conhecimento acadêmico em detrimento do trato humano entendido como relação social e humana.
Isso nos causa certo "choque" exatamente por que seria um espaço onde se esperaria que tais atitudes não devessem acontecer. Infelizmente, esse comportamento pode ser recorrente: claro que não podemos generalizar, mas ocorre.

Agora, partindo-se desse ponto, a pergunta quase inevitável e que destino a todos é:


Em seu cotidiano você “vê” tais trabalhadores? 


E amplio um pouco mais: Não apenas eles, mas uma gama imensa de operários, trabalhadores que edificam e erigem com seus braços caminhos, moradias, espaços e que em muitos casos (eles) não podem ser usuários dos mesmos. Vivem a exclusão e invisibilidade consentida de todos os que deles dependem e necessitam.

Falo de faxineiros, porteiros, pessoal da manutenção, jardineiros, pedreiros, ascensoristas, recepcionistas, seguranças, empacotadores, entre muitos outros.

Pergunto exatamente porque esta pesquisa veio mostrar as teias de invisibilidade que estão por traz de formas menores de preconceitos que tomam em conta a origem e a condição social.

Muitos veem apenas como seus iguais aqueles que possuem o mesmo colarinho.
Todo e qualquer trabalhador que não tenha esse parâmetro torna-se invisível.
Talvez tenhamos que avaliar como anda a redoma que às vezes nos pomos.

O cumprimento e a atenção estendidos a quem quer que seja além de denotar boa educação e consideração ao outro aponta nossos universos de prioridades e hierarquias.

Essa invisibilidade tecida muitas vezes por cargos de liderança infelizmente tem muito que ver como uma concepção muito arcaica, e pessoalmente gostaria de ver eliminada, que é a de que as pessoas são diferentes por exercerem funções tidas como menores ou terem tido menos oportunidades, escolaridade ou títulos. Isto é um equívoco imenso, mas infelizmente muitos em cargos de liderança nos fazem lembrar que essa nódoa existe e que continua sendo praticada diariamente. 

É de fato algo que precisamos superar.

Outro aspecto interessante nesta pesquisa foi apontar que em muitos casos os uniformes servem como “manto de invisibilidade”. Já que por meio de tais uniformes condiciona-se pessoas a determinados usos do espaço social. Indicam de onde vem e qual a função que ocupam e como devem ser “vistos”. É uma dentre tantas fronteiras que os espaços profissionais podem tecer.

Os uniformes, muitas vezes usados como garantias de segurança ou hegemonização dos espaços liga-se profundamente a ideia de exercer o controle, poder e vigilância.

Essa coisa de exercer a vigilância como forma de centralizar o poder e controlar pessoas é talvez a grande ambição humana. Acho que a relação humana acaba sempre colocando como mediação formas de controle para justificar atuações, sejam elas políticas, sociais, econômicas, entre outras. Basta pensarmos em Michel Foucault.

Como se vê, as barreiras não são apenas físicas e edificadas com tijolos. Podem estar à nossa volta e o que é pior, podemos ser nós a erigi-las. Por isso, creio que lidar com o diferente é algo que começa em casa e o outro terá que ser incluído em nossas existências, posturas e ações. Falar, projetar e pensar sempre é mais fácil que agir. Mas é nossa responsabilidade colaborar para esse salto qualitativo de relação.

Creio que aqui seja um bom momento para assistirmos o próprio pesquisador falando sobre seu tema:



Vejo que o fundamental é sempre olharmos com várias perspectivas e nisso a troca com outros é fundamental. O que para nós às vezes não é óbvio ou claro pode ser oferecido pelo olhar alheio.

Tenho o hábito de os cumprimentar sempre: inclusive os que estão nas ruas e não apenas nos locais que eu trabalho. E em muitos casos, presencio a surpresa que ficam. Olham-me com um misto de surpresa e timidez. E reproduzo o ato a todos que sei que prestam um serviço fundamental para que tudo funcione bem: ascensoristas, motoristas, senhoras do café e limpeza, porteiros, pessoas da manutenção, recepcionistas, entre outros. Tal qual faço com os Gerentes, Coordenadores, Diretores, Presidentes, Superintendentes, Secretários de Governo. Recebem de mim o mesmo cumprimento e sorriso (posso garantir!).
O que fica claro para mim a cada cumprimento é que em sua essência todos gostam da mesma atenção. Então, por criar diferenças?

Como digo sempre, temos que olhar de um ponto de vista empático. Se não soubermos exercer a empatia pouco prosseguiremos no sentido de extirpar esse mal do nosso meio.
Estimular a empatia e exercê-la cotidianamente nos tornará melhores e mais receptivos ao outro. Escrevi sobre empatia em outro post, e você poderá saber mais clicando aqui:

De fato, o que escapa há muitos é que existe uma dimensão humana e de importância relacional que está para além da posição que ocupa ou do cheque que ostenta. Não são os colarinhos que fazem as pessoas, mas a alma que as torna indivíduos que contribuem ao seu em torno. É isso que num mundo tão voltado ao ter se esquece: o que verdadeiramente conta é o que somos e não o que temos, já que é o somos que conseguimos levar para todos os lugares e ninguém nunca nos tirará. O que temos é só uma condição pontual altamente mutável.

Escolho para encerrar esse post um poema. 

É de Bertolt Brecht, "Perguntas de um trabalhador que lê":

Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas? 
Nos livros estão nomes de reis; os reis carregaram pedras?
E Babilônia, tantas vezes destruída, quem a reconstruía sempre?
Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a edificaram? 
No dia em que a Muralha da China ficou pronta, para onde foram os pedreiros? 
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo: quem os erigiu? 
Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares? 
Bizâncio, tão famosa, tinha somente palácios para seus moradores? 
Nlegendária Atlântida, quando o mar a engoliu, os afogados continuaram a dar ordens a seus escravos. O jovem Alexandre conquistou a Índia. 
Sozinho? 
César ocupou a Gália. 
Não estava com ele nem mesmo um cozinheiro? 
Felipe da Espanha chorou quando sua frota naufragou. Foi o único a chorar? 
Frederico Segundo venceu a guerra dos sete anos. Quem partilhou da vitória? 
A cada página uma vitória. 
Quem preparava os banquetes comemorativos? 
A cada dez anos um grande homem. 
Quem pagava as despesas? 
Tantas informações. 
Tantas questões.

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