28 de dez de 2014

Feliz Olhar Novo!

Escrito e lido por: Eliana Rezende

(escolha a opção abrir com: 
Music Player for Google Drive)

Os fins de ano, como os fins de ciclo, nos obrigam a certas reflexões: e em geral é como olhar no espelho, nem sempre gostamos do que vemos refletido. Mas como sempre, é só uma percepção, sensação.

As vezes os sonhos vão bem mais longe do que nossas reais possibilidades no tempo.
O Tempo precisa de seu tempo e, às vezes, os sonhos possuem mais pressa. É apenas isso, um grande descompasso entre os muitos tempos de que são feitos nossos relógios de existência: há o cronológico, o emocional, o mental, o das expectativas. Duro fazer com que todos os ponteiros se encontrem em um preciso momento.

Por isso, preste atenção aos meus votos que servem para hoje, amanhã...sempre:

Desejo-te que tenhas a Paciência dos relojoeiros suíços e esperes que teus ponteiros simplesmente se encontrem a seu tempo e hora.
Não vou desejar que tenhas tudo; assim teremos garantido que continues a ter em prol do quê sonhar e buscar.

Desejarei que tenhas o Necessário: nem para sobrar para que não haja desperdício e nem falta para que não vivas a penúria.
Desejarei Saúde, pois sem ela todo o teu necessário não bastará e te faltará vigor para sorrir nas alegrias e força para as dificuldades.
Desejarei Paz e Harmonia, pois sem essas, reinos inteiros encontraram sua ruína, civilizações deixaram de existir e inocentes foram dizimados.
Desejarei que conheças a Solitude, que é a capacidade de viver consigo mesmo: já que quando todos se forem e restar você, ainda estarás em boa companhia.
Desejarei que não conheças apenas a Alegria. Viver a Dor é também um modo de aprender a Generosidade, Bondade e a Compaixão, por si e por quem está à tua volta.
Mas, caso a Felicidade venha, que ela habite você para que possas  doá-la a quem precisar.
Desejarei que conheças as interrupções. Elas te dão a possibilidade da inovação, criação e reinvenção. Sem elas, estarás sempre no mesmo lugar e poderás deixar de descobrir que o mundo pode ir bem além do quintal de tuas garantias e seguranças.
Desejo que tenhas Sensibilidade para nunca ficar indiferente às belezas que a vida tem e que estão ao toque do teu olhar, ao alcance do teu olfato e ao arrepio da tua pele.
Coragem para realizar, saber dizer Sim a todos os descuidos do Não.
Bondade para não desviar os olhos quando alguém te pede ajuda e nunca ser indiferente às necessidades do Outro.
Alegria para distribuir um sorriso para cada um que cruzar o teu caminho.
Humildade para que nunca esqueças quem és e de onde vens,
Amor próprio para conseguir enxergar o que tens de bom e simplesmente gostar do que vês.
Fé para te guiar, te sustentar e te manter em pé mesmo quando tudo pareça desmoronar e que o chão sob teus pés tenha faltado.
Tranquilidade para tocar a vida.... e ser tocado por ela.Sinceridade para viver a tua verdade,  gostando de quem és e buscando sempre o teu melhor.
Sonhos para alimentar teus projetos, alargar tua alma e te fazer sorrir.

Amor para te aquecer, tocar, acalentar...para te fazer ver que todos os outros desejos só se completarão quando o encontrar. Se o perdeu não se desespere...se encontrou não o perca! Se não encontrou...espere!

Por fim, te desejarei que encontres o caminho do meio... sem excessos e com o essencial.
Que estejas verdadeiramente pronto para o que de fato a vida te trouxer e que saibas brindar com ela!

Abraços e nos "vemos" no Novo!
Tim-Tim...


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12 de dez de 2014

Profissionais na maturidade como ativo organizacional

Por: Eliana Rezende

Tempos atrás lia sobre como o cérebro de meia-idade pode ganhar habilidades surpreendentes conforme envelhecemos, mas isso não ocorre para todos
Apesar disso, uma ressalva: só quem sempre manteve hábitos saudáveis e vida intelectual ativa consegue essa tão desejada superativação.
O cérebro parece escolher dar menos atenção ao lado ruim da vida.
Há nisso mais inteligência e sabedoria do que um cérebro jovem talvez seja capaz de perceber.

Acho fantástica essa perspectiva que a vida, o tempo, nossos neurônios e toda essa composição podem oferecer a nosso intelecto e a nossa essência.


O tema sempre encontra eco, até porque todos os que se mantém com atividades sentem essa forma que a vida encontra para dar-nos dias, ao mesmo tempo em que o intelecto deixa de competir com o físico, e descobrimos que apesar das marcas da vida, a sabedoria dos anos nos faz bem melhores.

Dá-nos um certo apaziguamento da alma saber que crescer em anos não significa necessariamente perder!

Esse raciocínio nos dá uma outra perspectiva de vida. Afinal, vivemos em um mundo tão voltado para o exterior e para as aparências que imaginar que os anos nos trarão maiores e melhores condições para nos relacionarmos com nossas idéias, parece ser mesmo uma grande vantagem. Uma sociedade que luta constantemente para manter a juventude, ainda lida mal com a passagem do tempo.

No decurso de minha experiência profissional, lidando muitas vezes com a coleta de depoimentos em Projetos de Memória Institucional, recebo inúmeros relatos de pessoas que se sentem, aos 60, 70, 80 e até 90 anos, com mais vigor mental e intelectual do que anteriormente nas suas existências.

Pense em Oscar Niemeyer por ele mesmo. e o veja falando sobre seu trabalho


A juventude, por mais irônico que pareça, traz mais sobressaltos e inquietações.
Daí pensarmos a relação íntima e altamente produtiva entre senescência e conhecimento. O casamento de ambos traz às organizações possibilidades incríveis e trazem às mesmas o que se chama de capital intelectual nas organizações.
Conheça um pouco sobre um e outro:
Senescência & conhecimento from Lionel Bethancourt

Em geral muitos descobrem, por exemplo, que a escrita ou produção intelectual neste momento da existência encontra poder criativo muito maior e que há agilidade de idéias: a alma liberta-se e todos ganham.
O repertório que trazemos conosco não envelhece jamais. 
Estamos sempre recriando e renovando: mesmo que sejam ideias antigas, pois o olhar de hoje carrega outras experiências que no momento anterior não tínhamos. 
Ter essa perspectiva liberta e mostra que o tempo é mesmo um grande aliado de nossas existências, e que o corpo é apenas um invólucro que carrega nosso verdadeiro tesouro.
Fantástico ter a exata noção de que, tal como um músculo, o cérebro quando exercitado, nunca deixa de responder. E que o tempo aliado às experiências vividas e experimentadas podem fornecer conexões muito mais certeiras do que as que ocorrem nos jovens: já que estes contam apenas com o que lhes é extrínseco. Ainda aprenderão a transformar vivências em experiência.
São de fato, os artifícios que o tempo e a existência nos oferecem e brindam.
Importante pensar o tempo não como uma caminho de perdas! Pode e deve ser um caminho de libertação, já que maduros deixamos as inseguranças e inexperiências próprias da juventude para trás. 
Ganhamos a possibilidade de aliarmos experiência com ação. E isso cá entre nós é o caminho para alargamento do espírito!
E isso que as instituições precisam e devem perceber. Nossa sociedade está envelhecendo e manter-se-á muito mais tempo em período de maturidade do que o seu contrário. Vale a pena redimensionar conceitos e valores. Só assim este beneficio se estenderá à pessoas, organizações e sociedades.
De tudo, o que sei é que importa bem pouco qual seja o artificio dos neurônios em festa e confraternização outonal: o que conta mesmo é que não estejam em fuga como tantos profetizavam.
Com isso as passagens das cifras numéricas que insistimos em chamar de anos sejam apenas e tão somente cifras, e para o bem de todos descobrimos que é bom "ler" o mundo com todos os nossos neurônios mais maduros e sensíveis.
São flores e frutos do outono de nossas existências!
A passagem do tempo pode fazer muito mais do que trazer linhas de expressão: vincam a alma e nos talham. Nos lapidam para melhorar.
Oxalá seja sempre assim!
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30 de nov de 2014

Bem vindo ao Facebookistão!

Por: Eliana Rezende

Numa galáxia distante, em meio à poeira cósmica de eras e eras analógicas, surge um novo planeta. É azul quase que em sua totalidade, e conta, a partir de seu surgimento meteórico com milhões de seres. 
Atordoados pela imprevisibilidade do novo e um aumento vertiginoso sem precedentes na história galáctica de novas estrelas seu povo busca sobreviver. 


Culturalmente unem-se entorno de seu planeta azul, que ganhou o nome de Facebookistão.
O Facebookistão é um local onde a tristeza não existe! 
Suas fronteiras estão sempre abertas: qualquer cidadão pode solicitar ser integrante. Basta apenas aceitar seus termos de adesão. As letras são miúdas e basicamente camuflam que a partir de então você estará abrindo mão de sua privacidade. Transformar-se-á em dados que poderão ser utilizados ao bel prazer das autoridades locais. 

Todos tem muitos amigos, e sempre estão dispostos a aceitar mais um. Alguns colecionam centenas de amigos, mas em geral se relacionam de verdade com apenas 3 ou 4 em média. Apesar desta concepção de comunidade, contraditoriamente, inventaram o SELFIE, mas isso é lá uma outra história desse povo com hábitos tão estranhos.

No Facebookistão todos estão sempre se divertindo. A ordem é curtir! Ver e ser visto.
Seus habitantes podem ser facilmente identificados: olhos arregalados, língua à mostra e as mãos fazem gestos que podem ser codificados pelos das mesmas tribos, sorrisos são obrigatórios.  Todos precisam ser sarados, espirituosos, divertidos, extrovertidos, bem sucedidos, faceiros e viajados. 

Falando em fronteiras: o Facebookistão apesar de surgimento recente numa jovem galáxia mostrou-se ambicioso, e rapidamente buscou estender seus domínios, e assim, avança impiedosamente sobre todos os que de alguma forma possam representar ameaça à sua recente soberania. De tal sorte, a propaganda homogeneizante é a de que não há lugar melhor e mais feliz para viver e compartilhar. Aos insatisfeitos resta apenas o abandono da galáxia. Aos que ficam, a doce sensação de que este é o melhor dos mundos! Estes, defendem o Facebookistão como sendo o local onde podem estar junto com todos e a fantasia de nunca estar só é o motor que faz com que tudo se justifique. O patriotismo militante de seus integrantes é facilmente visto e seu território é defendido passional, cega e acriticamente.



Algumas patologias, infelizmente, são favorecidas pelo clima do Facebookistão: por causa de uma densa névoa, muitos de seus habitantes não podem ser identificados e com isso são capazes de espalhar através de sua presença virtual muitas formas de ódios, preconceitos, xenofobias, violências e vários tipos de crimes. As autoridades do Facebookistão se justificam e dizem que trabalham duro no sentido de melhorar tal situação, mas pesquisas desenvolvidas ainda não encontraram uma cura para tal mal. 

Apartados de seus semelhantes começam inusitadamente descobrir que possuem um dialeto comum, o que favorece sua comunicação. O alfabeto não precisa ser complexo e nem mesmo ideias necessitam ser muito elaboradas e desenvolvidas. Seu povo, de hábitos culturais diversos amalgamam-se e possuem uma preferência grande por representações imagéticas. As mesmas igualmente não precisam de muita elaboração. Seus defensores argumentam que é preciso comunicar-se da forma mais imediata possível. Para isso, surge um léxico variado, como: ; ), \o/, : ( ,

O Facebookistão também enfrenta um sério problema com seu dialeto: as palavras estão desaparecendo e cada vez mais volta-se ao uso de sinais imagéticos. Seus habitantes possuem deficit de atenção e só conseguem se comunicar por sons ou imagens. As autoridades também não sabem como solucionar isso e uma das primeiras medidas foi sempre limitar o número de botões disponíveis em comunicações tanto oficiais como coloquiais. Imaginam que com isso conseguirão conter o avanço novas criações vocabulares.  

Já que no Facebookistão todos são muito felizes, é óbvio que são muito positivos em tudo e por isso não possuem alternativas como NÃO GOSTEI! 
Imaginem que fantástico! Só existe o GOSTEI!
Fiquei muito interessada nisso e pensei como seria a vida prática desta pessoas. Imagine um planeta onde a dúvida simplesmente não existe? Afinal, você pode gostar das coisas, mas não gostar ou duvidar simplesmente não existe?! 
Em conclusão rápida no Facebookistão não há, portanto, pessoas inseguras, divididas. Para que?


Descobri também que por serem adeptos apenas de botões e imagens todas as suas atividades militantes, afetivas, doutrinárias, profissionais passam por um stream que chamam de linha da vida. Como num cortiço todos podem ver e ser vistos. O Facebookistão é mesmo um lugar de ruas largas e trânsito incessante.

A principal atividade é o compartilhamento. A preferência é sempre por uma foto e uma frase. Assim qualquer um, por mais desavisado que seja consegue pelo menos passar os olhos.
A moeda de troca neste mundo cheio de compartilhamentos é a visibilidade: ganham-se seguidores, amigos e claro: likes de montão. Como em qualquer atividade capitalista a busca por tal moeda aguça invejas alheias e todos buscam os gráficos, infográficos e números dos outros para os superar.

No Facebookistão as cifras são muito importantes.
Tão importantes que se convencionou dizer que toda a obra compartilhada deste povo tão voluntário nunca sofrerá destruição. Estão condenados à existência digital eterna.

No Facebookistão está garantido o direito à eternidade. Compartilhamentos terão garantia de vagarem pela eternidade em rede. Apesar disso, e para os que acreditam e possuam fé pode-se providenciar um Memorial. No entanto, e estranhamente, como compartilhamento é uma moeda de troca, não poderá ser herdado por ninguém. Ao morrer, seu proprietário só poderá permitir a existência eterna ou a criação de um Memorial para homenagens póstumas. Enfim, leis próprias de um mundo muito particular.


Num planeta de tanta felicidade, resta saber qual seria o passatempo favorito. Observando conclui que é o consumo. Consome-se frases, imagens, videos, piadas, bisbilhotices, fofocas, preconceitos, vilanias, xenofobias, partidarismos. Mas o campeão absoluto e isolado de consumo é o Tempo! Quanto tempo se consome no compartilhamento! Concluo que muitos estão querendo aumentar suas cifras para garantir algo que não consegui entender bem o que seja.
Mas como é um povo de hábito estranho, desisti de entender, e segui.

Seu povo, como em várias supostas democracias acredita que é livre. Mas em verdade vivem sob os humores, vontades e desígnios de um ditador:  Z é o seu nome. Como ditador, Z faz as leis e mesmo os que o servem em altos escalões se ousarem desobedecer são  alijados de tudo e mandados embora de seus domínios.  Ao seu lado, Z conta com o poder de uma influente rede de investidores que precisam muito da mão de obra voluntária dos habitantes do Facebookistão. O compartilhamento e seus dividendos são fundamentais para o estado de "bem estar" e valor que Z e seus aliados querem.
E como ocorre em todos os grandes domínios, os vassalados por Z acreditam que tudo o que este faz é para a felicidade geral de todos.

Mas, como ocorre com todas as sociedades de galáxias distantes, o Facebookistão também está vendo sua população envelhecer. Os jovens, descontentes e ansiosos por mais novidades, migram para outras galáxias e deixam no Facebookistão seus pais e avós. Z terá problemas de mão de obra e saturamento no mercado por compartilhamentos viciados e repetitivos. Além de óbvia concorrência de mercado.
Tempos de decadência... e de dúvidas também: será que conhecerão como tantas outras galáxias a destruição? Ou sofrerão um processo de fusão cósmica. Ninguém sabe!

Enquanto isso, seus habitantes começam a conhecer a senilidade em rede, enquanto esperam um novo Big - Bang digital.

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12 de nov de 2014

Conheça e desenvolva seu FIB (Felicidade Interna Bruta)

Por: Eliana Rezende

A colonização pelo econômico em campos que tenham que ver com a felicidade humana de sociedade e civilizações é uma boa pauta.
Quando os noticiários não se cansam de falar de índices de PIB (Produto Interno Bruto), taxas de juros e aplicações e de como isso impacta a vida das pessoas, fico cá com meu pé atrás.

Isto porque, são índices exteriores ao indivíduo que, pouco ou nada, têm a ver com índices de satisfação e felicidade individuais. Não creio que tais índices, métricas, variáveis deem conta de trazer elementos que, de fato, auxiliem e façam jus à uma economia a serviço da satisfação humana.


O PIB (Produto Interno Bruto) serve apenas para mensurar e aplicar índices a mercadorias e bens de consumo. Tê-los não representa valor numa economia não monetária onde os bens são imateriais e intangíveis, tais como saúde, vida plena, família e afeto.

O PIB mesura tudo, menos aquilo que de fato faz a vida verdadeiramente valer a pena.
Um exemplo disso é, neste caso, os EUA. Desde os anos de 1950 seu PIB cresceu 3 vezes. No entanto, os americanos de hoje sentem-se mais infelizes do que os daquele período. O que nos faz parar e perguntar: se PIBs altos são tão fundamentais porque a discrepância nos índices de felicidade e satisfação?

Diria que o tema não é apenas pessoal, em um universo restrito. Tanto que a ONU lançou em 2013 um segundo Relatório Mundial da Felicidade.
Para sua elaboração, foram tomados nove índices que mensuram esta sensação de felicidade nos países.

Graficamente teríamos:


Tomando tais variáveis alguns economistas elaboraram o que veio ser chamado de Paradoxo da Felicidade. O economista Richard A. Easterli, em 1974, afirmava que este paradoxo se assentava em algumas assertivas:
  1. Em uma sociedade, os ricos tendem a ser mais felizes do que os pobres.
  2. Sociedades ricas não tendem a ser (muito) mais felizes do que sociedades pobres.
  3. O enriquecimento do País não leva, necessariamente, à felicidade.
Saindo na frente de todos nós, e tomando isso como uma política não apenas social mas de governo, está o pequeno reino do Butão.

Pequeno geograficamente, o Butão é um reinado hereditário nas encostas do Himalaia,
espremido entre a China, a Índia e o Tibet. Sua população não chega a mais que dois milhões de habitantes, e sua maior cidade, que também é capital chama-se Timfú e conta com apenas cerca de cinquenta mil moradores.

Seu rei, Jigme Singye Wangchuck - que é monge governante - tem como política pública tomar em conta a Felicidade Interna Bruta de seu povo. Mas como conseguir índices positivos nesta seara?

Tendo políticas públicas de uma boa governança, uma justa e equitativa distribuição de renda - que vem dos seus excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal, criação de animais e venda de energia à Índia - ausência de corrupção, garantia de educação e saúde de qualidade, com sistemas de estradas transitáveis em meio à suas montanhas e coroando tudo relações de cooperação e paz entre o povo. Poderiam, por N caminhos, aumentar a renda per capita de seus habitantes, acabar com suas reservas naturais e áreas de mangue e começar a fornecer energia para a Índia. Mas conseguiriam manter seus índices de felicidade no patamar que estão?
Para seu governante a resposta é: NÃO!

Óbvio que em muitos casos me dirão: mas isso é impossível de se obter em regimes capitalistas, tais como os que temos no mundo ocidental.

É provável que sim.
Mas e que tal buscarmos em nós mesmos, tal como fazemos poupanças ou aplicações pessoais, encontrar um índice pessoal de Felicidade Interna?
Nessa aplicação e rentabilização da Felicidade iríamos priorizar o que de fato importa: aquilo que somos e não o que temos. Aquilo que construímos internamente e não aquilo que compramos. Aquilo que conquistamos pelo autoconhecimento e não aquilo que um cartão de crédito compra. Nosso maior latifúndio seria estender as fronteiras de nossa alma, com amplos dividendos para o cultivo de sabedoria e conhecimento.

A rentabilidade poderia ser ainda maior se houvesse também a aplicação em investimentos futuros.
Ensine os pequenos a valorar desde crianças. Afinal, quanto de fato vale um brinquedo, um passeio, uma guloseima?
Ensine cidadania e valor com responsabilidade.
O futuro agradecerá!


Numa visão economicista e medianamente pragmática, diriam: mas, para quê?
E uma resposta possível seria: porque esta riqueza amealhada não será consumida por inflação, especulação, juros. Estará comigo onde quer que esteja, sem intermediários, atravessadores, especuladores. E o que é mais importante: nenhum ladrão poderá roubar, nenhuma calamidade poderá tomar.

A alma alargada e feliz, será plácida e porto seguro em todas as turbulências da existência.

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4 de nov de 2014

Espólios e escombros de uma campanha

Por: Eliana Rezende

Talvez me coloque entre a miríade de pessoas que escreveram sobre o pleito de 2014. Mas é impossível para eu que sou ma observadora contumaz da sociedade e seus espaços de usos & abusos limitar-me ao silêncio ante tantas coisas.

Em outras oportunidades expus minha indignação quer contra o que chamo de desinformação como tática midiática, quer o voto paulista (de difícil compreensão para mim, mesmo sendo uma nativa, e por isso o chamei de desagravo paulistano) ou a forma que as redes e a mídia partidarizada ofereceram espetáculos à parte, patrocinando e dando visibilidade a ondas xenofóbicas, preconceituosas, de rancor e ódio entre supostos iguais. Além é claro, de pensamentos unilaterais e monotômicos.


Mas neste momento creio que seja importante posicionar-me ante o que considero a coisa mais importante, e o bem pelo qual todos temos que zelar que é a nossa Democracia.

Não podemos nos eximir da responsabilidade ante ondas de xenofobia, preconceito, xingamentos e ódio partidário. Democracia, tolerância e respeito devem vir antes de tudo.

Para além de tudo, não me ocuparei de ficar falando do suposto vencedor do pleito. Já há muito material produzido, pró e contra. Me aterei a outros aspectos. Explico: 

Alguns diante do quadro pós-eleitoral, dizem que o país precisa é de alternância de Poder. Por minha ótica, creio que mais do que alternância de Poder temos que ter Oposição eficiente. Nossa Oposição fez-se mais débil do que o próprio Governo! Em geral, se pegam em pequenas rusgas e briguinhas a toa, de preferência advogando em causas muito próprias. E Política quando é feita de forma pequena encontra como resultado também resultados pequenos.

Para além de tudo temos que entender o que é um jogo democrático: ninguém perde uma eleição! Todos ganham! O vencedor é Situação e o vencido é Oposição. É desse jogo, que deve ser bem jogado, que a Democracia frutificará. Um partido de Situação só fica anos a fio no Poder se sua Oposição fez um péssimo trabalho!

Assim, se todos exercerem bem seus papéis todos ganham! O que não é admissível é desmerecer o voto democrático. O jogo democrático precisa ser jogado respeitando-se as regras. E perder não é vergonha! É responsabilidade! Tem-se a responsabilidade de fazer melhor que a Situação. E aí a Democracia se faz para o bem, não de indivíduos, mas de toda uma Nação. Independente de território, cor de pele, gênero, religião ou opção sexual.

O que digo é que tudo tem dois lados e que Democracia precisa e deve ser feita de Situação e Oposição. Sem isso claro tudo é apenas fumaça para turvar sentidos. O papel da Oposição é exatamente fazer com que Situação faça o que seja seu dever igualmente democrático. Eles têm o dever de vigiar e propor. Críticas sem proposições não servem a ninguém e indicam apenas o caminho mais fácil. Sem proposições há apenas esvaziamento do sentido de crítica.

Precisam entender que que não podem ficar encastelados na Câmara ou no Senado. Precisam ir à sociedade. Sem esse laço perdem lastro e comunicação e mais uma vez serão esquecidos e menosprezados pelos que são seus eleitores. É preciso se reinventar como Oposição. Terão que construir tais pontes ou perder legitimação. Se a Oposição fizer o papel de ir contra a Democracia estará indo na contramão do que seja sua função. E o que é o mais importante: Oposição não é campanha e nem palanque.

Ao cidadão comum cabe politizar-se: ler na linha e na entrelinha tudo o que ocorre a sua volta. Não servir como massa de manobra.
É só isso! Precisam ir atrás de quem depositaram seus votos, em todas as instâncias de Poder.

Acho que todos queremos uma Democracia madura. O que talvez esteja inviabilizando seja as pessoas agirem como torcidas de futebol. Não apenas agindo como falando de uma arquibancada ( o que inclui xingamentos, desrespeitos e impropérios). Proposições políticas precisam ir além de passionalidades: precisamos olhar de lado a lado. Em verdade, escolher um candidato deve ser por um Projeto. Esse candidato pode ter lá seus defeitos e é legitimo que consigamos vê-los! O outro não precisa ser um inimigo a ser "morto". Será apenas preterido em favor de outro através de nosso voto.
Isso é o que as pessoas estão esquecendo.

Ao mesmo tempo, quando um candidato for eleito, seu oponente será imediatamente eleito Oposição. Em verdade, são dois cargos em disputa. Situação e Oposição. Governos pífios apenas existem porquê tiveram uma Oposição ainda pior! Por isso minha afirmação. Se este partido (tão criticado por setores da sociedade) está há 12 anos no poder é porquê faltou à Oposição consistência, projetos, fibra, proposições, alternativas ao dado.

Um outro grande mito que vejo que está sendo construído, é de que o PSDB, como partido, saiu fortalecido desta eleição. Não creio que seja bem assim.
Explico: tiveram sim uma expressiva votação neste pleito, mas não por serem um partido coeso e em torno de um Projeto Político para o Brasil. A única bandeira empunhada e aceita por seus eleitores foi a de representar uma legenda anti-PT. Isso muda tudo de lugar, já que um percentual muito alto destes votos iriam para qualquer um que representasse oposição ao PT. Portanto, vejo que o PSDB tem um trabalho muito grande pela frente, em especial se sonha com uma disputa em 2018. Ao se analisar os que de fato são exclusivamente de Aécio veremos que os números do pleito murcharão.
Ou será que é preciso lembrar os índices obtidos por Marina Silva no primeiro turno deste pleito? Chegava a 52%. Numa demonstração clara de que o voto era anti-PT e não pró Aécio ou PSDB.

Não podemos esquecer, como nos faz lembrar Jânio de Freitas:
"(...) Os ausentes na votação foram 30,13 milhões. Os que anularam o voto, 5,21 milhões. Somados também os que deixaram o voto em branco, totalizam-se 37,27 milhões de eleitores. Ou 27,44% do eleitorado. (....)"
Não há portanto, um país dividido: há sim um pais multifacetado. E mesmo a expressiva votação de um e de outro ainda não é o BRASIL. Ambos tem muito pelo que lutar e provar a que vieram!

Ainda é bom lembrar, para efeito de representatividade democrática que Dilma não teve menos de 40% dos votos em nenhuma das 5 regiões do Brasil. É claro que o voto majoritário foi no Nordeste chegando a expressivos 72% na região contra os 41% dos votos válidos no Sul do Brasil.

Um outro equívoco recorrente: O PSDB perdeu por causa das derrotas em Minas Gerais. É verdade que foram 3 grandes derrotas: duas foram de Aécio, pois não superou a candidata Dilma e a 3ª foi por não ter conseguido eleger seu candidato a governador.

Mesmo se ganhasse em seu Estado natal, Aécio Neves (PSDB) ainda teria dificuldade em se eleger. Dilma Rousseff (PT) teve 52,4% no Estado e o adversário, 47,6%. Se o tucano tivesse invertido esse resultado e ganhado os 550.601 votos que a rival ganhou a mais em Minas, ainda faltariam 2,3 milhões de eleitores no resto do Brasil. Na votação total de Aécio, Minas representa 11%, menos que a soma de Santa Catarina e Bahia. Para mais análises e infográficos confiram o link:
 

Dos erros comuns creio que o maior deles foi tanto Dilma quanto Aécio ficarem arrastando seus cadáveres (Lula e FHC). Ambos figuraram num outro cenário político, social e econômico dentro e fora do Brasil. Perdeu-se tempo demais com o passado, sendo que é o presente e o futuro que temos que discutir e trabalhar.
Igualmente dos dois lados, precisam encontrar formas de dialogar com os setores do eleitorado. Aécio com as camadas mais populares, Dilma com os empresários e áreas financeiras.

Em verdade, o que sinto nos dias de hoje é que temos um partido consolidado que é o PT (com forte militância e ideologia) e os outros. Qualquer um que queira ser opção a esta legenda terá que buscar ser Oposição no sentido pleno e de direito. Do contrário representará ideias sectárias presentes em qualquer partido nanico sem representação.  Ou poderá fazer ainda pior: servir de guarda-chuva que aceite e abrigue qualquer um que deteste o PT, e aí teremos o mais sórdido dos movimentos de direita, conservadores e retrógrados que desde a ditadura ficaram alijados da sociedade democrática.

E mesmo seu principal postulante, o Senador Aécio Neves, terá que ter maior presença no Senado do que teve até aqui. Em 2013 e já com 4 anos de mandato ficou com o pífio 30º lugar entre os demais Senadores da casa, com nota de 3,8. O ranking dos parlamentares é feito anualmente pela revista VEJA, desde 2011, com a colaboração do Núcleo de Estudos sobre o Congresso (Necon), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). Confira ranking: 

O seu desempenho foi resumido, de acordo com matéria veiculada na Folha de São Paulo como:
“(...) Aécio apresentou 20 projetos — nenhum deles aprovado de forma definitiva — e relatou apenas 10 dos 45 projetos que foram enviados ao seu gabinete. Os demais, devolveu, não se posicionou ou foram retirados de pauta (...)
“Dos 20 projetos que apresentou, 13 ou representavam mais gastos ou menos receita para o governo federal.”
A campanha do PSDB, segundo Renato Pereira, ex-marqueteiro de Aécio cometeu o erro de "pregar para convertidos". Esqueceu-se de que tinham que olhar para os que não votariam nele e conquistar seu voto. Falharam em algo muito primário. Optar por ficar numa zona de conforto, levou-os a não dialogar com setores que não estavam alinhados ao PSDB.

Ou seja, a legitimação numérica de votos em urna precisa ser revertida para um bom desempenho como Oposição. Do contrário, poderá sofrer o mesmo que Marina Silva. Dona de um recall interessante, perdeu-se em meio à opções e divagações de posicionamentos e ideias.

Diante de tantos equívocos, feitos no passado corre-se nos dias pós pleito o perigo de cometer o "pecado da vaidade".

Nas palavras de Renato Janine Ribeiro:
"O partido não pode partir da convicção de que seus 48% estão mais garantidos do que os 51% de Dilma. A "hybris", como chamavam os gregos ao orgulho desmedido, acarreta a desgraça. O PSDB e seus eleitores cometem demais o pecado da vaidade. Eles sinceramente se creem injustiçados, quando perdem uma eleição deste porte.
Como o eleitor não viu que nós somos os melhores? perguntam-se.
Nenhum líder tucano pensa em golpe, mas quando malucos apelam às Forças Armadas ou querem o impeachment já, partem da crença de que não só há candidatos que valem mais, mas também eleitores - e votos - que valem mais. E portanto outros eleitores valem menos.
Líderes têm que saber conter seus extremistas
Soma-se outro problema: a dificuldade dos tucanos de perceberem o mundo em que hoje vivemos.
 O que é errado, pois toma um pequeno número por todos. Mas repito o que já afirmei: se Aécio tivesse condenado os que gritaram VTNC para Dilma na abertura da Copa - em vez de dizer que expressavam o repúdio da sociedade ao PT - esses grosseiros continuariam votando nele, mas ficariam calados. A voz mais frequente do PSDB seria moderada, educada, enfim, o que esse partido deveria ser. Mas os líderes parecem ter medo de fazer isso.
Parece que temem perder votos, esquecendo que a franja extremista de seus eleitores e blogueiros não teria alternativa viável ao tucanato. Não basta o partido se atualizar na questão dos costumes e entender melhor os pobres: é preciso que seus líderes efetivamente liderem no plano dos valores.".
Escrevo e até o presente momento nenhuma liderança do PSDB se posicionou em relação a tais manifestações que nada tem que ver com democracia. Liderança é também nestes momentos. Não se pode capitular!


É provável que ainda tenhamos que contabilizar ainda mais espólios e escombros deste pleito, mas sem dúvida não somos mais os mesmos e esperemos que a Democracia vá encontrando maturidade e equilíbrio. É da arte de coexistência entre diferentes que a sociedade vive e a Política sobrevive!

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29 de out de 2014

Se não está Google, será que existe?

Por: Eliana Rezende



Interessante a pergunta, mas ela não é minha. O pessoal do Programa Pé na Rua, da TV Cultura, levou esta questão para as ruas para ver o que e como pensam as pessoas.

Veja só as respostas que tiveram:


Apesar da pergunta não ser originária minha vejo que é uma pergunta que está diretamente ligada aos chamados nato-digitais.
Interessante como uma ferramenta em poucos anos pode ter alcançado um estado de unanimidade em especial pelos mais jovens. No programa é nítido como o mundo para além da Googlelandia quase não existe!
Percebe-se nitidamente o espaço de inconsciente coletivo que esta ferramenta alcançou.

Vejo que um bom caminho seja desenvolvermos um sentido de crítica ao dito e ao escrito, que pelo visto vem faltando para muitos. A dúvida e o espírito investigativo também precisam de uma maior lapidação: do contrário formaremos apenas uma geração de respostas prontas!

O caminho essencial é que consigamos que os mais jovens descubram que tudo o que temos são ferramentas. A construção do conhecimento passa por outra via e que tem absolutamente a ver com essa inquietação investigativa, espírito crítico e boas perguntas. Sem elas o que temos é só a "coleta" de informações. Em vez de produtores transformamo-nos em coletores e reprodutores. O mundo precisa de mais do que isso, não é mesmo?


Há duas coisas aqui: uma é a possibilidade de buscador que o Google oferece e que como tal representa uma resposta algorítmica àquilo que estamos buscando. Apenas e tão somente isso: é uma máquina que responde como uma.

De outro lado, há nós, os que não somos capazes de comportamentos algorítmicos, mas que temos a nosso favor a possibilidade de repostas que se baseiam em pensamentos críticos, e portanto individuais.
Se tomarmos a concepção de Lévy-Strauss e Castells, para citar alguns, que a inteligência humana poderia se expandir a partir do ciberespaço (que seria uma inteligência coletiva), o Google vem na contramão propondo buscas customizadas a partir do indivíduo. Com isso funcionaria como um limitador para a expansão e o desenvolvimento desta inteligência que ocorreria de forma natural sem sua interferência.

Para além disso, temos que pensar que toda a rede (inclui-se aí Google, Bing, Facebook, entre outros) há um sempre presente interesse mercadológico por trás. E de novo, os resultados obtidos customizados por indivíduos estarão cada vez mais voltados, não provavelmente para o que você quer ou busca, mas para o que tais buscadores e plataformas querem lhe mostrar.
E caímos na via oposta à dos objetivos pelos quais a internet começou a se expandir: a liberdade.

Dando-nos a errada sensação de que somos nós quem está fazendo as buscas e encontrando os resultados. Em verdade o Google nos direciona ao que Ele quer. E faz isto de tal forma, que exclui todas as outras possibilidades, nem nos disponibilizando as demais. Esta falsa sensação de autonomia com liberdade, mascara o quanto nos tornamos reféns fáceis de um mecanismo.

Um dos precursores da realidade virtual e crítico da web 2.0, Jaron Lanier defende um caminho diferente para se utilizar a rede. Ele é defensor de uma internet aberta, mas não completamente gratuita. A questão levantada por Lanier é estrutural. O problema é que a rede, gradualmente, direciona e agrupa os usuários em blocos. As informações ‘sugeridas para o seu perfil’ escondem uma variedade enorme de outras possibilidades e, ao categorizar por ‘gostos’, tornam o usuário um produto bem definido para publicitários, por exemplo. Ou seja, no modelo atual, quem lucra mais são os sites de busca e as redes sociais, e quem sai perdendo são os criadores, que dependem dos direitos autorais para viver.


Todo nosso rastro tecnológico por sites, likes, links e afins, indicam exatamente quem somos e nosso perfil consumidor, com quem nos relacionamos, nossas preferências e crenças. Tudo engendrado de modo a nos transformar em produto de nós mesmos.

O maior risco de tudo isso é o Google pouco a pouco transformar-se ao olhos de seus usuários, na única e melhor lente para olhar e entender o mundo. Dá-se à ferramenta o sentido extremo de onipresença e onisciência.

Além de tudo, institui-se uma preguiça pela pesquisa. Comodamente, as pessoas preferem seguir as listas indicadas pelo Google e muitas sem fazer uma análise criteriosa, simplesmente "consomem" como sendo o certo, o melhor, o único.

SivaVaidhyanathan realiza uma análise crítica a respeito dessa poderosa organização,
“cuja missão consiste em organizar toda a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil.” (VAIDHYANATHAN, 2011, p. 16). 
[...] o Google nos avalia e constrói seus sistemas e serviços de modo a satisfazer nossos desejos e fraquezas. O Google funciona para nós porque ele parece ler nossa mente – e, em certo sentido, é o que faz. Ele adivinha o que uma pessoa está procurando com base
nas buscas feitas por ela e por outros iguais a ela. (VAIDHYANATHAN, 2011, p. 66).
Vaidhyanathan esclarece que o algoritmo PageRank do motor de busca do Google fornece 
listas de opções bem apropriadas mesmo que o termo digitado seja vago, enquanto o 
usuário nem tenha mentalizado exatamente o que deseja:
[...] Além disso, o Google nos condiciona a aceitar essa lista e acreditar que, de fato, ela nos oferece o que queremos. A capacidade de sugestão do Google Web Search, explicitada pela lista de opções que aparece quando começamos a digitar, é a mágica que nos aprisiona. De muitas maneiras, o Google nos avalia e compreende melhor do que nós próprios o faríamos. (VAIDHYANATHAN, 2011, p. 66).
Portanto, vejo a "brincadeira" do Programa Pé na Rua em pôr em xeque esse status de "verdade" que o Google acaba tendo muito instigador. Faz-nos ver que as pessoas tornam-se consumidoras do que muitas vezes é postado e veiculado sem uma preocupação crítica com sua autenticidade. Toma-se os resultados obtidos como sendo uma "verdade absoluta", inquestionável, a melhor e única resposta.

Talvez a ideia seja de fato encontrar o meio do caminho. Sempre cabe para, se questionar e buscar outros caminhos e possibilidades. Nunca ser um consumidor passivo do que buscadores oferecem.

Ainda ficam para outro post noções fundamentais sobre como o Google pode afetar nossa cidadania, segurança, privacidade...conversa para outra vez!



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Referências:
[Link 1:]
[Link 2:]
[Link 3:]

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16 de out de 2014

Democracia de sofá e mídia partidarizada

Por: Eliana Rezende

De um sofá a vida parece ser... até confortável.
Pode-se aninhar preguiçosamente, ajeitar uma ou outra almofada e acomodar-se diante da TV.
Preguiçosa e languidamente consomem-se guloseimas e toda forma de venenos prováveis e improváveis.
A democracia assim exercida fica fácil. Um consumo estreito e raso, muitas vezes sem crítica aprofundada. Chavões se repetem como mantra, ódios destilados.

A mídia (e, esta sim cada vez mais partidarizada) oferece diuturnamente um espetáculo de desinformação como tática, com esvaziamento do que seja o sentido de sua existência que é a de informar.


Como num ringue, cada um quer dar o último golpe. Aquele que levará o adversário ao tatame, sem chances de pôr-se em pé ainda durante o combate. Não importa se a vitória dar-se-á por pontos.
Em diferentes momentos vê-se nitidamente que é um vale-tudo de parte à parte.
E como tudo o que representa violência, assistida e consumida, não há crítica consistente.

Achincalhos, vazamentos, supostos istos e aquilos.
Como num roteiro escrito para dramalhões e novelas tudo transcorre bem amarrado e conduzido. De fato um espetáculo de sofá! Mas democracia é mesmo algo muito diferente. E roteiros, quando saem do script, sem dúvida causam algum transtorno.

Em verdade, o exercício da cidadania e democracia feitos a partir de sofás apresentam-se como alienantes. Viciam-se olhos e ouvidos e o mantra repetido soa como verdade absoluta, abandona-se com isso a capacidade de pensar e articular por conta própria preceitos e informações.

Paradoxalmente, e segundo os dicionários, Democracia teria como uma de suas principiais funções:
“a proteção dos direitos humanos fundamentais, como as liberdades de expressão, de religião, a proteção legal, e as oportunidades de participação na vida política, econômica, e cultural da sociedade. Os cidadãos tem os direitos expressos, e os deveres de participar no sistema político que vai proteger seus direitos e sua liberdade”.
E em nome dela, e a partir do sofás, todos estes direitos acabam sendo esquecidos, e o vizinho do lado no outro sofá pode ser seu “inimigo público” número um. Complexidades do humano...
Afinal, ser bom em algumas concepções significa suprimir direitos e impor os seus próprios. Ainda que isto signifique invocar toda sorte de impropérios em nome da lucidez partidária.
Mas não há apenas os adeptos da democracia de sofá!


Há os que escolhem uma outra forma de manifestação: vão às redes sociais, e dali do seu suposto anonimato transgressões, preconceitos, ódios e mesquinharias são ainda mais reproduzidos e incentivados por seres que, incapazes de pensar sobre, replicam compulsivamente tudo o que parece ir de encontro às suas verdades.

Destituídos do sentido de convívio que a cidadania oferece, e cada vez mais isolados tais indivíduos assemelham-se a simples autômatos. Usados, apenas e tão somente, para fazer volume e compor massa de manobra.  Fazem apenas eco. Servem àqueles que, sem escrúpulos, tem objetivos claros de manutenção das suas teias de poder. Servem em quantidade e nunca em qualidade de pensamento crítico.

A Internet, favorece com isto a opressão, alienação e reducionismo se utilizada, não como veículo de expansão de liberdades e livre pensamento. Rapidamente pode sair da esfera das liberdades para transformar-se na mais sórdida vilania contra o diferente, contra o Outro. Pode sair da livre expressão para a restrição e apequenamento de pessoas, ideias e projetos. Daí para intolerância, preconceito, ódio é um passo bem pequeno. Esgotadas as possibilidades de discurso racional o último e mais vil argumento é a desqualificação.

Da cômoda poltrona, ou em cima de um sofá, diante de uma tela, é fácil distribuir infâmias, achincalhos e venenos. Mas o que cada um destes faz quando estão nas ruas, no trabalho, na escola, na vida? Com o que contribuem? O que fazem para tornar sua existência e a dos demais melhor?
São estes mesmos que esperam que todo lhes caia do céu? É preciso lembrar que até isto anda em falta!
Veja São Paulo...

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8 de out de 2014

Infância roubada

Por: Eliana Rezende

Roubam-se infâncias. Expropriam-se direitos e vidas.
Do lado de fora, guerra e ruínas, pouco para comer, trapos para vestir, feridas para cuidar. Janelas sem vidros, paredes cobertas de mofo. Para aquecer-se apenas o calor de outros corpos. Pés descalços e desolação ao largo. Caminhos estilhaçados feitos de abandonos, pedras e entulhos.
Não há para onde voltar e nem para onde ir.
Tanta agrura sob luzes e sombras... 

Cenários de desolação, fome, morte, doenças e condições desumanas. A guerra retira de todos sua dignidade e vontade. Instala apenas o básico da luta pela sobrevivência, nem que esta, ao invés de pautar-se na solidariedade, paute-se na luta contra o próximo. Luta entre desiguais. Sempre...

Pauperismo físico, mental, emocional... Almas carentes e em agonia de ser e estar.


Mas se não estão em campos de refugiados ou áreas de guerra, encontram-se em campos de carvão, minas, oficinas, lavouras... onde suas mãos miúdas tecem, quebram, queimam migalhas que garantem a manutenção apenas diária. Cobrem-se de terra, lama, poeira, cinza, graxa. Consomem-se ante o calor escaldante, gélidas temperaturas ou chuvas torrenciais.

O asfalto os planta em cruzamentos de espaços urbanos, onde bolas, balas e malabares tornam-se moeda de troca para engrossar formas de expropriação das pequenas somas obtidas no decurso dos dias.

Há ainda o próprio corpo: destituído, expropriado, prostituído. Possuído à força, pela vilania ou simplesmente pelo prazer do sofrimento do mais fraco. Não necessariamente vem do desconhecido e distante. Pode morar sob o mesmo teto. Pode ter nas veias o mesmo sangue. De novo luta entre desiguais.

Sem solidariedades, encontram no silêncio armas contra si vindas de iguais veias. Muitos tem nos progenitores as figuras de cúmplices coniventes.  


A exploração infantil tem assim muitas faces. Mas há também outras formas de abandono!
Aquelas onde não há o cuidado dos limites. Dos nãos. Onde o excesso material é fornecido para compensar ausências e carências emocionais e de filiação. Deixados a sós e cuidados por suas babás eletrônicas descobrem cedo que seu poder de barganha é dado pelo que conseguem consumir.

Consumir se transforma no objetivo único e propósito de suas vidas. As relações passam a ser medidas apenas pelo que se possui. Pequenos e cruéis ditadores nas suas relações com os mais velhos e ausentes. Ausências feitas não apenas de presença física, mas de sentidos morais, éticos e de valores.


Tiram-se de existências tempos... da infância, da inocência, da alegria e leveza, do brincar!
Sequestros de chances e de possibilidades.

Para onde ir? Com que tintas mudar as cores desta paleta?
Onde está o sonho roubado? Por qual janela voou?
Provavelmente no próximo sorriso que nasce, na vida que brota em meio as pedras, nos raios da luz pálida de um dia dourado de outono, nas solidariedades tecidas por vidas que se cruzam e compatibilizam...


Ou...
Na vida que se deixa voar e liberta-se!



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Desagravo paulistano

Por: Eliana Rezende

Em geral, o que move a escrita são inquietações e o caso específico das eleições de outubro de 2014 deixaram-me várias delas aqui dentro. 
Reflexões ainda que sob o calor da hora são inevitáveis.
Meu ponto de observação é o de uma paulistana, nascida, vivida e malcriada nesta terra e, que assiste entre perplexa e estarrecida, os resultados de urna do seu Estado a partir de seu exílio voluntário.

São Paulo é para mim uma grande incógnita e pergunto-me: o que foi que aconteceu?
Não sou nenhuma militante política, mas é impossível não pensar no grau de despolitização em que a sociedade paulistana se encontra.
Diretamente de seus sofás e diante de noticiários pasteurizados repetem o mantra que ouvem de uma imprensa que prática sem pudor a desinformação como tática.
Frases prontas, jargões, transferências de responsabilidade a outras instâncias de poder e nada mais. Seria o caso de falarmos em amnésia coletiva, opacidade intelectiva ou apenas e tão somente obtusão e burrice?
E da parte da imprensa? Blindagem partidária? Má fé?


Pergunto-me como é possível o Estado onde houve as maiores manifestações por Saúde, Educação, Transporte, Segurança, ir às urnas e (re)eleger Geraldo Alckmin como Governador, mais do mesmo há décadas!
Não era o "novo" que se pedia?!

Será mesmo que se esquecem que há mais de 20 anos no poder é responsável pela ingerência e decadência que São Paulo assiste em todos estes âmbitos de descontentamento?
Será que se esquecem que é neste Estado que foi instituída a aprovação automática levando analfabetos funcionais a acharem que estão alfabetizados?
Esquecem-se que no ensino médio, em português, apenas 26,8% dos alunos têm desempenho adequado; em matemática, o número cai para 4,8%, segundo dados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação de Ensino Básico) de 2012? 

E será que se esquecem dos salários pagos à classe dos professores e que por décadas faz do ensino de São Paulo um dos piores do Brasil? E que se São Paulo fosse um país, estaria na 58ª posição, abaixo de Brasil, Uruguai e Chile e acima somente de oito países, incluindo Jordânia, Argentina, Colômbia e Peru?



Será que se esquecem da truculência, a violência e a criminalidade que assolam  o estado, e que em boa parte vem dos próprios quadros da polícia estadual?
Será que se esquecem dos motins, rebeliões e ataques realizados de dentro dos presídios paulistas para espalhar terror e morte pelas periferias e áreas centrais da cidade? Presídios estes usados como filial do crime e da contravenção, com o consentimento e imobilismo do Estado?
Onde nem celulares deixam de ser utilizados?

PCC e o crime organizado dos presídios paulistanos

Será que se esquecem que existem risíveis 74 Km de linhas de metro construídas em mais de 20 anos de governo em uma cidade que os índices de congestionamento no final do dia batem 340-380 km em alguns dias da semana?! Com uma colher de sopa, tuneis são cavados com velocidade maior em presídios!
Que os mesmos indecentes trilhos oferecidos de metro escondem atrás de si dinheiro puro de propinas e corrupção cujos cofres na Suíça estão abarrotados e cujos termos disso nem são tocados ainda que de leve pela mídia paulistana e por tabela nacional? E que boa parte do financiamento de campanhas vem exatamente destas fontes? 
E ainda se esquecem das constantes panes e problemas nas redes de trens, prejudicando a vida e a economia do milhões de pessoas nos seu direito de ir e vir, produzir?
Será que não enxergam a quantidade absurda de tráfego de caminhões nesta metrópole, onde apenas 80 mil dos 2,5 milhões de contêineres que chegam no Porto de Santos são transportados por trens?


Metrô de São Paulo
Será que se esquecem do desmantelamento da TV Cultura e da perda de grandes repórteres e grade de programas educativos bem sucedidos em nome de nada?
Será que se esquecem que a maior Universidade do país (USP), graças a imposição de um reitor pelo governo estadual conseguiu levar à cabo recursos milionários?
Será que se esquecem que o destino de implantação da USP Leste foi num terreno de lixão tóxico? 
Será que se esquecem de que o Museu Paulista USP teve de ser fechado às pressas devido a sérios problemas de deterioração causados por descuido e falta de verbas sofrido por décadas de descaso?

Esquecem-se dos desvios de verbas de dinheiro público e o consequente fechamento da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo?

E será que se esquecem das obras de saneamento e desassoreamento do Rio Tietê que nunca ocorrem, ou, como ocorreu no Governo Serra, simplesmente foi descontinuado gerando inúmeras enchentes nas épocas de chuva? O rio passa por um processo de despoluição há 22 anos. Já foram consumidos US$ 3,6 bilhões. E há alguma diferença?
Nada!

E será que se esquecem da irresponsabilidade e ingerência nos usos e recursos da água em São Paulo?
Será que se esquecem ou não sabem que somente 50% do esgoto é coletado e tratado pela Sabesp.
O restante corre livremente para os rios e mananciais, deixando-os malcheirosos e poluídos?


Reservatório da Cantareira - exemplo de ingerência Estatal
Mas, se não bastassem todos estes esquecimentos cristalizados em repetições cotidianas como uma normalidade e modus vivendi paulistano, temos a sagração de tudo em nomes como Celso Russomano, Tiririca, Feliciano, José Serra e Maluf para ficar como os mais votados!
Heim?

Ai, faltando-me palavras, faço minhas as de outro paulistano, José Simão, direto de sua coluna diária:
"E vendo a cara de todos que ganharam, eu pergunto: pra que teve manifestação mesmo?" 
Será que a "locomotiva paulistana"decidiu ir desgovernada a todo vapor para o passado reacionário?
Será?!

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27 de set de 2014

Quero meus direitos!

Por: Eliana Rezende

E de repente, num mundo onde é sempre tão importante garantir espaços e reivindicações nos vemos diante do avesso dos direitos.
Quem diria que teríamos que reivindicar o direito à ficar velhos, morrer, ser infeliz ver por outra, ser esquecido nas redes?
Isso mesmo!
Pode parecer absurda a ideia de direitos para tais temas. Mas é que de repente tornaram-se proibidos e evitados como tabus.

Em nossa sociedade as pessoas confrontam-se com os dilemas de ser sempre jovem, torneado, "sarado", sem vincos, marcas ou sinais. Envelhecer parece ser o maior de todos os castigos e se tais anos vierem acompanhados de rugas e cabelos brancos é o fim! Não se deseja ou almeja o tempo da maturidade e as pessoas não aceitam o tempo como um aliado. É o inimigo a ser combatido. As armas são velhas conhecidas: terapias botulínicas, cirurgias plásticas e todo um arsenal de tratamentos para corpo, pele, vitaminas e afins.

Não se entende os sulcos da pele como marcas da existência e como a vida inscreveu em nós nossas emoções e tudo pelo que passamos. São páginas de nossa existência exposta à leitura de todos os que nos olhassem. Indicariam em outras sociedades, o quanto de sabedoria acumulada e que poderiam ser compartilhada com os mais jovens.

Se envelhecer é tabu, morrer acaba sendo o maior de todos os fantasmas: adia-se de todas as formas possíveis este dia. Tenta-se prolongar ao máximo esse momento e desejar a boa morte parece ser desafiar a lei vigente de que se deve querer viver para sempre, custe o que custar! A morte, tida como tão natural e parte indissociável da vida nas civilizações primitivas, participada por toda a comunidade e experienciada por todos, inclusive por crianças hoje ocorre na reclusão de hospitais, velórios privados e o mais longe possível do olhar social. A morte foi apartada da vida e chega-se a dizer que é seu contrário, quando em verdade é apenas sua continuidade.

Morrer passou a ser uma indústria que maquia e afasta o desconforto do convívio com a dor e com o luto. Afinal, como encaixar este rito numa sociedade que tem que estar feliz todo o tempo?
Como encaixar tristeza, dor e perda numa sociedade que gasta fábulas numa indústria farmacêutica que produz ininterruptamente a química da felicidade, que combate tristeza, depressão, melancolia, e que oferece ácidos para manutenção de euforia constante? Uma sociedade que seu principal índice de felicidade é medido por seu poder de consumo e posse (seja de bens, seja de pessoas ou coisas)?


Sorrisos plastificados, quase mumificados para o "selfie" do dia.
Todo lugar é lugar para a imagem congelada de uma pretensa felicidade vivida em um dado grupo ou situação. Afinal, nas redes não há espaços para o que não seja sensacional, sorridente, excitável. Caras e bocas, gestos e corpos se repetem em poses estudadas em frente a espelhos e diante de um gadget. Nada mais é novo ou inédito. Tudo é massiva e entediantemente igual ao dia que passou e a foto anterior. Roboticamente as pessoas reproduzem-se em série, ficamos sempre com a sensação de que todos fazem tudo igual,apesar dos constantes descartes, obsolescências ou lançamentos tecnológicos.

E num ambiente de substituição constante de tantas felicidades que parecem acontecer em carrossel, o direito ao esquecimento é uma ficção. Uma vez exposto ao compartilhamento em rede nunca mais apagamos as marcas de nossas pegadas digitais. Nem a morte física parece impedir nossa vida digital. Pairamos pós-morte num locus virtual com memoriais e mensagens deixadas em nossas páginas pessoais nos dizendo quanto éramos "divertidos" e felizes enquanto vivíamos.

Por isso, minha reivindicação ampla, total e irrestrita ao meus direitos inalienáveis.
Quero meu direito a ficar velha, morrer, ser infeliz vez por outra, e ser esquecida em rede.
Será tão difícil conseguir isso?
Qual suprema corte concederia tal direito?
E sob que condições?  




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19 de set de 2014

Desinformação como tática midiática

Por Eliana Rezende

Como profissional da informação, custa-me assistir diariamente verdadeiros atentados contra aquilo que considero a coisa mais importante que caberia a meios de comunicação: a informação como matéria-prima tanto para a tomada de decisões quanto para o exercício de cidadania. 

Mas infelizmente, e muito especificamente no caso da imprensa brasileira, temos o que alguns profissionais da área chamam desinformação como tática!




Vejo que mais do que corrupção, escândalos, manifestações, inflação ou qualquer outro termo utilizado pela grande imprensa o mais crasso e perigoso à democracia é a desinformação.  Pior, quando é uma escolha, uma opção dos veículos de massa que pretendem, com esta ação, pautar como a sociedade se organiza, politica, social e economicamente.

Cito alguns exemplos neste sentido. 
Em todo o período que antecedeu à Copa do Mundo, o Brasil assistiu a uma onda de pessimismo e de queixas que se reproduziam como mantra.
Os meios de comunicação, realizando um papel absurdo de partido político tentava, por meio de meias verdades e desinformação, gerar mal estar e pessimismo nos brasileiros e desconfiança no resto do mundo. Por seu turno, via as pessoas repetirem chavões acríticos que ouviam nas mídias e, sem pensar sobre os reais interesses por trás de tudo o que a imprensa noticiava e envenenava.

Os resultados todos nos lembramos bem: chegava a haver um mal estar nos meios quando tinham que reconhecer que tudo estava correndo muito bem. E o pior: quando os elogios rasgados vinham da imprensa internacional. Toda a desinformação voltou-se contra seus próprios construtores. O descrédito foi geral! E assolados em duas frentes: de um lado uma campanha de marketing abominável tentando colocar nas mãos de alguns jogadores todo o talento e magia de nosso futebol. Fiasco de novo. O futebol envergonhou e mostrou-se patético: ocupou sua real posição no mundo do futebol internacional. Cartolas e  jogos de interesses foram expostos em praça pública. Dois tiros no pé! Erraram em todas as suas previsões. Ainda bem que tinham dois pés para, democraticamente, dar-se um tiro em cada um e ainda sobravam dois, lá atrás.

A imprensa no Brasil deixou de fazer jornalismo há muito tempo. 
Como profissional da Informação, esta é uma conduta que me irrita profundamente... 
Cito, Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:  
"(...) Se o leitor ou leitora afeto à visão crítica dos acontecimentos fizer uma visita ao noticiário dos últimos doze meses, vai observar que o estado de espírito negativo que contamina o Brasil não decorre de um efeito colateral do noticiário: é o propósito central da atividade da imprensa hegemônica.
Quando o sistema da comunicação abandona o pressuposto da objetividade para atuar como lobby, mesmo às custas de suas necessidades e interesses de longo prazo, pode-se dizer que houve uma ruptura entre jornalismo e imprensa. 
O núcleo tático desse procedimento é a imposição de meias-verdades, que produzem a desinformação geral; a desinformação estimula protestos, crises, decisões equivocadas de investidores, e − o mais grave − descrença no sistema democrático (...)" 
Lembro de um fato ocorrido que dá bem este exemplo de desinformação como tática.

Era um evento de índios em Brasília. 
De repente, uma foto com cenografia pura e simples. E já tínhamos por parte da imprensa uma manifestação dos índios contra o Planalto! 

Nenhuma discussão sobre o seu número, sua representatividade e seus objetivos, quanto que em termos percentuais aquele número significa na população do Brasil e quais os aspectos que são antes de tudo culturais. 
As fotos maquiadas e muito focadas servem aos interesses lobistas da imprensa e não tem nada que ver com informação. 


A vítima pela lente da mídia
O mesmo ocorreu quando se tentava dar aos black blocks uma dimensão infinitamente maior do que de fato o foram. Discussão que até sociólogos se recusavam a fazer, já que enquanto expressão e volume nada representavam. Eram de fato situações isoladas que tentaram ser exploradas e superdimensionadas pela imprensa em geral. 

Vejo o nosso papel como sendo exatamente este: pôr tais temas em pauta e de fato questioná-los. 
Não ser meros consumidores de informação. Já falei sobre isto, no post "Consumidores ou Coletores de Informação?" que ainda acho bem atual e pertinente para este caso. 

Transcorrido o tempo, mas de novo nesta orquestração de desinformação, temos a construção quase que diária de factoides*. 



*Um factoide (nova grafia, pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa) é uma declaração (falsa, não verificada, ou fabricada) questionável ou espúria apresentada como fato, mas sem provas. O termo também pode ser utilizado para descrever um fato especialmente insignificante ou novo, na ausência de contexto muito relevante. O termo é definido pelo Compact Oxford English Dictionary como "um item de informação não confiável que é repetido tantas vezes que se torna aceito como fato"

Os factoides são a tentativa de pautar os caminhos de nossa democracia a partir das páginas de semanários (ex.: Veja). Para falarmos o mínimo, sua construção de escândalos e capas são um atentado ao verdadeiro jornalismo! 

A condição primordial, que deveria ser ensinada, para todo aquele que deseja um dia ser um profissional de informação, é checar sua fonte, indicar provas. Boataria não serve à ninguém e muito menos à informação.
Mas nesta luta de trincheira midiática o papel mais tosco coube a outros "veículos de informação" que saíram atrás de reproduzir o boato. Aí, de fato estamos em dificuldades.

Não cabe à imprensa julgar, supor, investigar nem condenar. Cabe apontar vias de elucidação, esclarecer de forma articulada e inteligente, mostrar meandros e conexões, construir questões que problematizam de fato e que não sejam apenas névoa para confundir. Mas em todos os casos o que temos são escolhas e informações. Ambas sempre estiveram em territórios e disputas pelo poder e livre pensamento. A desinformação no entanto, tenta anular os dois.


Provavelmente, não seremos nós a mudar tais opções, pois não nos pertencem. Mas temos que ser nós a aprender a ter uma postura crítica e arrazoada. Nunca embarcar no primeiro mantra que ouvimos divulgado. Do contrário perdemos todos! E seremos avassalados pela desinformação. Afinal, dados são apenas dados...informação e posicionamento crítico são outra coisa. 


O papel dos meios de comunicação tentando realizar pilhagem de dados e apresentá-los para obter algum protagonismo noticioso, em geral revela-se, como de fato tem ocorrido sucessivamente com VEJA, um malogro patético. 




Eis o papel que nos cabe:
Ser agente e profissional nos processos de lidar, tratar e usar a informação. Simplificações e passionalidades não servirão e logo, logo, teremos sim que nos posicionar de forma consciente frente à uma urna.
Isto sim me preocupa!


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