12 de jul de 2014

Letra cursiva: a caminho da extinção?

Por: Eliana Rezende

Recentemente lia sobre a decisão, e que em alguns países está se tornando lei, que é a não ensinar mais a letra cursiva nas escolas para estudantes que estão sendo alfabetizados.

Ao que parece tal decisão pauta-se mais pelos que consideram que a escrita digital está substituindo a escrita cursiva, e que esta última não possui sentido em um mundo feito de gadgets e outras formas de composição do escrito.
Não sei se esta radicalização é correta neste momento ou se basta deixar os anos correrem para ver se a escrita cursiva de fato cairá na obsolescência e consequente esquecimento, tal como o dizem seus profetas apocalípticos. Tudo acaba sendo especulativo. Mas de fato, creio que essa opção de extirpar a escrita cursiva, ainda na alfabetização, será alvo de acaloradas e intensas discussões.

Um artigo interessante do The New York Times trata desta questão do ponto de vista do que se tem com a escrita de próprio punho. Veja aqui

No lado oposto estão os que defendem que a escrita de próprio punho é, não apenas salutar, como ajuda a desenvolver aspectos neurológicos, de memória e retenção que nos meios digitais não seriam possível.

Em relação a isto, e até mesmo no Brasil muitos conteúdos têm sido revistos quanto à sua importância no currículo, e a letra cursiva é mais uma destas reflexões.

O que precisa ser levado em conta é que a transmissão da ideia de um texto escrito necessita ser inteligível a qualquer um, em dois aspectos: coesão e letra. Pois a ideia pode ser ótima, mas se perde quando a letra não possibilitar sua leitura e compreensão. Penso que a letra (qualquer uma delas) é um recurso intermediário e nunca o objetivo final.
De que vale uma letra maravilhosa com pobreza de ideias, sem clareza de raciocínio?

Para nós, que temos o domínio de todas as formas e formatos que a escrita pode ter, é apenas uma questão de escolha por um ou outro meio. Agora, optar pelo não ensino é uma discussão que vai muito além.

O maior problema que temos assistido é que da mesma forma que os suportes tem feito a cisão entre conteúdo e forma, o mesmo vem ocorrendo, ainda que de forma sutil entre escrita digital e cursiva.

Para, além disso, a escrita vem tornando-se fonética e encontra públicos usuários de todas as idades. Tenho para mim que seria um dos motivos de estarmos assistindo uma inviabilização da escrita cursiva com alguma fluência. Os alunos quase que junto com a alfabetização começam a se comunicar utilizando essa forma de linguagem.
Tão logo aprendem as primeiras letras incorporam os vícios da linguagem fonética.

Em outros tempos éramos alfabetizados e utilizávamos o encurtamento de caracteres para simplificar a escrita ágil, em geral para anotações de aula. Obedecíamos as regras e a forma taquigráfica tinha como base uma boa redação. Hoje o que temos são alunos que não aprenderam a ler, a se expressar e transformam essa expressão em código escrito que tenha inteligibilidade e correção.

Nossa sociedade, em especial as digitais, está se habituando cada vez mais com a pirotecnia e a cisão entre forma e conteúdo. 
Em tempos analógicos seria impensável separar conteúdo de suporte.
Daí que a escrita de próprio punho cunhava sobre o papel modos de ser e expressar... a grafologia fornecia uma possibilidade concreta de análise do individuo a partir de seus dados.

Com os processos digitais, conteúdo e forma se cindiram e hoje esta cisão acaba sendo "natural", até para propiciar links e hiperlinks que saem de um lugar e vão ao outro em ritmo de sons, imagens, textos e cores e que muito pouco possuem do traço do individuo.

De um lado, pode-se ter acréscimos se pensarmos em compartilhamentos de qualidades e que amarrem de fato ideias. Mas sabemos o quanto isso tem se distanciado do ideal.

Aqui temos outra dimensão do tripé: leitura, escrita e comunicação.
Enquanto a escrita de próprio punho possa sofrer alterações de ritmo e velocidade em função das tecnologias utilizadas, a leitura e a comunicação de ideias não possuem as mesmas características.

Apesar de programas facilitarem correções ortográficas e erros mais óbvios, eles não conseguirão extirpar problemas que tenham que ver com clareza e objetividade de ideias. Neste sentido a escrita tem um componente mais "braçal" no sentido de exigir da parte de quem escreve, esmerilhar as palavras e encontrar as que comuniquem com maior clareza suas ideias.

Em tempos de imediaticidade, contenção e superficialidade os textos, ainda que curtos, perdem muito da fluidez da boa escrita, pautada em boas leituras e concatenadas com raciocínio articulado. Essa "terceirização" que muitos estão fornecendo a corretores ortográficos e similares mutila e deforma conteúdos, mesmo os ditos profissionais.... infelizmente.

Com o tema encontramos a bifurcação entre a expressão comunicacional e seus suportes. Como um dado de suporte os meios que temos hoje chegam a agilizar pensamentos e formatar ideias. Mas é apenas, e tão somente, um meio. Se o que antecede a tudo que é formatação mental de uma ideia, um conceito que, ou o que quer que seja, não tenha um embasamento sustentável não haverá tecnologia que "concerte" isso.

Engraçado pensarmos como foi difícil todo esse processo. Lembro que no início escrevia tudo à mão para depois digitar com medo que tudo se perdesse.
Hoje em dia, tenho que confessar minha escrita manual está cada vez mais lenta.

Mas gosto de pensar que tudo é uma questão de escolha. Não creio em radicalismos, em especial o de simplesmente um decreto pondo o fim ao ensino da letra cursiva na alfabetização básica. Acho que as pessoas tem que ter a escolha... sem aprender fica um pouco difícil.

Essa facilidade que nós, da versão analógica sentimos, talvez não seja a mesma que as crianças sintam. Basta ver o fascínio que as telas sensíveis ao toque exercem até em bebês!

Notamos uma busca de ergonomia dos gadgets para que se assemelhem a modos que estávamos habituados a nos expressar, sendo a escrita cursiva uma delas, alguns inclusive incluem canetas e estilos em seus acessórios.

Estamos de novo com sinais de novos tempos e apropriações culturais de códigos e postura no ler e escrever. 
As sociedades nem sempre mantiveram os mesmos padrões para a leitura e muito menos para a produção do escrito. Essa relação foi desde o sagrado (já que dominar a arte da escrita aproximava o homem de sua divindade) à estruturas que colocavam o escriba como um alto funcionário do governo.
Era uma escrita técnica e absolutamente dominada por bem poucos.

A passagem para pergaminhos e tintas também não foi sem certa dose de elitismo já que era apenas nos mosteiros que elas eram realizadas e possuíam ainda essa característica de um poder concedido a poucos.

A imprensa e com elas os meios de disseminação da leitura, popularizaram posteriormente também a escrita. Foi a partir daí que as tintas ganhavam o papel e o imaginário das pessoas como forma de externar sentimentos e os séculos mais recentes, em especial o XVIII e XIX, conheceram a escrita romântica e o desenvolvimento das chamadas escritas ordinárias. Foi o época dos diários e da relação com a escrita como uma catarse. O século XX manteve boa parte disso e até mesmo técnicas de grafologia foram desenvolvidas exatamente para relacionar aspectos de personalidade com a escrita de próprio punho.

Hoje assistimos mais uma transformação. De novo com muitos questionamentos. É difícil estar em meio a toda essa transformação e entender para onde vamos. Só historiadores e outros pesquisadores de transformações sociais do futuro serão capazes de entender o que de fato se passou.

Talvez eu ainda seja romântica no sentido crer que a expressão pelas palavras deve vir em todas as formas e me encantam mais as palavras que seus suportes..

Talvez esse saudosismo que deixo transparecer pela escrita de próprio punho tenha que ver com uma pratica profissional e com uma experiência de vida.
O tema da escrita e seus suportes são, para mim, forte questão até por que transcende meu gosto pessoal e perpassa meu ofício: sou historiadora e a lida com suportes de outro tempo quase sempre uma constante. Dado que aí é impossível  não fazer as comparações. Ainda tenho muito vincado em mim a experiência da escrita de próprio punho.
Hoje em dia, as palavras deixam de ser pensadas e as correspondências giram em torno do imediato. Roubou-se a aura da palavra cunhada e da magia que seus complementos tinham (os selos, os papéis, os timbres, as tintas, o rebuscado de letras e formas, sua sinuosidade e curvas).

Apesar do ar saudosista tenho claro que as alterações no mundo em que vivemos são parte de um processo e que como tal não deve ser desprezado ou ignorado. Não vejo como um problema essa alteração que nossos tempos e tecnologias vêm imprimindo à escrita.
O desafio é grande por que não vem só com a escrita fonética é todo um conjunto, e o que é pior: avassala toda uma geração cultural.

Há ainda a questão do raciocínio lógico e o uso de operações consideradas básicas. Os alunos em geral têm passado longe dessa capacidade e o que vemos cada vez mais é um analfabetismo funcional que alcança os níveis de graduação.

Não culpo apenas o sistema de ensino. Volto a dizer que sou fruto dele e nunca estive em uma escola particular. Foi necessária muita determinação e empenho. Algo que parece meio em desuso pela maioria dos discentes. Muitos optam pela lei do menor esforço e em geral até a escolha de uma faculdade passa por aquela que não tem processos rigorosos de ingresso nem de permanência.

Mas isso é assunto para outro post...
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13 comentários:

  1. Ola Eliana:
    Espero ter entendido errado, mas...
    Escrever a mão, cursivo ou bloco, é uma arte que não terminamos de aprender nunca. O treinamento se faz no gerúndio diário e os elementos biológicos -pois mesmo para escrever no ar, precisamos usar certas partes específicas do corpo- em conjunto, são usados como em nenhuma outra ferramenta.
    A visão altamente compartamentalizada do burrocrata (sic) idealizador desta lei, me parece a culpada pelo seu engendramento. Se fosse traduzir a termos chulos, diria que: "é um verdadeiro tiro no pé"! Se não, vejamos:
    Somente na literatura académica há toneladas de material que consegue contradizer essa proposta. Históricamentee então, nos perderiamos na montanha de documentos... escritos a mão! O simples fato de existirem bem antes, e durante, a criação e evolução tecnológica, se é que usou este argumento para validá-la, deveria ser suficiente para poder inferir sua importância nos processos criativos. A leitura segmental, ou a falta e escamoteamento dela (leitura) como um todo, seria outro argumento.
    E contudo, não se enxerga o bosque porque as árvores atrapalham... escritos.
    Tirar das crianças em idade de alfabetização esta ferramentam que irão usar para sempre e que lhes libertará um potencial inesgotável de inovações (sim, inovações!) é um crime. Um crime que somente um cego, inepto, sem visão de futuro pode cometer impunemente.
    Vejam que nem toquei nos cursos nem nos cadernos e exercícios, de caligrafia, aqueles entes em extinção senão já extintos e estes dos quais ninguem mais se lembra.
    Me volto às inovações que, por não existirem precisam ser "desenhadas", a mão, a lápis, no cursivo!
    Mas, dirão; existem ferramentas tecnológicas que fazem isso muito melhor. Por enquanto, e até agora (ou me mostrem o contrario): pensar, pensamos melhor nas nossas cabeças. E há uma satisfação atávica ao ver o que desenvolvemos surgir à nossa frente, das nossas mãos, produto da nossa intenção gestual.
    Pelo menos, me sinto assim. É tão bom que acredito que compartilho com meus semelhantes a mesma sensação.
    Escrever um texto, desenhar um projeto, analisar processos de passos complexos... não importa o difícil, nem o tempo. O resultado, mesmo que com falhas aqui e ali, nos dará o mesmo orgulho que uma vez sentiamos ao descobrir que aquela sequência de símbolos contidas dentro do grafite infantil vinha cheia de significados.
    Ao apender a ler e escrever somos introduzidos à humanidade, como se nascidos novamente.
    Eu disse escrever, não digitar.
    Abs

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  2. Opa Eliana, esquecí disto:
    No cursivo, mudamos o estilo, a inclinação, as curvas. Todo um novo pensar. Intenção e gesto.
    Mas, mude o QWERTY de lugar e teremos que re-aprender a digitar do mesmo modo. E, lamentavelmente continuaremos pensando mecânicamente igual.
    Afinal, para mim; "Torpedo" não pode ser transformado em eufemismo para coisa carinhosa nenhuma!
    Abs

    LionelC
    1521

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  3. Oi Eliana:
    Acabei gostando tanto deste seu post, e dos comentários que fiz, que o transformei num post para o meu próprio blog: http://piyitosblog.blogspot.com.br/2014/07/maos-ferramentas-de-comunicacao-e.html.
    "Cabotino em extremo", já diria o Dr. Lopes, eu sei... mas, achei mesmo muito bom. Me divertí ao fazê-lo e rediagramar o texto.
    A convido a visitá-lo... aliás, convido todos.
    Abs

    LionelC

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    1. Oi Lionel....
      Oba!!! Que fantástico e que bom que serviu de inspiração!
      Fico muito feliz de provocar e inquietar desta forma!
      Gostei muito do post. É um tema tão vasto e tantos caminhos para percorrer...Sempre achamos que poderiamos ter dito mais ou ido além.
      Ficou muito interessante a perspectiva que deu sobre as mãos como ferramenta de inovação.
      E parabéns pelos desenhos! Sei que são teus!!!
      Abs e obrigada por ajudar a enriquecer a discussão

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    1. Ol@ Cristiane...
      Que bom que tenha gostado!
      Espero que sirva pelo menos para jogar a inquietação sobre a mesa e debatermos sobre isso...
      Abs e volte sempre!

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  5. Se for verdade, penso que isso é um grande erro, primeiro porque creio que a escrita cursiva ajude sim no desenvolvimento de outras habilidades, em segundo lugar, porque nem todos têm acesso a tais tecnologias, e se esta decisão ocorrer, estaremos condenando estas pessoas ao "analfabetismo" ou pelo menos à impossibilidade de treinar em casa as lições ensinadas na escola e em terceiro lugar, gadgets ficam sem bateria, cadernos e canetas, não!!!

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    1. Ol@ Clayton...
      Concordo plenamente com vc!
      Como dissemos acima, a escrita cursiva não significa apenas motricidade. Movimenta todo um conjunto de conexões cerebrais que favorecem o aprendizado, e não podemos deixar de pensar que é tbm tecnologia!
      Será uma grande perda de fato. Mas não creio que isso seja consenso por ora. É um debate que se estenderá no tempo e no espaço!
      Abs

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  6. Sua escrita, fluente, compreensível, profunda, é um exemplo em si de quanta diferença faz o desenvolvimento, ou não, da habilidade de escrever. Seja manualmente ou digitando num teclado. As cobaias de ideias radicais como a de não ensinar escrita cursiva nos dirão se a iniciativa valeu a pena, ou se foram vítimas de mais um experimentalismo da era digital. Chego a desistir de ler textos na Internet de pessoas que querem apresentar sua ideias, mas são totalmente incapazes de desenvolvê-las por escrito, e nem estou me detendo apenas nos erros de grafia, já que muitos desses aparecem escandalosamente grifados em vermelho enquanto escrevo isto. Falo da incapacidade de escrever frases minimamente coesas. Seria uma brincadeira estética à moda dos dadaístas se fosse proposital, mas, infelizmente, não é. O que levou uma pessoa a se formar numa faculdade ou curso técnico sem sequer saber escrever direito me faz crer que, muito além de experiências pedagógicas polêmicas, o que se vê é um reflexo dos direcionamentos a um mercado de trabalho no qual conhecimento é considerado equivocadamente supérfluo. Lembrando o que disse certa vez um palestrante numa orientação para o empreendedorismo: um homem semi-analfabeto era o melhor vendedor, levando o patrão a escrever um recado aos outros: preocupá menos discrevê pa vendê mais. E basta, aceita-se isso, se faz dinheiro é só o que interessa. Uma triste inversão do texto brilhante de Guimarães Rosa, que contava do moço que, embora de fala muito coloquial, conquistava diversos canudos em faculdades nas quais escrever não era "de preocupá menos".

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    1. Ol@ Dadí...
      Em primeiro lugar meu obrigad@!
      Escrever de maneira que seja claro é um exercício dificil!
      Não sei qto tempo não passa pelo blog, mas escrevi alguns posts sobre o assunto e neles falo sobre a escrita como sendo joia bruta que precisa ser polida (Escrita como metáfora) ou a importância de escrever bem mesmo sendo um executivo (Escrita executiva: escrever bem é coisa séria!). Escrevi-os exatamente porque vejo que cada vez mais as pessoas parecem ser incapazes de construir um parágrafo que seja que faça sentido e seja coerente...infelizmente.
      Quando puder passe por estes posts e confira!
      Abs e desculpa a demora: estava na lida com outros posts!

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  7. Olá Grupo, olá José e Eliana! Ótimo texto, assim como o artigo anexado, pretendo compartilhá-los com alunos de graduação. Esclarecedora a matéria da NYtimes sobre as relações entre a escrita manual e a alfabetização, sem deixar dúvidas sobre a sua eficiência. Gostaria de acrescentar à discussão, que dentro dos cursos superiores de arquitetura e design, por exemplo, temos esse e ainda um outro problema específico relacionado ao aprendizado de linguagem. O primeiro é de fato, um enorme contingente de estudantes com capacidade de leitura e escrita muito precárias já nessa geração, o que ocorre especialmente nas escolas particulares, porque não aplicam provas rigorosas para ingresso na graduação. O segundo problema diz respeito ao ensino de projeto aplicado à arquitetura e design, tanto na prática do desenho à mão livre, do croqui, do sketch, assim como do desenho técnico e do desenho projetivo, ambos modos essenciais e instrumentais à produção projetual. As simulações digitais dominam o campo profissional da arquitetura e do design fazendo crer ao iniciante que ele não precisará mais desenhar à mão nem à régua, esquadro e paralela, bastando ter domínio sobre os programas gráficos. Igualmente como quem lê e escreve mal, quem não desenha não consegue mensurar, representar, inferir sobre o espaço, muito menos propor soluções válidas e ficamos com um duplo desafio educativo. Assim como a escrita, o tempo do desenho manual (livre ou com auxílio de instrumentos), é o tempo da coordenação, da apreensão e reflexão, é um tempo lento mas necessário à sedimentação de conhecimento. Assim, iniciamos por alertar os estudantes para que invistam em muita leitura e principalmente na escrita e desenho... manuais!! Após o primeiro choque geral pela preferência "antitecnológica", os alunos se percebem realmente insuficientes, dado que as provas teóricas devem ser redigidas manualmente e os trabalhos iniciais de projeto apresentados sem uso de computador. Desde a chegada dos meios digitais, a obsolecência do ensino de desenho vem há vinte anos sendo debatida no meio e a prevalência ainda é pelo ensino do modo manual e após os primeiros anos de graduação, do digital. É interessante observar como apesar de imersos no mundo dos video games de última geração, do cinema 3D e de tantos malabarismos tecnológicos de simulação da imagem, há nesses mesmos estudantes ainda um grande encantamento quando finalmente entendem a puxada da linha com o lápis, em perspectiva rumo ao ponto de fuga, tornando como mágica, um desenho à mão extremamente legível! Abs!

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  8. Ter esse instrumento literalmente à mão, sem necessidade de aparelhos ligados numa fonte de energia que não seja o cérebro é fundamental, mas por outro lado é impossível ignorar que o desenvolvimento do CAD nos últimos quarenta anos ao lado de sua difusão comercial, o tornou uma das ferramentas mais utilizadas nos escritórios de arquitetura, concorrendo hoje com outros programas (Revit, Vector, SketchUp). O uso dos programas gráficos têm seu espaço garantido no meio profissional e mais recentemente, na história da produção da arquitetura e os desenvolvedores estão sempre buscando algo mais do que a alta legibilidade, a representação e a eficiência para que o CAD possa resolver problemas de síntese de projeto, para mediar contextos, ou seja, para vir a ser uma ferramenta inteligente e não simplesmente lógica e topológica. Há uma comparação interessante, onde a limitação de um progrma em resolver e equacionar de forma inteligente um problema de projeto é igual à do tradutor simultâneo quando nos devolve uma frase sem sentido: não há contextos. A experiência e a escolha estética, também é uma operação de difícil resolução para computadores.
    O caso é fazer entender tais evoluções na instrumentalização manual / digital dentro do aprendizado, ainda na fase de início de formação do profissional arquiteto e designer, considerando esses aspectos técnicos muito particulares, porque a instrumentalização visa um objetivo maior que é a projetação, a solução de problemas, a escolha dentro de contextos estéticos e econômicos. Sempre se construiu sem o computador, o conceito de geometria e de projeção ortogonal aplicado ao projeto veio bem depois do conhecimento de canteiro e tudo era feito de modo muito empírico, baseado na experiência com os materiais e técnicas disponíveis em dada época e lugar . O advento do desenho projetivo no século XVI proporcionou grandes mudanças no construir, com a separação paulatina do projetista do canteiro de obras, criando novas categorias de trabalho. Como essas ferramentas digitais podem efetivamente influenciar o surgimento de novas formas, técnicas e sistemas construtivos e assim a arquietura em si, esse é um momento que está em curso. Como o conhecimento das formas tradicionais de desenho, representação e projetação entram para o repertório em formação de um aluno juntamente ao uso de meios digitais, é esta a questão que deve ser dominada pelos educadores da área para que o futuro profissional tenha uma idéia clara do que está disponível a ele, como escolher, quais as vantagens e limitações de cada instrumento em cada fase do projeto. abçs!

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  9. Olá Stella....
    Excelente tua contribuição!
    ADOREI!
    Veja, como digo sempre sou apenas uma historiadora que fez os estudos de Mestrado e Doutorado na Linha de pesquisa Cultura e Cidades. Portanto, passo longe de pranchetas e desenhos. Mas o ponto que levanta é absolutamente relevante e importante na área de atuação da Arquitetura, Design, Engenharia... Não é por termos recursos tecnológicos que se pode prescindir do uso das mãos, réguas, compassos e afins...
    Vejo neste uso das mãos um sentido maior de proximidade com a arte, com a cultura do saber fazer...
    Considero igualmente legítima sua outra preocupação apontada e que tem que ver co o escasso repertório de nossos alunos. Esse tema me preocupa muito e inclusive escrevi um post intitulado "Chegamos ao fim da leitura?", cujo link esta aqui: http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/04/chegamos-ao-fim-da-leitura.html, onde procuro tocar este tema.
    Fico muito grata de trazerem esta outra perspectiva ao tema proposto inicialmente.
    Abs e grata pela interlocução

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